Nossa tarefa revolucionária: colocar o feminismo no centro do debate anticapitalista

*Por Raquel Malina

Atualmente, o debate sobre feminismo está na pauta de quase todos os meios de comunicação hegemônicos e alternativos, o discurso do empoderamento feminino ganhou tamanha repercussão que vem sendo, inclusive, reivindicado por partidos com vieses conservadores e liberais (sem dúvidas, com muitíssimas restrições, são discursos do tipo ‘estético’, como no caso emblemático do Partido da Mulher Brasileira). Mas afinal, diante de tantas definições do que seria a “questão da mulher”, por que nós da Marcha Mundial das Mulheres defendemos que o feminismo dialogue com os acontecimentos territoriais, nacionais e internacionais, prioritariamente anticapitalista, antiracista, anticolonialista? E por que as organizações do campo da esquerda que (ainda) não defendem um feminismo revolucionário precisam centralizar essa luta na sua práxis?

Uma das grandes contribuições do movimento feminista foi problematizar quem era considerado o sujeito histórico, colocando assim, que a história muitas vezes partia de um ponto de vista que tinha gênero (masculino) e cor (branca). Esse foi um passo importante pra acumularmos conhecimentos sobre aonde estavam as mulheres nos grandes processos de mudança da humanidade e também em quais dinâmicas da vida social elas estavam inseridas (família, instituições, política).

Uma das grandes contribuições teóricas sobre esse assunto vem da feminista italiana Sílvia Federici, em especial sua obra Calíban e a Bruxa (editora Elefante 2017), que só ganhou uma versão em português esse ano. Na sua principal obra, ela investiga o que Marx denominou de ‘acumulação primitiva’ (os aspectos necessários de mudança do regime feudal para o regime capitalista), colocando que a Inquisição – denominada popularmente de caça às bruxas – foi um desses processos necessários de acumulação.

A autora se foca em alguns elementos para chegar a essa conclusão: 1) O final do período feudal foi uma época de muitas revoltas populares e conflitos, em especial de conflitos com camponeses, graças ao novo cerceamento de terras que surgia; 2) A Europa, concomitantemente, expandia seu mercado (através da colonização do “Novo Mundo” e do tráfico negreiro para mão de obra escrava), e sofria com o final do período da Peste Negra, em que quase 1/3 da população europeia originária morreu. Era preciso uma política de controle de natalidade, no sentindo de expandir sua população novamente; 3) O denominado campesinato era formado por uma maioria de mulheres que, através de tradições centenárias (ou mesmo milenares), resistiam aos processos de catequização e sincretismo religiosos e detinham conhecimentos de medicina, ou seja, tinham conhecimento sobre os próprios ciclos, sobre concepção e aborto, sobre o efeito de plantas na cura de doenças. Alçar a figura da mulher campesina como alguém de mal caráter, não confiável, como uma ‘feiticeira’, era uma estratégia ideológica para aniquilar as resistências campesinas populares.

E como todas essas informações se relacionam com o que vemos acontecendo hoje no Brasil, na América Latina e no mundo? Todo esse processo influiu para que as mulheres se tornassem a maioria da mão de obra alocada em subempregos, nos quais as condições de trabalho são precárias ou inexistentes (muitas vezes, os tais “trabalhos de meio período”), um fenômeno que hoje denomina-se “feminização da pobreza”.

“Pode chover, pode molhar, sou feminista até o machismo acabar!”. Foto: FdE

A partir da crise de 2008, vemos ruir um modelo de neoliberalismo que procurava incorporar algumas demandas vindas de um campo progressista como, por exemplo, a igualdade de gênero. Após a crise de 2008, a agenda de privatizações e precarização da vida toma centralidade novamente, mas agora alinhados com uma agenda ideológica xenofóbica, racista, misógina (fenômenos como Jair Bolsonaro, MBL, os protestos a favor do impeachment da presidenta legítima Dilma).

O que estamos observando nesse momento é um novo processo de acumulação, de uma nova fase do capitalismo global que, assim como no final da Idade Média ascendeu com um discurso misógino, ascende hoje com a volta de ideais misóginos e racistas. Ideais esses que foram essenciais para a expansão do capitalismo europeu e que hoje se apresentam de outro modo, com a exaltação de um nacionalismo de direita, com discursos contra a imigração dos povos (causados essencialmente pela destruição dos chamados países de ‘Primeiro Mundo’ nos países pobres ou de economia ascendente), com discursos que pedem a volta da mulher como única e exclusiva responsável do privado, defendendo a família tradicional heteronormativa. Tudo isso sem deixar de lado as políticas neoliberais de precarização da vida e os ataques à soberania de povos de diversos países, como no caso do Brasil, Venezuela, Bolívia.

Ou seja: o machismo não é apenas uma questão que se agrava com o avanço capitalista, o MACHISMO É UM DOS PILARES DE SUSTENTAÇÃO DO SISTEMA CAPITALISTA, desde seu início, como uma questão estruturante de funcionamento do próprio sistema. Um feminismo revolucionário e anticapitalista não é apenas necessário como é ESSENCIAL se quisermos debater, analisar e modificar o que é ‘a questão da mulher’, o que é a luta de classes e quem são seus atuais sujeitos. Os movimentos populares feministas estão aqui para reivindicar sua posição: não queremos mais tratar de ‘gênero’ na política, queremos PRIORIZAR O FEMINISMO no debate revolucionário para que seja possível, finalmente, avançar em tantas questões, especialmente no continente Latino Americano que, apesar de seu histórico de luta social, ainda tem altos índices de feminicídios, estupros e violência contra as mulheres.

Em marcha até que todas sejamos livres!

*Raquel Malina é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro

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