Meu caminho até a militância feminista na Marcha Mundial das Mulheres

Por Maria Fernanda A.G. Montero*

O presente texto é um relato e, como tal, exigiu uma certa dose de coragem (para partilhar com vocês coisas que normalmente só se partilha com aqueles que nos são próximos) e um pouco de desconstrução do eu (no sentido de mudança de postura frente a algumas coisas). E, sendo um relato, este texto apresenta uma certa dose de sentimentalismo e subjetividade.
Este pequeno texto é resultado de algumas horas sentada no aeroporto de Brasília, pensando sobre tudo o que havia acontecido naqueles dois dias de Marcha das Margaridas, o que tudo aquilo significava, quais seriam os próximos passos, e sobre como eu havia chegado até ali, sobre o meu percurso até me tornar uma militante organizada do movimento de mulheres.
Embora eu sempre tenha defendido e apoiado as pautas populares, de esquerda, e a atuação dos movimentos sociais, eu nunca fui, de fato, uma militante organizada. No colégio onde eu fiz o Ensino Médio não havia grêmios ou outras organizações estudantis, na faculdade onde fiz a graduação tampouco. Houve, em algum momento do curso, uma conversa sobre iniciar-se um Centro Acadêmico, mas a ideia não vingou, por motivos que agora já não me lembro (ou nunca soube…); o máximo que tivemos foram 3 representantes discentes mais próximo da época da formatura, que estavam encarregados dos trâmites de organizar a cerimônia, a festa, etc. Não era, de fato, uma organização politicamente orientada. Meu primeiro contato com o movimento estudantil veio na pós-graduação, por volta dos 25, 26 anos (tarde, eu sei).
No programa em que eu estava fazendo mestrado havia uma representação discente, que realizava assembleias e que participava do colegiado junto com o corpo docente. Eu, sendo a pessoa hiper tímida que sempre fui, comecei muito devagar a participar das assembleias e, quando ia, praticamente não me manifestava. Falar em público, principalmente sobre minhas convicções e posicionamentos políticos, sempre foi uma batalha para mim. Então, nas assembleias, eu só ouvia as falas dos (as) colegas, votava e pronto. Minha atuação política se resumia a isso. Vale a pena dizer aqui que parte dessa minha timidez era, de fato, medo.
Na escola, durante o ensino fundamental, sofri muito bulliyng (na época, claro, não tinha esse nome e quase nada se discutia sobre esse problema) por ser menina e gostar de desenhos “de menino”, gostar de trocar figurinhas de Cavaleiros do Zodíaco, gostar de filmes de ficção científica, gostar de estudar, de participar das aulas, enfim, aquelas situações com as quais acho que todas as mulheres que estão lendo esse texto agora conseguem se relacionar. Então, cada vez que eu tentava me manifestar, sobre qualquer assunto que fosse, desde comentários sobre o episódio de Shurato do dia anterior até alguma pergunta sobre a matéria do dia, meus colegas (eram majoritariamente meninos que faziam isso, mas as meninas, no afã de conseguir a aprovação dos meninos, também participavam da “brincadeira”) me vaiavam (sim, vaiavam) , ou então lançavam comentários do tipo “ah mas tinha que ser”. Tudo que eu fazia virava motivo de chacota, não importava o que eu falava e/ou fazia. Essa situação durou, pasmem, até o fim da 8ª série. Enfim, tudo isso só pra localizar que a minha timidez era, de fato, insegurança, medo da chacota, de ser minimizada. Então, claro, estranho seria se eu não tivesse tido problemas como vergonha e insegurança.
Por isso, durante as assembleias (ou mesmo na sala de aula), era muito difícil pra mim sequer pensar em abrir minha boca, ainda mais quando havia aquele monte de colegas (as mulheres, principalmente – uma delas, inclusive, é hoje uma grande amiga, e eu morro de orgulho de tê-la na minha vida) tão eloquentes.
Contudo, estando eu seguindo os rumos de uma carreira acadêmica, em um programa de educação, o horizonte que se anunciava era a sala de aula. Então, por uma necessidade bem prática, eu fui me forçando a participar de atividades em que eu, em algum momento, precisaria me manifestar, precisaria atuar junto a outras pessoas. E a minha “primeira vez” foi na comissão de organização de um seminário internacional, que aconteceria na PUC, no TUCA, organizado e planejado pelo programa em que eu estava estudando. Vale dizer que nesse momento eu já estava no 3º ano do doutorado (são 4). Pois bem, fazendo parte dessa comissão, conheci gente nova, professores/as e alunos/as do programa, e duas delas me convenceram a participar da próxima gestão da representação discente do programa. E eu fui, e posso dizer que foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Não só me permitiu crescer e ir superando alguns medos (principalmente o medo de não ser aceita), como me permitiu conhecer pessoas sensacionais, as quais eu admiro imensamente. E assim, aos 28 anos, eu entrei para o movimento estudantil. Mas, como tudo na vida, em determinado momento minha estada na pós-graduação terminou e com ela minha participação na representação discente. Depois disso, nosso grupo continuou junto, mas não se pode dizer que estávamos politicamente organizados.
