Corpo: um território em disputa

Post escrito por Mariana Lacerda*

Durante a última semana, circulou nas redes sociais uma matéria que divulgava o resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Ideia. Os resultados afirmavam que “apenas 03% dos homens se acham feios”. O que me motivou a escrever esse texto foi o incômodo diante a grande quantidade de compartilhamentos dessa matéria, em uma perspectiva apenas cômica ou memética, como se os dados apresentados não refletissem no profundo grau de machismo e racismo presentes na nossa sociedade.

No livro “Calibã e a Bruxa”, Silvia Federici escreve como o movimento de mulheres e as teóricas feministas viram o conceito de “corpo” como uma chave para compreender as raízes do domínio masculino e a construção da identidade social feminina.

A identificação das mulheres com uma concepção degradada da realidade corporal (pelos, menstruação, peso…) foi historicamente usada para a consolidação do poder patriarcal e para a exploração masculina do trabalho feminino. Minar a autoestima das mulheres é parte da estratégia de violência por meio da qual os sistemas de exploração centrados nos homens tentaram disciplinar e se apropriar do corpo feminino.

O controle exercido sobre nossos corpos, sobre nossa função reprodutiva, o papel dos maus tratos, dos estupros e da IMPOSIÇÃO DO PADRÃO DE BELEZA, como condição de aceitação social, constitui às condições sociais e históricas nas quais o corpo se tornou elemento central e esfera definitiva na constituição da feminilidade.

Federici afirma que, na sociedade capitalista, o corpo é para mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados: o principal terreno de sua exploração e resistência, na medida que o corpo foi apropriado pelo Estado e pelos homens, forçados a funcionar como um meio para reprodução e acumulação para o trabalho.

Vejamos que o processo semelhante acontece com a população negra. O colonialismo é uma ideologia constituída a partir da diferenciação, que elaborou a ideia de raça para justificar a exploração, colonização e escravização por partes dos setores da Europa sobre outras nações, através da hierarquia dos povos, raças e culturas. Esse sistema coloca o branco como sinônimo do belo em contraposição ao negro, que estaria no polo do que é feio. Também é possível perceber como o colonialismo constituiu a ideologia do branqueamento como condição de aceitação social e prestígio na constituição da sociedade brasileira. No texto “racismo e sexismo na cultura brasileira”, Lélia traz o exemplo do carnaval para explicar o mito da democracia racial. A autora afirma que todo mito mais oculta do que mostra. Durante os dias de carnaval, as mulheres negras são vistas como as “globelezas”, deusas, rainhas etc., porém, no dia seguinte, passam a ser a “negra do sovaco fedorento”, aquela que entra pela porta dos fundos sem ser vista. É a beleza das mulheres negras que o mito da democracia racial tenta ocultar, com suas estruturas mais perversas.

O sistema patriarcal e o colonialismo surgem em momentos próximos da nossa história e usam de estratégias semelhantes. Nossos corpos podem ser tanto uma fonte de poder como uma prisão. Ou seja, a construção social do que é SER BELO perpassa por estratégias de dominação e acumulação do capital.

Padrão de beleza, mercado estético e o falso discurso de liberdade

Retomando a pesquisa, ela também traz o dado que a maioria dos homens brasileiros são contrários à ideia de se submeter a um procedimento estético. Ao contrário do que acontece com as mulheres. De acordo com estatística publicada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), mais de 800 mil mulheres no Brasil fizeram alguma intervenção estética em 2018. Outro dado alarmante aponta o Brasil como líder mundial no ranking de cirurgias plásticas em jovens. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, dos quase 1,5 milhão de procedimentos estéticos feitos em 2016, 97 mil (6,6%) foram realizados em pessoas com até 18 anos de idade. Somente nos últimos dez anos, houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos. Entre as cirurgias mais procuradas estão os implantes de silicone, a rinoplastia e a lipoaspiração (e mais recente a Lipo Led).

Para o psicólogo Michel Simões as redes sociais desempenham um papel importante nesse processo de insatisfação, seja pelo alcance “que elas proporcionam, quanto pelas possibilidades que elas oferecem”. Simões acredita que o universo virtual, ao veicular a ideia de corpo e estilo de vida perfeitos como algo real e concreto, cria padrões e ideais de beleza que são inatingíveis.

Esse mesmo crescimento acontece no momento em que muitos jovens reivindicam discursos de liberdade, inclusive atribuindo a uma “liberdade de escolha” fazer ou não estes procedimentos. Outros discursos apontam que acham importante para se “sentir bem”.

O que eu quero chamar atenção é a profunda violência do capitalismo racista e patriarcal sobre nossos corpos. O que nos faz não nos sentir bem não é a diversidade dos nossos corpos, mas sim o padrão de beleza imposto, e como apresentado no início do texto esse padrão existe não apenas por uma questão estética, mas por uma estrutura de dominação da nossa força, da nossa liberdade e do nosso poder. 

Como aponta Audre Lorde em seu texto “Usos do Erótico: O erótico como poder”, para se perpetuar, toda opressão precisa corromper ou deturpar as várias fontes de poder na cultura do oprimido que podem fornecer a energia necessária à mudança.

*Mariana Lacerda é militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) no Ceará

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