Onde é o meu lugar?

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Por Gerusa Bittencourt*

Você já se perguntou isso ao ser atendido no SUS? Não? Pois, hoje, aconteceu uma situação que me incomodou profundamente, porque gerou em mim um questionamento enorme sobre como criamos as coisas para funcionarem ou não para certas pessoas. Sou profissional da saúde há uma década, amo meu trabalho, sigo os fluxos, respeito hierarquias, assim como admiro quem me respeita como enfermeira que sou. Às vezes, a vida nos prega peças e justamente nisso está a parte interessante: a reflexão. Eu não vou resolver tudo, mas provocada, provocarei outros.

Indo ao ponto. Atendo num serviço de saúde em emergência. Emergência.

E, diariamente, nossos clientes aguardam leitos pela gravidade de seus casos, independente de cor, sexo, religião, gênero, classe social e renda. Existem diferentes prestadores e perfis de leitos. Até compreensível, cada hospital pegará o paciente que tenha suporte suficiente para tratar. Hoje eu estava no plantão na emergência em saúde mental. São leitos complexos, delicados e necessários. Ficamos felizes quando conseguimos, com brevidade, vagas. Atendi um adolescente que recebeu uma vaga num prestador rapidamente. Logo acionei a remoção pela ambulância e avisei o familiar, que ali estava pois o paciente era menor de idade.

Passado certo tempo, o prestador, que iria acolher o cliente, liga pra mim e diz “não poderei receber esta pessoa, pois meu hospital não tem suporte para este perfil”. Qual seria a razão para falta de suporte, pergunto. Ela é uma adolescente trans. Eu achei que fosse homem, e aceitei, mas vi no cadastro que se chama por nome social feminino.

Até então, nem eu sabia desta informação, pois no prontuário estava como masculino e inclusive a evolução médica. Em algum momento em algum lugar, se cadastrou o nome social de mulher trans, mas não no prontuário do serviço onde eu atendo. E o hospital que deu a vaga acessou de alguma forma esta informação e mudou sua conduta e postura frente a esta nova informação, fechando a porta.

Caíram meus butiás do bolso.

Revidei. E nos leitos femininos?

Não. Meu hospital não recebe paciente com este perfil.

Volto à pergunta do inicio: onde é o lugar dela? Ela necessita da vaga pra ontem.

A profissional do hospital me explicou a confusão, eu revisei o prontuário. Realmente, no nosso sistema estava como sexo masculino. Apesar de o gênero ser trans, isso não está em destaque em lugar nenhum.

Porque fazer um texto sobre isso? Porque eu não posso aceitar que um serviço de saúde, conveniado com o SUS, se negue (porque convenhamos, não era uma vaga de UTI, era uma vaga em saúde mental…), se negue a receber uma paciente com bipolaridade (o CID era este) por ela ser transgênero. Pra mim, é inconcebível que haja profissionais que imponham barreira como esta para negar atendimento, privar de acesso e principalmente, cometer homofobia e transfobia no SUS.

Talvez alguém pergunte “Isto não é passível de denúncia?” Eu devolvo a pergunta: denunciar para quem, por qual crime? Vivemos tempos nebulosos e difíceis. Quero construir alternativas para isso. A gente não perdeu uma vaga, a gente perdeu a vergonha na cara. Eu fiquei muito mal. As pessoas talvez não compreenderam o que aconteceu ali. “Ah, mas ela ia ficar no quarto com homens… Ah, mas ela deveria ficar num quarto com mulheres…. Ah, mas ela deveria ter um quarto só pra ela…”

Eu ouvi daquele prestador “nosso hospital não atende este perfil de paciente e quando recebe algum por engano, encaminha ao hospital X, que é o único que recebe este tipo de paciente”. Como assim, só um hospital da rede está apto a atender pessoas trans? Como assim, o SUS está negando o acesso de pessoas à saúde? Não é polêmica. É um debate necessário ao SUS. Enquanto seguirmos fingindo que isso não aconteceu, ou melhor, acontece – diariamente –, seguiremos praticando e negando um direito constitucional às pessoas. O direito à saúde, ao acesso universal, equânime e integral.  A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) precisa rever seus conceitos sobre emergências e pessoas trans.

Saí muito chateada do trabalho. Compartilhei com meus colegas minha decepção com o sistema e em como me senti de mãos amarradas. Reforço, hoje se desnudou algo que eu nunca tinha percebido. Mas foi necessário pra abrir meus olhos e boca. Eis que aqui estou contando pra vocês e pedindo ajuda para a gente melhorar o SUS e o acesso das pessoas trans a ele, especialmente à internação, seja em saúde mental ou em qualquer outra especialidade. Precisamos falar sobre isso. Aposto que a maioria de vocês nunca tinha parado para pensar nisso. Porque vocês nunca precisaram pensar: onde é o meu lugar?

 

*Gerusa Bittencourt é enfermeira, Especialista em Saúde Coletiva com ênfase em Atenção Básica, militante da Marcha Mundial das Mulheres e do Movimento Negro Unificado no Rio Grande do Sul.

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