Um relato feminista e antissistêmico sobre o breque dos apps

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Foto: Evelyn Lee

Por Maisa Marinho*

No dia 01 e julho, em plena crise sanitária, entregadores de aplicativos em diversas cidades se mobilizaram pelo Brasil para reivindicar melhorias nas condições de trabalho sub-humanas nas entregas de delivery por aplicativos como Uber Eats, Ifood e Rappi. Essa categoria tem sido essencial para os que estão em quarentena no Brasil e no mundo, mas também está sujeita à maior exposição ao vírus, arriscando suas vidas e a de seus familiares em condições de total desvalorização e invisibilização do trabalho, cruelmente tachado como empreendedorismo. 

Meu nome é Maisa, tenho 29 anos, sou estudante na Universidade Federal Fluminense (UFF) e moro hoje na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Quando me cadastrei nos aplicativos, em janeiro desse ano, havia acabado de ganhar uma bike para me transportar à universidade e logo pensei na possibilidade de trabalhar com entregas para complementar a renda, que é pouca. Essa é a minha realidade como estudante vivendo em uma cidade de alto custo de vida. Antes da pandemia, vinha buscando oportunidade de bolsas auxílio, mas, desde o golpe de 2016, o desmonte da educação pública tornou cada vez mais difícil o acesso às verbas de assistência estudantil. Por isso, o trabalho com entrega passou a ser uma opção para estudantes de baixa renda como eu, aproximando a nossa realidade às dos motoboys e ciclistas de delivery. 

Na busca pela complementação de renda, essa vêm sendo a principal procura por jovens que precisam ajudar em casa, pagar aluguel de república, passagens de ônibus para a faculdade, etc. Uma amiga que já trabalhava com entregas me deu a ideia, e eu não pensei duas vezes. Logo de início, vi a primeira injustiça: as bags de transporte do pedido só são oferecidas gratuitamente depois de 30 a 40 entregas, o que obriga os entregadores a gastar antes mesmo de começar a trabalhar – “investir” o dinheiro em um item necessário pro trabalho. 

No decorrer dos dias, observei muitas outras coisas, como, por exemplo, o preço dinâmico em dias chuvosos. Uma entrega que sai, em média, entre R$6 e R$8 pode chegar a R$15. Ou seja, temos um incentivo para trabalhar em condições piores, sem garantia de equipamento de proteção – a responsabilidade é do trabalhador. Pensei então que trabalharia mais nos dias chuvosos do que nos dias normais, pra aumentar o ganho, mesmo com o risco de me adoentar. De fato, conheci uma mana que, sob essas circunstâncias, pegou pneumonia. É claro que os aplicativos não ajudaram em nada, e ela teve que se virar sozinha.   

Há também vários outros problemas: entregamos comida muitas vezes com fome, trabalhamos num serviço braçal (ou pernal, para quem entrega por bicicleta) e cansativo. Não temos pontos de apoio para descanso, para beber água, nem para carregar o celular, que usamos o dia inteiro no trabalho. Não temos nem um representante dos aplicativos a quem nos dirigir, caso precisemos reclamar das condições que nos colocam, já que eles nos atendem com robôs.

A maioria das pessoas que procuram essa forma de trabalho infelizmente estão desempregadas, dada a crise econômica que vivemos. São moradores das periferias que não tiveram as mesmas oportunidades que outros para estudar e ter acesso a um curso técnico ou ensino superior que os capacitasse para outras demandas do mercado de trabalho. É preciso fazer um melhor mapeamento do perfil dessas e desses trabalhadores, mas posso afirmar que há um movimento crescente de inserção de jovens, muitas vezes adolescentes, nesse ramo. 

A primeira greve do Breque dos Apps foi uma vitória para toda a categoria, que até então não havia conseguido mobilizar algo tão grande, apesar de já estarmos saturados com tais condições de trabalho há um tempo. Esse é um momento histórico e é preciso compreender que essa relação de trabalho faz parte de uma precarização cruel nascida através da “plataformização”. O trabalho dos entregadores de delivery fica invisibilizado entre a produção e o consumidor final. Os aplicativos se colocam como a ponte que liga os dois lados dessa nova cadeia produtiva, e ganham muito sem serem responsabilizados pela relação trabalhista que impõem.

Segundo o professor Roberto Moraes, engenheiro e professor do IFF-Campos-RJ,  “os ganhos estratosféricos dos donos das plataformas se dão sobre a servidão do trabalhador num processo que ficar melhor compreendido como de Vampirização do trabalho”. É urgente compreender essa dinâmica para responsabilizar as empresas, e não naturalizar a falta de autonomia que eles dizem promover. Essa autonomia é ilusória, porque a realidade do nosso trabalho é de total dependência do sistema imposto pelos apps. Por isso, a nossa mobilização e diálogo com todos os apoiadores é essencial para que consigamos ser respeitadas e respeitados enquanto trabalhadores. O que está em jogo é nossa dignidade e sobrevivência num mundo sem oportunidades.

Depois do dia 1º de julho, conseguimos nossa primeira vitória: a Rappi retirou o sistema de pontuação que organizava as chamadas das entregas por ranking. Essa é uma das principais reivindicações do movimento, pois o funcionamento do sistema não é explicado de forma transparente pelas empresas e constantemente promovia injustiças na distribuição das chamadas, dificultando o trabalho de muitos entregadores. Era clara a tentativa das plataformas de imprimir sua lógica perversa de concorrência de mercado a partir da competição entre os trabalhadores. 

Outro saldo positivo foi o apoio dos consumidores, que conseguiram abaixar a avaliação dos aplicativos nas lojas de apps, e também a repercussão no parlamento brasileiro. O senador Jaques Wagner (PT/BA) apresentou o Projeto de Lei 3570/ 2020, que propõe a criação de uma lei de proteção dos trabalhadores de aplicativos de transporte individual privado ou entrega de mercadorias, atendendo às reivindicações de aumento do valor das entregas e seguros para acidentes.

No primeiro Breque, ganhamos uma batalha, mas a guerra ainda é longa. Dia 25 de julho tem mais!  Pelo aumento das taxas mínimas; fim dos bloqueios; criação de postos de apoio para uso de banheiro, carregamento de celulares e descanso; garantia de seguro acidente e de vida; na formalização do vínculo empregatício, vamos brecar geral!

Somos importantes!

*Maisa Marinho é Secretaria Geral do DCE Fernando Santa Cruz na Universidade Federal Fluminense, entregadora de bicicleta nos apps de delivery e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Rio de Janeiro.

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