A “experiência Copa”

Por: Célia Alldridge*

A Copa do Mundo não é um evento isolado. Ela se insere na lógica de um modelo de desenvolvimento que favorece e prioriza os mega-eventos, as grandes obras de infraestrutura e produção de matéria prima (mineração, etc), o capital transnacional e a mercantilização e privatização do espaço público, das pessoas e do esporte. E é dentro dessa lógica que uma “experiência Copa” é promovida. A Copa do Mundo é baseada e justificada no futebol de alto nível internacional, mas sua experiência vai muito além das partidas. Entre o 12 de junho e o 13 de julho de 2014, será montado um território “de exceção”, estruturado para atender às exigências da elite da sociedade e do futebol nacional e internacional.

Para quem assiste aos jogos de dentro dos estádios, sejam brasileiros/as ou pessoas de fora, a Copa da FIFA representa privilégio (pelos preços excludentes à maioria), festa, consumo (das marcas dos patrocinadores, como a Coca Cola e o McDonalds), paixão e sentimentos nacionalistas. Entre um jogo e outro, aos/às turistas internacionais e nacionais, a “experiência Copa” oferece espaços urbanos com alta infraestrutura, “higienizados” de populações vulneráveis, livres de crimes e dotados de trabalhadores/as à seu serviço e de corpos de mulheres à sua disposição.

Copa pra quem_Não vai ter proteçãoO processo de preparação da Copa evidencia, ao mesmo tempo em que acelera, as desigualdades sociais e as contradições dessa “experiência” turística-esportiva: a exploração de trabalhadores/as nas obras dos estádios e de infraestrutura urbana, com cargas pesadas de trabalho e baixa remuneração (e sete mortes relacionados às preparações até hoje); as remoções forçadas de comunidades urbanas em todas as 12 cidades sedes, as quais deverão afetar em torno de 250 mil pessoas; o aumento significativo de exploração sexual infanto-juvenil ao redor das obras, por exemplo no estádio Itaquerão, em São Paulo (em que se realizará o jogo de abertura), onde aliciadores vendem serviços sexuais de meninas entre de 11 a 17 anos para os operários, ou no estádio Castelão, em Fortaleza, onde relatos revelam a troca de sexo por um prato de comida ou drogas como crack.

Para além dessas contradições, vemos ainda a apresentação do Projeto de Lei 4211/2012, que visa regulamentar a cafetinagem, as casas de prostituição e o lucro proveniente delas. Esse projeto, em lugar de dar apoio e oferecer alternativas socioeconômicas para as mulheres em situação de prostituição, vem regulamentar essa indústria a tempo de receber o fluxo massivo de turismo sexual esperado durante a Copa.

Camiseta da Adidas "pra gringo ver". Fonte: Blog do Comitê Popular da Copa.

Camiseta da Adidas vendida internacionalmente. Fonte: Comitê Popular da Copa.

A prostituição, assim como a Copa do Mundo, pertencem a um modelo de sociedade construído sobre relações de poder de classe, raça e gênero, e não é coincidência que haja uma tentativa de legitimá-la nesse período de preparação e realização da Copa. Um evento esportivo dominado por homens brancos e da elite, onde a mercantilização do esporte anda de mãos dadas com a mercantilização dos corpos das mulheres. Onde o corpo da mulher é uma ferramenta de marketing dos patrocinadores e a pobreza e a precariedade são os motivos principais que empurram as mulheres e as/os jovens a se submeterem a situações de extrema violência e dominação.

Nos seus moldes atuais, a Copa do Mundo da FIFA representa uma “experiência” de inclusão e poder para poucos/as e de exclusão e exploração para a maioria. E, nesse sentido, ela nos coloca grandes desafios de auto-organização, formação política e construção de alternativas, na luta pela transformação da vida das mulheres e dos homens.

* Celia Alldridge é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

Comments

  1. De acordo,mas eu tenho uma dúvida: não somos nós mesmas,com a mentalidade de auto-objetificação,que agravamos esse quadro?

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