Vila Autódromo: uma história de resistência

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* Por Carolina Peterli e Marianna Brito

As militantes da Marcha Mundial das Mulheres conheceram a Dona Penha em 2012, na época em que estavam mobilizadas para a Cúpula dos Povos na Rio+20. Fizemos uma visita à Vila Autódromo e ouvimos as denúncias das diversas tentativas de remoção forçada da população pela Prefeitura do Rio de Janeiro, que já aconteciam naquela ocasião para a construção do Parque Olímpico. Dona Penha, uma senhora muito simpática e forte, ainda que pequena de tamanho, nos contou um pouco da história daquele território, as lutas coletivas travadas para permanecer ali e a felicidade que era nos receber em sua casa.

Desde então, nossa relação com as mulheres da Vila Autódromo se fortaleceu. Em 2015, ano de Ação Internacional de nosso movimento,  não poderíamos deixar de pautar e dar visibilidade para a resistência incansável dessas mulheres. Dona Penha, Sandra, Nathalia, Dona Jane, Fran são apenas algumas das lutadoras que permanecem resistindo e que fazem questão de contar e recontar toda essa história, com todas as datas e a cronologia frescas em suas mentes. Não poderia ser diferente; somos nós, mulheres, as protagonistas da luta pelo direito ao território, já que somos as primeiras a sermos atingidas pelas políticas de remoção: vemos nossas famílias ruírem, nossos laços comunitários serem destruídos, as casas que construímos com nossas próprias mãos serem demolidas…

Em julho do ano passado, fizemos nossa primeira atividade com elas: uma oficina de confecção da Batucada! Essa oficina tinha um objetivo muito nítido: fornecer instrumentos concretos de luta para visibilizar a resistência da população da Vila Autódromo. O resultado, porém, foi outro. Dona Penha, ao ver as latas, foi a primeira a pegar o batuque e puxar uma música. Não parou um instante, dividindo sua atenção entre nós e o tanto de repórter, parlamentar, moradores, visitantes que ela não poderia deixar de atender e convidar para um café em sua casa. Faltava martelo? –Ih menina! Já vou lá em casa pegar pra você! – dizia com um sorriso doce. E voltava com o martelo e um lanche.

O resultado “inesperado” foi uma experiência única de solidariedade e companheirismo. A forma como todas as mulheres nos acolheram em seu território, desde Dona Penha, uma mulher de 48 anos que sofreu violência da Guarda Municipal em uma das tentativas de remoção criminosa da Prefeitura, até a Fran, uma jovem muito carinhosa e que andava conosco pra cima e para baixo nos dias de Ação; a construção de uma relação que nos tornou companheiras e nos faz seguir os passos umas das outras; a certeza de que não estamos sozinhas e que podemos aprender umas com as outras, desde realidades tão diversas… Isso é impossível de mensurar.

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Aos poucos, a prefeitura desfaz fisicamente esses laços. As remoções não apenas destroem os bens materiais, mas também os afetivos. Os laços comunitários criados por anos e anos de convivência, de resistência, de luta por um espaço abandonado e descoberto há pouco tempo pelas empreiteiras e pelo capital imobiliário. Quando a população lutava por saneamento e urbanização, aquela região era invisível; agora ela serve aos interesses de pequenos grupos de empresários que não tem nenhum compromisso com as pessoas, apenas com suas contas bancarias.

Muitas mulheres já foram removidas… Jane viu sua casa ser demolida com todos os seus pertences dentro. Ela estava numa consulta médica quando os agentes municipais chegaram e não teve tempo de retirar nada. Na quarta feira à noite, após a demolição da Associação de Moradores Dona Heloísa, Mãe de Santo querida da Vila – em uma imagem triste – sentou e observou a demolição de sua casa após pegar os últimos pertences. Dona Penha ainda está lá, mas não sabemos até quando. Eduardo Paes havia dito há poucos dias que quem quisesse ficar, ficaria e aumentou o valor das indenizações. – Pode pagar um milhão que eu não saio! Eu demorei muitos anos para ter isso tudo aqui e ficar velha aqui! Não vai ser esse prefeito quem vai me tirar!

Dona Penha, se removida, será à força. A Justiça concedeu uma imissão de posse sobre a casa dela e a remoção pode acontecer a qualquer momento. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro conseguiu uma liminar que impede a demolição da casa de Dona Penha. Mas até quando Dona Penha terá que esperar, nessa tensão, para saber se aquele lugar que ela tanto ama e no qual ela investiu sua vida para construir a sua casa e amizades continuará em sua posse ou não? O Estado mais uma vez falha em proteger a população, aquelas e aqueles que mais precisam. Aquelas e aqueles que lutaram muito para desviar de todos os obstáculos que a nossa sociedade impõe às pessoas que não nascem em famílias ricas.

Dona Penha e as mulheres da Vila Autódromo se organizam independente da política e políticos que não se preocupam em garantir melhores condições para essa gente que ousa ser feliz e produzir seu próprio modo de vida. A Associação de Moradores foi derrubada, mas ela é feita por pessoas que não arredam o pé do lugar que lhes é de direito. Não era possível esperar pelo Estado: era preciso viver, apesar do Estado e do capital. Dona Penha e todas as mulheres da Vila Autódromo são o exemplo de que o poder não permite que nós mulheres ousemos, não permite que nós sejamos livres para decidir onde e como queremos viver. Dona Penha sairá à força e a Vila Autódromo aos poucos desaparecerá, constituindo mais uma ferida no coração da cidade olímpica.

 

* Carolina Peterli e Marianna Brito são militantes da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro

Comments

  1. Parabéns ao trabalho da marcha
    Vila Autodromo pode acabar, mas o som do batuque é duradouro e vai longe retratando a historia de coragem e persistência dessas mulheres

  2. Linda história, essa vila é uma inspiração pra outras!

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