Dia Internacional da Mulher: a origem operária e socialista do 8 de Março

*Por Maria Fernanda Alves Garcia Montero

No dia 04 de fevereiro de 2020 o grupo de estudos e leituras Feminismo em Marcha retomou suas atividades com a leitura e discussão do livro As origens e a comemoração do dia internacional das mulheres, de Ana Isabel Álvarez Gonzáles. A ideia de começar o ano com esse livro deve-se por conta tanto da proximidade da data do 08 de março como por conta da necessidade e importância de retomarmos as suas origens feministas, trabalhadoras e socialistas. Retomar ditas origens se mostra por demais importante uma vez que elas têm sido historicamente negligenciadas e, consequentemente, têm se perdido no tempo.

Muitas pessoas consideram o 8 de Março como apenas uma data de homenagem às mulheres, como é o caso do dia das crianças, das mães e dos pais. No entanto, ao contrário dessas outras datas comemorativas, o dia das mulheres não foi criado pelo comércio – e tem raízes históricas mais profundas e sérias. A história de origem do 08 de março que é massivamente difundida é a de um incêndio de uma fábrica têxtil em Nova York, que teria ocorrido nesse dia no ano de 1908 e que teria sido causado pelo próprio proprietário que, em resposta a uma declaração de greve das operárias, teria decidido atear fogo na fábrica com elas dentro. No entanto, pesquisas documentais, como a realizada por Ana Isabel Álvarez González, mostram que não existem registros históricos de tal acontecimento em nenhuma cidade dos Estados Unidos. Claro que ocorreram manifestações, greves e repressões de trabalhadoras e trabalhadores no período que vai do final do século XIX até a primeira década do século XX, porém, nenhum desses eventos dizem especificamente respeito à origem do dia de luta das mulheres. Sua origem teve lugar num país bem distante dos Estados Unidos: a Rússia.

O livro de Ana Isabel nos conta que foi em 1910, com inspiração no Woman’s Day (Dia da Mulher) – organizado pelas socialistas dos Estados Unidos -, que foi aprovada na Segunda Conferência de Mulheres Socialistas a “comemoração” de um dia internacional das mulheres, mas tais comemorações, organizadas pelas militantes socialistas, ocorriam em dias diferentes a cada ano nos diferentes países e eram orientadas prioritariamente pela reivindicação do direito ao voto. Mas o Dia Internacional de Luta das Mulheres, tal como o conhecemos hoje, celebrado no 08 de março, teve origem com as manifestações das mulheres na Rússia, no dia 08 de março de 1917 (dia 23 de fevereiro segundo o antigo calendário russo – Dia das Mulheres Trabalhadoras), por melhores condições de vida e trabalho.

Segundo Ana Isabel, nesse dia, as mulheres saíram às ruas de Petrogrado (atual São Petersburgo) e “para a mobilização das mulheres nas ruas confluíram as grevistas do setor têxtil, as imensas filas para a distribuição do pão, mulheres familiares dos soldados do exército – chamadas soldatki – explodindo uma revolta acumulada contra a repressão do regime tsarista intensificada pela guerra” (p.14). No dia seguinte, o número de mulheres nas ruas chegou a mais de 190 mil, e em 10 de março a greve já era geral. No dia 12, os revolucionários constituíram o Soviet (conselho operário) de Petrogrado; no dia 14 foi criado um Governo Provisório, e no dia 17 de março, com o exército ao lados dos revolucionários, o czar Nicolau II renunciou e a Rússia se converteu em uma República. A mobilização das mulheres foi, então, o movimento que colocou em marcha o processo que levou à Revolução Russa de 1917.

Assim, foi para relembrar a ação das mulheres na história da Revolução Russa que o Dia Internacional da Mulher passou a ser comemorado no dia 08 de março de forma unificada. Tal decisão foi tomada em 1921, na Conferência de Mulheres Comunistas, coincidindo com o Congresso da Terceira Internacional, em Moscou.

Com o passar dos anos, essa história foi se perdendo, silenciando tanto a vanguarda do movimento de mulheres na Revolução Russa como seu caráter socialista, na tentativa de transformar o Dia Internacional da Mulher em mais um evento de mercado, um dia de flores, de presentes e, claro, de reforço da feminilidade dita tradicional. Por isso, relembrar a história das mulheres russas é retomar o sentido da comemoração do Dia Internacional da Mulher. Essa história faz parte do passado político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista do começo do século XX. Recuperá-la, retomá-la e recontá-la é reafirmar a vanguarda do movimento de luta das mulheres dentro de uma luta pela transformação geral da sociedade. É consolidar o Dia Internacional das Mulheres como o símbolo da participação ativa das mulheres na transformação de suas vidas e da sociedade.

Na atual conjuntura brasileira, de avanço de forças neoliberais predatórias e de estabelecimento de um Estado antidemocrático, hierárquico, misógino, racista, homofóbico, anti-intelectualista e violento, relembrar as origens e tratar dessa emblemática data de luta das mulheres se torna ação de resistência, ação de tomar para nós os espaços que nos estão sendo tirados. É retomar e reafirmar o protagonismo da luta das mulheres na história.

Assim, é da luta dessas tantas mulheres que vieram antes de nós que tiramos a energia e o amor para movimentar a nossa luta hoje, para caminhar em direção a um mundo em que já nasçamos livres.

 

Que não nos rendamos, que não nos deixemos dominar, que a luta não esmoreça. Como já bem disse Elis Regina:

“Enquanto a nossa meta não for atingida,

Continuamos gritando o nosso canto,

Enquanto nossa música não voltar ao que é,

Nós lutamos, faz escuro mas nós cantamos

O amanhã tá breve

Vamos cantar logo, logo o que é nosso

Porque mais que nunca

É preciso cantar o que é nosso”

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

* É professora e militante da MMM de São Paulo

 

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