Militarização e terrorismo estatal: de Jerusalém a Jacarezinho

*Por Indra Seixas

Somos todas Palestina Livre! Crédito: arquivo MMM

A história da resistência palestina está ancorada na história do neocolonialismo que preocupa o Oriente Médio há muito mais do que setenta anos. A resistência palestina ao sionismo começou, com efeito, no final do século XIX, quando judeus europeus começaram a lançar sua empreitada de fundar o Estado de Israel. Da primeira Aliá (primeira onda de imigração sionista para a Palestina), em 1881, até a criação de Israel, em 1948; ou seja, por cerca de 7 décadas, milícias terroristas judaicas de europeus recém chegados ameaçavam a população palestina, expulsando-a de suas terras, cometendo massacres e aterrorizando a população.

Algumas dessas milícias tornaram-se famosas, tais como a Irgun e a Haganah, que vieram, mais tarde, a fundar as Forças de Defesa de Israel (IDF). Irgun foi a milícia responsável pelo primeiro atentado terrorista na região, em 1946,  quando plantou uma bomba no Hotel King David, em Jerusalém, matando 91 pessoas de diferentes nacionalidades e deixando 46 feridas. Irgun também foi a milícia responsável pelo massacre de Deir Yassin, que assassinou 107 palestinos, incluindo dezenas de mulheres e crianças, em 9 de abril de 1948, um mês antes da Nakbah – a catástrofe, quando mais de 530 vilas palestinas foram, literalmente, apagadas do mapa pelas forças sionistas. Nesse processo, 13 mil pessoas palestinas foram exterminadas e 750 mil expulsas de suas casas e de suas terras. A resistência palestina ao sionismo começou, assim, há cerca de 140 anos, muito antes da criação do Estado racista de Israel. 

Com a fundação do Estado, o que mudou foi a institucionalização de um processo neocolonial de espoliação, de limpeza étnica, de roubo de terras, de  tortura e prisões arbitrárias (inclusive de crianças), execuções extrajudiciais e massacres sob a fábula da “única democracia do Oriente Médio”. O paralelo com o processo brasileiro é inescapável: assim como o Brasil, Israel também se constituiu como um experimento econômico por meio da expropriação e exploração do povo nativo. Aqui o latifúndio primário exportador escravocrata, lá um laboratório para a criação de tecnologia de extermínio testada nos territórios palestinos, transformados em territórios de morte. Aqui, o povo preto e o povo indígena, lá os palestinos tratados como seres humanos descartáveis, cujas mortes quando aparecem na TV aparecem como um número, não como sujeitos dos quais lamenta-se a morte e honra-se a história. Aqui e lá o Estado neoliberal funcionando como gestor de um experimento necropolítico onde se normaliza “o poder e a capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer” (como nos diz Achille Mbembe) e a divisão dos sujeitos entre aqueles reconhecidos como pessoas e aqueles a quem são designados a condição de coisa. Na prática, mais do que em laboratório, a Palestina, assim como as favelas e aldeias indígenas brasileiras, foram convertidas em “campos de extermínio”

No último ataque israelense à população de Gaza, a prêmio Nobel da paz, Malala Yousafzai falou desses crimes contra a humanidade de Israel e incitou os governos e as pessoas a pressionar pelo fim da ocupação. A ocupação militar dos territórios palestinos que viola o direito internacional e instaura um regime de apartheid, promovendo a limpeza étnica conta com sistemáticos planos governamentais. Dentro do plano maior de limpeza étnica e anexação de terras, estão os chamados planos de judaização dos territórios: como o plano de judaização da Galileia, do Neguev e de Jerusalém, chamado de “a grande Jerusalém judaica” – é nesse plano que se insere Sheik Jarrah, o bairro que virou o atual ícone da resistência palestina.  

