Precisamos falar sobre o impacto da pobreza na vida das mulheres

*Por Tita Carneiro

Nos anos 2000 a Marcha Mundial das Mulheres surgiu como uma campanha de enfrentamento à violência contra as mulheres e de combate à pobreza, em que as ações começaram no dia 8 de março e terminaram em 17 de outubro. Impulsionado a resistir ao arrastão de retirada de direitos da classe trabalhadora na década de 1990, que se expressavam pelo alto índice de emprego informal, desemprego, baixos salários e miséria social. Assim, fomos nos constituindo em conjunto com os movimentos sindicais, partidos políticos e toda uma variedade de movimentos sociais que empunhavam campanhas com o objetivo de enfrentamento ao neoliberalismo, tais como a organização do Fórum Social Mundial, a paralisação das negociações em torno da Aliança do Livre Comércio das Américas – ALCA e a retomada da perspectiva de um feminismo combativo construído a partir de bases populares.

Quando recordamos nossa história do povo brasileiro, lembramos que o primeiro movimento popular e de massas após a instauração do AI-5 pela ditadura militar foi protagonizado pelo movimento de mulheres populares que àquele momento sacudiam as ruas na luta pelo fim da carestia da vida. “O preço do custo de vida sobe pelo elevador, enquanto nosso salário sobe pela escada” ou “Já temos as panelas, só falta o que pôr nelas” foram algumas das palavras contra a ordem utilizadas pelas mulheres populares naquele contexto. Muito expressivas também foram as campanhas de luta por creches assim como o movimento de mulheres pela anistia de presos políticos.

Em um momento de cerco político e de repressão militar, levantar essas bandeiras e impulsionar movimentos massivos que questionavam o engodo de que a economia brasileira tenderia a provocar melhoras na vida da classe trabalhadora mostrou-se como iniciativa de muita coragem e subversão. Elementos do cotidiano das trabalhadoras eram trazidos à tona nos atos de rua, documentos e paródias tais como o questionamento do preço do feijão, aumento do gás de cozinha e sobre a falta de comida para as crianças.

“Quando olhei os preços altos
De tristeza até chorei
Dinheiro pouco, salário baixo,
Não há quem possa com esta inflação”.

Guardadas as devidas proporções dos diferentes contextos históricos, sugerimos que a encalacrada em que estamos metidos no atual momento exige a retomada de manifestações populares de caráter massivo. Enquanto militantes de movimentos de mulheres e feministas estamos disputando com a política econômica neoliberal o tempo das mulheres entre a sobrevivência em empregos informais, as demandas com o trabalho doméstico e de cuidados e a iniciativa de organizar-se e resistir coletivamente a esta avalanche de ataques.

Que brechas o capitalismo racista e patriarcal desde a sua mais recente reorganização neoliberal, tem deixado abertas? Como podemos provocar ainda mais fraturas? Que pautas são capazes de aglutinar o maior número de trabalhadoras? Quem são os nossos principais inimigos? Que estratégias feministas coletivas podemos construir para a nossa sobrevivência? Como fermentar uma luta comum que expresse as consequências do desemprego na nossa vida cotidiana em casa, no bairro e que seja a mesma luta contra os projetos que tramitam soltos pela retirada dos nossos direitos de trabalho e previdência no congresso nacional?

Quando olhamos umas nos olhos das outras, pulsa a inquietação acerca de quais serão as estratégias necessárias a impulsionar uma campanha nacional de caráter popular e massivo tendo como linha de frente as demandas concretas na vida das trabalhadoras brasileiras, considerando toda a sua abrangência, ou seja, aquelas que estão sindicalizadas, as que trabalham por conta própria, as que se definem como donas de casa.

Como engendrar lutas no atual contexto capazes de reinventar modelos organizativos e de percorrer temas que marcaram com a mão mais pesada a vida das trabalhadoras brasileiras, tais como a fome, a falta de creches, a falta de saneamento básico, a falta de investimento em saúde, educação, transporte público, o combate à violência e à pobreza? Matérias inconclusas do período democrático brasileiro e que se tornaram calamidade desde a interrupção da democracia em nosso país.

O caminho está aberto e nós estamos nos movimentando de forma coletiva na batalha cotidiana de nos mantermos vivas. Como estamos em marcha, o momento político exige a cadência de nossos passos, ritmo e coração. É fundamental contestarmos a naturalização da violência contra as mulheres, assim como o agravamento da pobreza e o estímulo às falsas saídas individuais como única possibilidade de vida. Precisamos defender um projeto de nação construído por nossas próprias mãos e que expresse a diversidade do povo brasileiro. Um horizonte possível no qual ninguém fica pra trás.

Mudar o mundo para mudar a vida das mulheres! Mudar a vida das mulheres para mudar o mundo!

“Essa força lilás provoca pulsações e vibrações,
interna, externa, internacional.
Vê-se nas formas de agir a pressa de prolongar jornadas,
que enraivece os poderes, desestabiliza as ordens,
planta indignação e desperta as gentes.
Sente-se urgência de espalhar os aromas de março,
que emana dos tempos de outrora e de agora” (Diva Lopes).

 

*Tita Carneiro é militante da Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco

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