O papel das lutas feministas nos 200 anos dos processos independentistas da América Latina

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De esquerda a direita: Pensamiento y Acción Transformadora (PAT Panamá), Juventud Comunista Colombiana (JUCO), Universidad Nacional de Colombia, Comisión Antipatriarcal Juventud Rebelde, Marcha Mundial das Mulheres e Juventud Rebelde Colombia.

 

¡Pueblo indolente! ¡Cuán distinta sería hoy vuestra suerte si conocierais el precio de la libertad! Pero no es tarde. Ved que, mujer y joven, me sobra valor para sufrir la muerte y mil muertes más. ¡No olvidéis este ejemplo!

Policarpa Salavarrieta

Por Natalia Grajales Urrego*

Com estas palavras da Policarpa Salavarrieta, uma das protagonistas do processo independentista da Colômbia em 1819, o Seminário Internacional Bolívar Vive fez um convite revolucionário para as diversas organizações e movimentos sociais da Nuestra América para se encontrar nos dias 16, 17 e 18 de novembro de 2019 na cidade de Tunja (Colômbia) para analisar o novo cenário político latinoamericano, e os desafios que este apresenta para seus povos e lutas.

Junto com representantes de movimentos juvenis da Colômbia toda e intelectuais deste país, Argentina, Panamá e Espanha, a Marcha Mundial das Mulheres participou deste importante evento apresentando sua experiência de articulação latinoamericana como movimento feminista contra o neoliberalismo e o livre comercio, e a sua trajetória no impulso de processos de organização e mobilização das mulheres no Brasil todo e, particularmente, no Rio de Janeiro.

Partindo da sua origem como movimento feminista anticapitalista, a Marcha Mundial das Mulheres fez uma leitura sobre a conjuntura atual da Abya Yala colocando como centro desta a contradição capital-vida. A partir desta compreensão, os movimentos feministas, de mulheres e sociais em geral têm o desafio de confrontar a crescente pauperização das condições da vida humana e não humana causada pela destruição das naturezas, territórios e populações que tem gerado o avanço do projeto neoliberal imposto no continente.

colombia2Tendo como base a experiência brasileira, a Marcha Mundial das Mulheres mostrou como o ascenso do fascismo no país após as eleições de 2018 não foi um fato casual, foi parte de um processo que configurou-se desde o impeachment à presidenta Dilma Rousseff. Desde aquele momento, este projeto neoliberal mostrou seu caráter misógino, racista e fascista, e sua incompatibilidade com os grandes avanços no reconhecimento de direitos que o país tinha conquistado durante os governos progressistas. Por isso, desde 2016 começou-se a fazer uso da militarização, do desmonte do Estado de Direito, da privatização das empresas públicas e de outras táticas para ampliar a margem de exploração do grande capital corporativista e transnacional no Brasil sobre os bens comuns e a força de trabalho, o qual tem exacerbado as já desiguais condições de vida da população pobre, que é majoritariamente negra, e nela especialmente a das mulheres.

O assassinato das lideranças como a Marielle Franco, o genocídio contra as populações negras e os povos indígenas e tradicionais, a perseguição e criminalização do movimento social, o assassinato das pessoas dos setores LGBTIQ, entre outras ações, têm se somado também a este projeto fascista para semear o terror e desmobilizar as ações de defensa e resistência nos territórios. Isto, acompanhado da utilização de redes sociais para a difusão, já antiga, de valores conservadores que instalam e reproduzem uma série de comportamentos e discursos que legitimam o medo e o controle sobre os corpos das mulheres, os das populações negras e de quem mora nas favelas, sem mencionar aquele que é exercido sobre os territórios rurais e seus bens naturais.

Embora, manifestou a MMM, este processo não tem acontecido sem resistência, razão pela qual as lutas contra o imperialismo e pela emancipação dos povos da Nuestra América continuam vigentes. No Brasil as mulheres têm sido protagonistas da recusa deste novo projeto do capital, e têm mostrado neste como noutros países do continente a capacidade das lutas feministas para articular as reivindicações dos diferentes setores do campo popular num discurso contra-hegemónico que coloca no centro a vida, o cuidado e a solidariedade como focos revolucionários da ação. Daí que nas cidades como Rio de Janeiro a MMM faça atividades na cotidianidade como oficinas de batucadas, ações de rua e construção de manifestações e marchas para atrair e gerar vínculos reais com as mulheres do comum, assim como ações organizativas a través das suas escolas de formação política anuais que permitem às mulheres se encontrar, elevar suas consciências e participar ativamente do Movimento.

Neste sentido também a MMM tem se articulado para o ano 2020 numa serie de ações internacionalistas que reafirmam seu feminismo popular e socialista contra as transnacionais e em apoio as resistências das mulheres no mundo todo: as 24 horas de solidariedade que aconteceram no mês de abril a través de um ato de irmandade com os movimentos feministas e de mulheres palestinas, sírias e do Oriente Meio; e a participação na Ação Internacional que acontecerá na Semana Antimperialista planejada para o mês de maio e no ato de encerramento que será feito em outubro, com os quais se espera realizar atos nas fronteiras contra o neoliberalismo. Então a chamada de ação internacional da MMM é ¡Resistimos para viver! ¡Marchamos para transformar!

Esta leitura das lutas feministas no cenário latinoamericano a partir da experiência brasileira articulou-se com as diferentes perspectivas que foram trazidas ao Seminário tanto dos diversos territórios colombianos pelas e pelos jovens que participaram no evento, quanto pelas e pelos intelectuais internacionais, que concordaram em encontrar nesta nova etapa do capital global uma oportunidade para orientar as lutas emancipatorias anticapitalistas, anti-coloniais e anti-patriarcais em direção ao encontro de caminhos em e fora do Estado sob uma ampla participação popular, uma forte articulação das suas agendas e uma permanente reflexão da praxis dos movimentos, de face a um horizonte revolucionário.

Nos 200 anos do processo independentista da Colômbia, e também de outros povos do continente, fica claro, então, a vigência da luta pela independência das nossas nações e a emancipação de nossos povos. Uma agenda ampla e juvenil poderá dar impulso à construção desses caminhos. ¡Inventar o errar! disse o Simón Rodríguez, mestre da liderança independentista Simón Bolívar.

*Natalia Grajales Urrego é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro

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