Em 1967, quando Israel anexou Jerusalém, a Cisjordânia, as colinas de Golã e Gaza, o conselho de segurança da ONU afirmou que a aquisição de território por anexação é ilegal e que a lei israelense que autodeclarou a anexação de Jerusalém oriental é nula e sem efeito. O bairro de Sheik Jarrah, que fica em Jerusalém oriental, está sob forte ataque da Potência Ocupante que força a população, através de leis que configuram o apartheid israelense, a abandonar seus lares e doá-los a colonos. Diante dessa ofensiva, o povo palestino saiu em protesto contra o roubo de suas propriedades. Vale lembrar que as famílias de Sheik Jarrah, a maioria delas, guarda a chave de suas casas, uma vez que já foram expulsas de suas casas originais em outras partes do território (em 1948) e viraram refugiadas em Jerusalém, durante a Nakbah, ou em 1967 com a instalação da ocupação militar israelense.

 Diante dos protestos pacíficos, Israel respondeu com truculência, prisões ilegais e bloqueio de ambulâncias e de assistência médica. Depois de toda a violência contra a revolta popular, como de costume, Israel usou da grave provocação que é atacar a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do Islamismo, durante o mês do Ramadã – o mês sagrado onde muçulmanos estão diariamente rezando e jejuando. Não apenas Israel atacou Al-Aqsa durante o Ramadã, mas na noite do Laylat al Kadr, que é como se fosse o natal dos cristãos. Isto é, é como se uma igreja fosse bombardeada na noite de natal com centenas de pessoas rezando. A resposta da resistência palestina veio dos palestinos nos territórios de 1948, em Gaza, na Cisjordânia e dos palestinos na diáspora. 

A mídia, todavia, continua a tratar a resistência palestina da forma mais desonesta possível. Primeiramente, retrata israelenses e palestinos e palestinas como participantes iguais em um conflito, quando o que observamos são ações de uma potência expansionista exercendo seu poderio militar sobre um povo privado de seus direitos humanos básicos. Retrata a opressão israelense como se fosse apenas contra o Hamas e não contra toda a população palestina. A grande mídia fala do neocolonialismo e da limpeza étnica em curso como  “guerra” – expressão que não é sequer possível de utilizar, de acordo com o Direito Internacional, quando existe tamanha assimetria de poder: uma população sem exército, sem marinha, ocupada militarmente há décadas, contra a potência ocupante de suas terras que, por sua vez, próspera economicamente com a criação de tecnologias de morte testadas sob seus corpos. No Brasil e em Israel, a mídia retrata a necropolítica do Estado com palavras e expressões que não apenas normalizam o terrorismo estatal, mas o justificam. Sobre a chacina do Jacarezinho, utilizam nomes de “operação policial” ou “auto de resistência”, na Palestina “guerra”, “conflito entre israelenses e palestinos”. 

O fato de que Israel é, há décadas, um dos maiores exportadores, não apenas de tecnologia de extermínio, mas de inteligência para contra-insurgência e terrorismo estatal, não é novidade. Desde a década de 1980 com o caso dos contras na Guatemala, quando esquadrões da morte foram assistidos e coordenados por especialistas do Exército israelense, Israel tornou-se conhecido por treinar militares e cooperar de várias formas para golpes de Estado e a militarização da vida em países na América Latina e em diversas outras partes do mundo. Na Guatemala, a intervenção EUA/Israel resultou no extermínio de duzentas mil pessoas em duas décadas, no desaparecimento de 40 mil e na tortura de não se sabe quantos milhares.

   No Brasil, a israelização do terrorismo estatal tem uma história ainda mais antiga, que remonta a ditadura militar, como revelou o advogado israelense e ativista de direitos humanos Eitay Mack, em artigo publicado no blog +972 Magazine. Os documentos divulgados por Eitay apontam laços estreitos entre os dois países: a negociação incluía sistemas de inteligência e comunicação, navios e helicópteros militares e parabenizou o Brasil pela agilidade no planejamento e implementação do golpe, em 1° de abril de 1964. A Comissão Nacional da Verdade revelou ainda que agentes do Serviço Nacional de Inteligência do Brasil (SNI), os responsáveis pela tortura e demais crimes cometidos pela ditadura militar, foram treinados  em Israel. A tradição brasileira de treinamento nas táticas de terrorismo estatal israelense continuou com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) que recebe treinamento em Tel Aviv.

