As vésperas do feriado de al-Fitr #PalestinaLivre

Nermeen Habboush*
Gaza

Eram 3 horas da manhã, apenas o amanhecer do Eid al-Fitr [celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadã], após um mês inteiro de jejum. Nosso sono foi abalado por fortes batidas na porta e muitos ruídos caóticos. Meu marido, duas filhas (Elaine 4 anos e Leen, 3 anos) e eu acordamos horrorizados e corremos para a porta. Nosso vizinho, com uma voz ofegante, nos informou para sairmos do prédio imediatamente, porque um dos vizinhos recebeu um telefonema do exército israelense informando que o prédio seria bombardeado e que as pessoas tinham poucos minutos para abandoná-lo.

Me apressei para vestir algumas roupas enquanto minhas duas filhas continuavam perguntando: “Vamos tomar banho antes de vestir nossos novos trajes de festa???? Posso calçar meus sapatos da Elsa? (personagem de desenho animado pelo qual minha filha se apaixonou). Lembrei-me de como minha filha insistiu para ganhar aquele par específico de sapatos até que eu fiz sua vontade, apesar de serem relativamente caros.

Eu ouvia e tentava pensar refletindo em meio a momentos horríveis e não tinha tempo para explicar as coisas às minhas filhas. “Quantos minutos ainda tenho até que um foguete israelense exploda nosso prédio?”.

Apressei-me para trazer nossa bolsa especial com documentos e papéis oficiais. Meu marido colocou seu laptop na minha bolsa e mais tarde descobriu que esquecemos algum dinheiro dentro de casa. Conseguimos descer as escadas rapidamente, eu segurava a mão trêmula de minha filha Elaine, meu marido estava carregando nossa outra filha porque não conseguimos encontrar seus chinelos com a eletricidade cortada.

Na rua, as vozes chorosas das mulheres e os gritos assustadores das crianças enchiam o lugar. Eu andava rapidamente, fazendo meu caminho entre dezenas de pessoas que enfrentavam as mesmas circunstâncias.

Elaine estava puxava minha mão para que eu prestasse atenção às suas perguntas urgentes: “Mãe, para onde vamos? Estou de pijama. Não escovei o cabelo… por que você não trouxe nossas roupas novas de feridado? Onde estão meus sapatos da Elsa? Como posso ir assim para a casa da minha avó? Eu nem peguei minha boneca nova”.

Senti um nó na garganta e lágrimas enchendo meus olhos. “Vou te dar coisas melhores, minha querida, mas agora vamos chegar em segurança à casa da avó”.

Finalmente chegamos à casa dos meus sogros, minha sogra estava acordada por causa do bombardeio. Elaine correu para abraçá-la e começou a reclamar do havia acontecido e de repente tomou fôlego e disse: “Vovó, esqueci de trazer os chocolates especiais para o feriado”.

Não consegui dormir aquela noite. Meu coração estava doendo por causa das coisas simples em que minha filha estava pensando. No início da manhã seguinte, implorei ao meu marido que me acompanhasse de volta ao nosso apartamento. Invoquei toda a minha coragem e fui buscar os “sapatos da Elsa”, as roupas novas e o chocolate.

Tive outra última oportunidade de olhar para meu apartamento com os olhos cheios de lágrimas, rezei a Deus para manter o lugar com todas as nossas lembranças a salvo. Rezei para poder voltar para nossa casa, nossa adorável e doce casa; Por favor, Deus não deixe que nossos corações se partam por causa de qualquer tipo de perda. Nós já perdemos tanto. “

#savesheikhjarrah
#GazaUnderAttack

*Texto enviado por Ruba Odeh, da Marcha Mundial das Mulheres região do Norte da África e Oriente Médio (Tradução de Patricia Cornils, MMM São Paulo)

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