Covardia

Por: Iolanda Toshie Ide*

Não é raro que autoridades estejam envolvidas, quando não são os protagonistas, de catervas de exploração sexual de meninas. O município de Coari, no Amazonas, é exemplar: o próprio prefeito liderava uma dessas quadrilhas.

Enquanto não veio à tona, inúmeras meninas sofreram violações de sua mais íntima integridade. Como se trata de oriundas das camadas pobres, não houve pressa em por fim a essa covardia.

A conivência, participação e, até, protagonismo de autoridades, explica a permanência da impunidade e, ipso facto, a perpetuidade desses crimes.

Reiteradamente se declara a proveniência das vítimas: a pobreza. É de se considerar que, quando se encontram no nível da subsistência, as pessoas se tornam mais vulneráveis, principalmente as mulheres. Inúmeras vezes ouvi, de mulheres prostituídas, a afirmação “ninguém pode imaginar a dor de não ter leite para por na mamadeira de um filho”.

Aproveitar-se da situação de vulnerabilidade das meninas das classes empobrecidas, é uma covardia. O poder de classe enseja esses hediondos abusos. No entanto, é importante considerar que há um outro poder que a ele se articula: o do patriarcado, pelo qual o homem tem quase todos os direitos e, a mulher, uma cidadania, no máximo, de segunda categoria.

No patriarcado, o poder do macho dá respaldo a que trate a mulher como sua propriedade, inclusive sexual. É o que explica – mas não justifica – o abuso sexual até da própria filha que, geralmente, ocorre reiteradamente.

O fato de o agressor ser a pessoa que tem o dever de proteger, torna a menina ainda mais vulnerável, comprometendo profundamente a elaboração de sua personalidade. Assim, pelo seu baixo auto-conceito, torna-se presa fácil dos machos.

A vulnerabilidade econômica, aliada à opressão patriarcal, é agravada pelas vivências de abuso reiterado. Os aliciadores estão sempre de plantão, de modo que se valem da fragilidade das meninas abusadas sexualmente, para lucrar com o comércio sexual. Daí para, quando adultas, usá-las na exploração da prostituição, é meio passo.

A pobreza dói, mas dói ainda mais presenciar mulheres sendo exploradas na prostituição, que é a exacerbação da violência machista. Enquanto lutamos para que sejam superadas as assimétricas e hierárquicas relações entre homens e mulheres, sejamos solidárias com as meninas que sofrem abusos sexuais, não julguemos as mulheres prostituídas: sejamos solidárias.

 

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Iolanda Toshie Ide é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Lins (SP).

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