Vamos refrescar um pouco a memória? Sara Winter nunca foi feminista

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Por Sonia Coelho*

Sara Giromini (ou, como é mais conhecida, Sara Winter) nunca foi feminista. Me lembro de 2012, quando ela surgiu. Ela chegou a viajar pra Kiev (na Ucrânia), pra construir um grupo feminista chamado Femen (lembram?). Aí voltou pra cá com essa tarefa.

Nós discutimos, primeiro, que aquele não era o feminismo com o qual nós nos identificávamos. Aquilo era uma coisa muito individual e de autopromoção, muito diferente de um movimento social, da auto-organização das mulheres. O Femen é, inclusive, um grupo que escolhe uma pessoa específica como líder e a treina pra isso… isso já é algo muito estranho para nós. As próprias ações delas eram feitas sem nenhuma articulação, sem nenhuma preocupação em envolver um conjunto maior de mulheres.

Na época, nós da Marcha Mundial das Mulheres sofremos muitas críticas, seja de grupos de mulheres, de algumas pessoas individualmente, ou de pessoas da esquerda em geral, que diziam que aquele era o novo feminismo, e que a gente precisava “se renovar”. A própria Sara Winter chegou a procurar algumas mulheres da Marcha em São Paulo, para dizer que estava interessada em ser convidada para participar.

Algumas pessoas chegaram a me interpelar para dizer que nós deveríamos convidá-la para participar da Marcha. Afirmei logo de cara que o que aquela mulher construía não era feminismo. Na Marcha Mundial das Mulheres, nós partimos de uma visão coletiva e transformadora do mundo, que não tem nada a ver com aquela coisa de super exposição do corpo e personalismo que a Sara Winter apresentava.

Mas, como é de praxe, levamos a discussão para dentro da Marcha. A possibilidade de entrada da Sara Winter na Marcha foi absolutamente rechaçada pelo conjunto das militantes: todas entendiam que ela não era feminista e que, se ela reivindicava algum feminismo, não era aquele que nos representava.

Inclusive, eu disse na época e repito hoje: a Marcha é um movimento aberto a todas as mulheres que queiram participar (e que estejam de acordo com nossa visão política, é claro), mas nós não fazemos convite especial pra nenhuma figura, principalmente alguém como a Sara Winter.

Nós fazíamos várias críticas àquele tipo de ação que ela fazia, à forma com que ela lidava com o feminismo, e posso dizer tranquilamente: nós estávamos corretas. Hoje, podemos afirmar que essa mulher (até pelo papel que ela vem cumprindo na extrema-direita) talvez fosse uma infiltrada no feminismo, ou simplesmente uma mercenária – até porque, salvo engano, o Femen (o original, lá da Ucrânia) a expulsou, por causa da forma como ela geriu e usou os recursos do grupo.

De fato, talvez ela seja algum tipo de mercenária que entrou no feminismo achando que o movimento tinha acesso a recursos e verbas e que ela conseguiria se promover por aí. E, quando viu que o feminismo no Brasil é um movimento social, um movimento de esquerda, um movimento coletivo que busca a transformação da sociedade, percebeu que isso não tinha nada a ver com ela, e foi para o lugar de onde nunca deveria ter saído, que é a direita. Aliás, ela nunca saiu desse lugar.

Há uns anos, acho que em 2016, participei de uma audiência pública sobre a implementação do aborto no SUS, lá em Brasília, e ela estava lá, debaixo da asa do Magno Malta, que na época acho que era Senador. A gente via que ela tinha muita proximidade com ele, muita articulação. Devia ser profissionalmente ligada a ele.

E as besteiras que ela falou nessa audiência… Era um negócio totalmente espetaculoso, uma coisa ridícula mesmo! Logo depois, ela foi mostrando quem realmente era. E nós mais uma vez tivemos razão naquilo que sempre acreditamos como feminismo, e reafirmamos a justeza das críticas que nós fazíamos a ela.

Em um seminário internacional que fizemos em 2018, uma companheira da Colômbia nos contou que a Sara estava circulando por lá organizando a reação contra a “ideologia de gênero”. É importante a gente entender que não se trata apenas de uma mulher reacionária, mas de parte dessa extrema-direita que se organiza internacionalmente.

Hoje ela é um expoente da extrema-direita mais conservadora, reacionária, e absolutamente autoritária, ditadora, defendendo a ditadura militar, antimulher, antitudo.

Então, uma coisa que fica de aprendizado é que nós, aqui no Brasil (e no mundo também), temos uma longa experiência, que não é de agora, é de muitos anos: o movimento feminista é um movimento histórico, tem sido fundamental na luta de classes no Brasil. Principalmente nesses últimos anos, o movimento teve grande capacidade de articulação, de enfrentamento à extrema direita. Nós que revelamos para o Brasil, com os atos do “Ele Não”, que o governo Bolsonaro seria um governo fascista.

O movimento feminista é um movimento social que quer transformar o mundo. É esse movimento que nós construímos, e ele não tem nada a ver com a Sara Winter. Ela não tem nem como dizer que é ex-feminista, porque nunca foi feminista. Ela é uma pessoa autoritária, mercenária, de extrema-direita e que precisa ser combatida.

*Sonia Coelho é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

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