Diante da contínua constituição do Estado de Israel como um Estado terrorista, judeus sobreviventes do Holocausto anuem na sua análise comparativa entre o governo nazista e sionista. Dra. Marika Sherwood, sobrevivente do gueto de Budapeste e autora do livro ‘Como me tornei uma judia anti-Israel’, afirmou que: “Algum tempo depois [1956], ouvi uma notícia sobre israelenses conduzindo palestinos para campos de assentamento temporários. Eu simplesmente não conseguia acreditar nisso. Não eram os israelenses também judeus? Não tínhamos nós – eles – sobrevivido ao maior pogrom de nossa história? Não eram os campos [de concentração] – muitas vezes chamados eufemisticamente de “campos de assentamento” pelos nazistas – a principal característica deste pogrom? Como poderiam os judeus, em qualquer medida, fazer aos outros o que foi feito a eles? Como esses judeus israelenses puderam oprimir e aprisionar outras pessoas? Em minha imaginação romântica, os judeus em Israel eram socialistas e pessoas que distinguiam o certo do errado. E isso estava claramente incorreto. Eu me senti decepcionada, como se estivesse sendo roubada de uma parte do que pensava ser minha herança…Devo dizer ao governo israelense, que afirma falar em nome de todos os judeus, que não está falando em meu nome. Não vou ficar calada diante da tentativa de aniquilação dos palestinos; da venda de armas a regimes repressivos em todo o mundo; da tentativa de sufocar as críticas a Israel na mídia em todo o mundo; ou torcer a faca com a chave da “culpa” para obter concessões econômicas dos países ocidentais. Claro, a posição geopolítica de Israel tem uma influência maior sobre isso, no momento. Não vou permitir que a confusão dos termos ‘anti-semita’ e ‘anti-sionista’ fique sem contestação.”

Com efeito, existe uma deliberada confusão de conceitos que visa silenciar qualquer crítica ao Estado de Israel taxando-a como antissemitismo. No Brasil, a aliança com Israel fomenta essa confusão, fundamental para o atual governo; um governo baseado na aliança militar com Israel, que defende a tortura, a ditadura e ataca abertamente o direitos das mulheres, da comunidade LGBTQI+, dos partidos de esquerda e dos trabalhadores. Não é surpresa, assim, as semelhanças entre os dois países. Foi o que constatou Gizele Martins, ativista e comunicadora comunitária de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, o Complexo da Maré, após sua viagem à Palestina, em 2019: 

“O que testemunhei na Palestina foi a segregação das populações (…). O muro é um símbolo dos diferentes níveis de políticas de apartheid ali. Este muro que divide vilas, famílias, populações é uma expressão muito cruel do quanto o estado israelense é segregacionista e racista. (…) Aqui no Rio de Janeiro existe também um Muro que chamamos de ‘Muro da Vergonha’. É um muro que separa as favelas do resto da cidade. Nossos políticos, em vez de investirem em saúde e educação, compram armas para matar e gastam dinheiro para segregar nossas populações. E isso nos leva a criar laços de luta conjunta entre as populações para defender nossos espaços. Quando comparo a Palestina à Maré, às favelas do Rio, explico que aqui no Brasil e no Rio de Janeiro nossos políticos que criam cada vez mais laços com  o estado terrorista israelense e têm a mesma ideia de controlar a vida das pessoas. Só que aqui somos nós, a população negra das favelas, que somos o alvo. Outra coisa que tenho notado na Palestina, assim como no Rio, é como a violência do Estado atinge as crianças. Eles parecem considerar essa uma forma de erradicar literalmente essas populações. Eu comparei essas políticas com o que vi na Palestina: a prisão de crianças, o fuzilamento de crianças, como as mulheres muitas vezes não podem passar por um posto de controle para ter seus bebês no hospital, correndo o risco de que elas e as crianças morram. O mais difícil de perceber e compreender é que a Palestina é um laboratório de tantas crueldades. E as crueldades que testemunhei na Palestina são o laboratório para a experiência de nossas vidas aqui.”

