Duplo feminicídio: “sapatão” é escrito com sangue na parede

Fabiana de Oliveira Benedito e Martha Raquel Rodrigues*

Ser lésbica é correr o risco de viver sem identidade. Não são raras as vezes que ouvimos histórias de casais de mulheres que passaram a vida toda se apresentando como amigas, primas e até mesmo irmãs. Uma estratégia violenta para afugentar a violência que o mundo impõe às mulheres que ousam se negar a seguir seu destino “natural”. Hegemonicamente, as experiências das mulheres lésbicas são vistas como “antinaturais”.

Essa visão se expressa de diferentes maneiras. Ora somos tratadas, por pessoas declaradamente conservadoras, como aberrações, que refutam a suposta complementaridade entre os sexos e a obrigação social de reproduzir. Ora somos vistas como “diversas”, como se a lesbianidade não fosse intrínseca à experiência (de uma parte) das mulheres. Nesse bojo, podemos incluir ainda o apagamento do acúmulo de lésbicas feministas que insistem, há décadas, que simetrizar o que significa ser uma mulher e homem homossexuais, por exemplo, é falacioso e contraproducente.

Neste domingo, 31 de janeiro de 2021, o portal O Liberal publicou a seguinte notícia: “Militar aposentado mata esposa e amiga a facadas no bairro do Guamá, em Belém”. As duas vítimas são retratadas como amigas, embora o assassino tenha escrito a palavra “sapatão” na parede. O texto classifica a expressão como “palavra ofensiva” e “insulto”. Nos comentários, há quem negue a hipótese de que as vítimas tivessem algum tipo de envolvimento afetivo e sexual.

Para além das especulações, cabe questionar como a mera possibilidade de quebra do pacto social da heterossexualidade pode acarretar inúmeras violências. Mulheres que se relacionam com homens, mas não seguem rigidamente os papéis de gênero, são frequentemente questionadas sobre a própria sexualidade, sendo pressionadas a comprovarem que são mesmo heterossexuais. Apenas a desconfiança é suficiente para gerar incômodos e violações.

Às mulheres que de fato se relacionam com outras mulheres, a sociedade oferece invisibilidade e oferta de “correção”. A lesbianidade é tolerada, em parte das vezes, desde que não seja pública, desde que seja tratada como mera “preferência sexual”, desde que possa ser tratada um caso raro, uma exceção. A tolerância não se dá sem que antes seja ofertada a possibilidade de sermos corrigidas, seja pela religião, seja pelos próprios homens, por meio do estupro corretivo.

A palavra “sapatão”, escrita com sangue, é uma inscrição de todas essas interdições, escamoteios e invisibilidades. Deixa um recado para todas nós, daquilo que não podemos ser, que não devemos ser. Não é permitido. Não será tolerado. Será corrigido. São essas mensagens que recebemos todos os dias. Desde a primeira recusa de algum papel de gênero, somos punidas. A punição carrega o significado das palavras escritas nessa parede. 

Não saberemos se Jéssica e Tamires foram um casal. Se fossem, haveriam ainda grandes chances de que ninguém nunca soubesse, que fossem apresentadas como amigas, para sempre, mesmo para as pessoas mais próximas. Apesar disso, cabe (todos os dias) repudiar a violência machista e lesbofóbica que as assassinou. Cabe ainda, reafirmar que nossos corpos seguirão se rebelando contra a heterossexualidade compulsória e o controle das nossas vidas.

Fabiana de Oliveira Benedito e Martha Raquel Rodrigues são militantes da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) em Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP), respectivamente.

Comments

  1. Sandra Margoni says:

    Não sou lésbica, mas sinto uma tristeza muito grande em ver tanta violência contra as mulheres que querem apenas viver livres, como elas querem. Não aceito essa repressão ridícula contra elas, que apenas querem viver a vida que elas escolheram e são felizes assim. Gostaria muito que o mundo e a sociedade fosse mais pacífica e livre para todos os tipos de amor! 💜💜

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