As vísceras abertas do capitalismo pelo coronavírus 

*Por Analine Specht

A pandemia do coronavírus escancara como nunca o avanço do capital sobre a vida e os corpos da classe trabalhadora. Na história da humanidade diversas epidemias e pandemias assolaram e dizimaram milhares de pessoas. A pandemia do novo coronavírus que ocorre durante a era da informação faz com que as notícias cheguem instantaneamente nas mãos e mentes da população mundial. 

O mundo assiste estarrecido a avassaladora guerra entre um super vírus e as estruturas do capital. Parar as máquinas ou proteger a vida de quem as opera?  

Garantir a saúde pública coletiva ou manter a reprodução do capital (lucro) a qualquer custo? 

A necessidade de isolamento social de grande parte da população mundial trouxe à tona a crueldade das engrenagens do sistema capitalista. Manter as pessoas em casa significa garantir condições de sobrevivência mínimas como comida, água, casa, energia elétrica, gás, medicamentos e produtos de higiene e limpeza. 

De outro lado, as pessoas acometidas pelo vírus precisam de acesso à saúde pública em qualidade e quantidade de atendimento. Essa demanda envolve recursos públicos, estrutura física e profissionais de saúde. 

A crise do covid-19 de uma tacada só colocou em cheque  as relações de trabalho, as políticas de proteção social (ou a falta delas), o Estado mínimo e o patriarcado. O novo coronavírus expôs as vísceras do capitalismo ao abalar as estruturas essenciais de reprodução do capital – o Estado, a exploração do trabalho, a divisão sexual do trabalho e o mercado.

O neoliberalismo liquidou com os direitos trabalhistas e com o sistema de proteção social, aumentou significativamente a informalidade do trabalho, com o avanço da uberização dos serviços. Sem direitos e sem proteção social a massa trabalhadora não tem a mínima condição de permanecer em isolamento sem a garantia por parte do Estado de emprego e renda. O Estado a serviço do capital e reduzido não responde a esta urgência colocada pela imensa maioria da população mundial. Este mesmo Estado que deve garantir acesso à saúde pública e gratuita para tratar de quem está doente, mas esbarra na própria estrutura mínima e privatizada. 

Os capitalistas, donos dos meios de produção, não aceitam qualquer mediação com a realidade que os atropela porque isso significa perder dinheiro, deixar de lucrar sobre o trabalho super explorado. Isso significa manter a produção a qualquer custo, nem que o custo seja a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras. 

As condições de reprodução social de toda a sociedade dependem, diretamente, do trabalho doméstico e de cuidados, realizado pelas mulheres. Sem comida, limpeza, cuidado – especialmente de crianças e idosos – de gestão da casa, não existe reprodução da força de trabalho. A divisão sexual do trabalho atribui este trabalho reprodutivo às mulheres pelos seus princípios de hierarquia e separação. As mulheres acabam atuando no trabalho considerado como produtivo e no reprodutivo, o que acarreta uma sobrecarga de trabalho para elas. 

A crise do coronavírus atinge principalmente as mulheres. Podemos distinguir três situações. Primeiro as mulheres que trabalham na rede de saúde, principalmente enfermeiras que ficam expostas e sobrecarregadas no atendimento à pandemia. 

Segundo as mulheres que são trabalhadoras domésticas, as quais a classe dominante terceiriza o trabalho doméstico e de cuidados, na maioria das vezes mulheres negras em condições de extrema exploração. Terceiro aquelas que estão em isolamento, realizando trabalho produtivo em casa e acumulando com o trabalho doméstico e de cuidados, já que os filhos estão em isolamento. 

A sobrecarga e a exploração do trabalho das mulheres – pobres, maioria negras e migrantes – é parte da estrutura do capitalismo por significar a maximização de lucros. A atual crise do coronavírus apenas escancarou essa engrenagem do sistema capitalista e patriarcal com empregadas domésticas sendo obrigadas a trabalhar com risco iminente de contágio, com alertas de diversos órgãos, inclusive da ONU sobre o possível aumento de casos de violência contra as mulheres durante o isolamento e a necessidade de socialização dos trabalhos domésticos e de cuidados entre os membros que dividem a residência durante o confinamento. 

O capital mais do que nunca avança sobre a vida e os corpos da classe trabalhadora, especialmente das mulheres. Os mecanismos de super exploração do trabalho estão expostos na forma da manutenção do trabalho durante o isolamento, de ausência de direitos, de ameaça de desemprego e às custas da vida de milhares de trabalhadores. Os donos do capital não têm pudor algum em afirmar que a morte de 5 ou 7 mil trabalhadores é necessária para manter a economia. Dito em outras palavras, a morte de milhares de trabalhadores e de trabalhadoras é um efeito necessário para manter o lucro deles. 

No Brasil, o governo neoliberal de extrema direita minimiza o avanço assustador do covid-19, a pobreza crescente e o iminente colapso da saúde pública e privada em nome da manutenção dos lucros do capital transnacional financeiro e rentista. Essa política da morte ou necropolítica é capitaneada por um presidente genocida que só atende aos interesses do capital. 

Diversos movimentos sociais e organizações denunciam, há décadas, o avanço do capital sobre a vida, os corpos e os territórios, especialmente da classe trabalhadora, das mulheres e da população negra. A Marcha Mundial da Mulheres, como movimento feminista anticapitalista, antipatriarcal e antirracista denuncia a super exploração do capitalismo transnacional e do neoliberalismo ultraconservador em curso em países da América Latina e no Brasil. Em 2020, ano da 5 ª ação internacional da Marcha Mundial das Mulheres o capitalismo patriarcal está na pauta do dia, nas condições de sobrevivência de milhares de trabalhadoras e de trabalhadores que percebem mais do que nunca os seus efeitos danosos e violentos nas diversas dimensões da vida. 

No Brasil, as condições de reprodução social, de autonomia das mulheres e vida digna exigem o Fora Bolsonaro, sob pena do custo de vidas e de super exploração da classe trabalhadora.

Resistimos para viver, marchamos para transformar!

*Analine Specht é cientista social e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Distrito Federal.

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