(Foto: palestinas com cartazes sobre Marielle Franco)

 A constatação de Gizele é chave para entender como o neocolonialismo sionista é um projeto racista em que a violência de gênero se expressa não apenas na prisão e assassinato de mulheres e crianças, mas na liberdade reprodutiva das mulheres palestinas. Quando Gizele relata a situação das mulheres que são barradas de alcançar um hospital e terminam dando à luz a bebês natimortos em postos de controle militar ou quando soldados israelenses colocam as mulheres palestinas grávidas como alvos prioritários de morte (como fizeram durante a guerra de Gaza em 2009), estamos diante de um dos mecanismos de terrorismo estatal com foco na  violência e assassinato de mulheres e crianças, para controle da maioria demográfica palestina. 

Realidade a qual Gizele acostumou-se como moradora da Maré, durante toda a sua vida. De acordo com dados da ONG Rio de Paz, de 2007 a 2019, 57 crianças morreram atingidas por balas perdidas no estado do Rio de Janeiro. Dessas, 57% foram resultado de confrontos policiais. 80% das vítimas eram moradoras de favelas. 

O Brasil não importa de Israel apenas o “caveirão” e outros equipamentos de guerra, mas tecnologias de vigilância, de assassinato, de dispersão de multidões, treinamento de invasão do território inimigo e, com isso, a mentalidade de extermínio da população tida como “ameaça interna”. A ideologia supremacista branca opera, desta maneira, com o foco em exterminar os corpos tidos como “indesejáveis”, mata lá e mata aqui inclusive com as mesmas armas made in Israel. Já virou senso comum inclusive simbolicamente a presença da bandeira do Estado Israel em atos da extrema direita brasileira e, por outro lado, sempre há uma bandeira palestina junto a protestos de movimentos sociais e pró-democracia – evindenciando as conexões profundas entre a população preta e favelada no Brasil e o povo palestino.

Vale lembrar também do forte lobby israelense e suas relações obscenas com as igrejas evangélicas no Brasil. Existe um culto a Israel e ao “povo escolhido” que garante não apenas que muitos religiosos fechem completamente os olhos para a barbárie israelense contra os direitos humanos mas também o culto a essa barbárie pelas milícias. No Rio de Janeiro,  o culto ao militarismo israelense rendeu o nome de  “Complexo de Israel” a união entre tráfico e milícia, e levou esse nome dos criminosos que se dizem evangélicos e praticam intolerância religiosa em seus territórios, proibindo a prática de religiões afro-brasileiras.

 O extermínio do povo palestino, usado para testes de criação de novas tecnologias de morte e, logo, o extermínio do povo preto e indígena aqui no Brasil, serve de combustível para o capitalismo e para a cartilha neocolonial do Estado cuja fundação e sobrevivência está amparada na militarização da vida e no financiamento de governos fascistas no mundo inteiro. Diante dessa barbárie, movimentos da sociedade civil internacional passaram a organizar anualmente o Julho Negro Internacional, uma conferência para a resistência e mobilização contra o racismo, o apartheid e a crescente militarização global. O Julho Negro se constitui como um marco importante para definirmos estratégias de luta em comum baseadas no chamado palestino pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) – que é uma das estratégias de internacionalização da luta contra o avanço global da necropolítica que usa como laboratório os corpos palestinos. 

Em Jerusalém e Jacarezinho, a unidade de ação das estratégias de aprisionamento, tortura, dominação e extermínio dos corpos indesejáveis (negros, indígenas, palestinos e demais corpos marginalizados) se identifica conceitualmente com sua realidade prática: a israelização ou internacionalização do terrorismo estatal a la Israel. No entanto, o supostamente invencível sistema de segurança e vigilância de Israel foi colocado em cheque, com o povo palestino provando que a união e revolta popular é a única solução possível. Por isso, se israelizam a opressão devemos palestinizar a resistência!

Nós, da Marcha Mundial das Mulheres, afirmamos a indivisibilidade da justiça, no entendimento profundo de que a libertação não pode ser completa a menos que toda a violência estrutural termine. Continuaremos a internacionalizar nossa resistência e conectar nossas lutas para acabar com a militarização e a opressão racista, de Jacarezinho a Jerusalém.   

*Indra Seixas é militante da Marcha Mundial das Mulheres

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