Então, em 2018, 2 anos depois de ter concluído o doutorado, a conjuntura política vigente, e a que se anunciava, começou, efetivamente, a dar medo. O cenário que se construía era dantesco. Isso não significa que o os dois anos anteriores tivessem sido fáceis, politicamente falando, porque não foram, mas acho que muitos irão concordar que 2018 foi aquele momento crucial em que muita gente, eu incluída, começou a perceber que ou a gente se organiza, ou a conjuntura nos destrói. Ou a gente tomava os espaços, fossem eles físicos e/ou ideológicos, ou eles iam ser tirados da gente. Então, foi aí que eu comecei a participar – esporadicamente, confesso – das atividades da Marcha Mundial das Mulheres. Minha primeira atividade foi uma panfletagem, na região da Ana Rosa. Lembram do medo de falar em público e de não ser aceita? A pessoa que tinha até vergonha de pedir outra água pro garçom? Pois me imaginem abordando pessoas na rua para conversar sobre as eleições e distribuir panfletos. Foi uma batalha interna, mas surpreendentemente, eu me peguei me sentindo até que bastante segura. Daí pra frente acabei participando de outras atividades e no começo de 2019 eu, efetivamente, era parte da MMM.
Talvez eu possa dizer que a necessidade da militância política organizada “se forçou” para cima de mim por conta do contexto político, no entanto, não posso dizer que eu nunca havia tido a vontade de participar de um movimento organizado. Essa vontade já tinha se mostrado, várias vezes, mas sempre apareciam n motivos que me impediam de assumir esse compromisso, e um deles era, a timidez/medo. Mas eu posso dizer – embora possa soar um pouco estranho – que eu fico feliz que a conjuntura me “forçou” a me organizar. Foi o caminho que eu encontrei para enfrentar alguns fantasmas.
No atual momento brasileiro, de avanço de forças neoliberais predatórias e de estabelecimento de um Estado antidemocrático, hierárquico, misógino, racista, homofóbico, anti-intelectualista e violento, não nos resta outra alternativa senão a resistência e a luta organizada. Frente a um cenário em que o ódio e o extermínio se tornam escancaradamente políticas de Estado, a resposta coletiva se impõe como uma necessidade cada vez mais urgente. Mas como o todo é mais do que a simples soma das partes, essa resposta coletiva precisa ser organizada. Caso contrário, tem-se apenas um amontoado de pessoas ocupando um mesmo espaço, e nada mais. É preciso ser um todo organizado.
A Marcha das Margaridas (da qual eu participei pela primeira vez, como militante da MMM), que aconteceu nos dias 13 e 14 de agosto, é uma dessas respostas coletivas. Organizada por diversas organizações e movimentos, e constituída com base em um amplo processo de discussões, debates, formações e articulações conjuntas, a Marcha das Margaridas de 2019 apresentou uma veemente denúncia desse retrocesso brasileiro que se mostra em toda sua nudez. Gritamos por Lula livre, por Fora Bolsonaro, pela defesa da democracia, e contra a violência que abate milhares de mulheres todos os anos no Brasil.
Foram dois dias penosos e cansativos, mas também foram dois dias muito bonitos. Foram dois dias que “materializaram” para mim a fala de que não podemos deixar que a injustiça nos entristeça, mas devemos permitir que ela nos radicalize. Foi isso que eu senti nesses dois dias. Apesar de todos os “perrengues”, e da angústia que vem nos acometendo sempre que pensamos no quanto de luta a gente ainda tem que fazer pra garantir o mínimo (e a tendência nessa conjuntura é de cada vez mais luta), estar ali, naquele momento, aqueceu o coração. A gente sempre sabe que existe mais gente que partilha dos mesmos ideais que a gente, mas quando vemos de fato essas outras pessoas caminhando lado a lado, na mesma luta, entoando os mesmos gritos, a nossa percepção muda. A coisa toda se materializa, se torna real. Aquelas pessoas que você sabia que existiam em algum lugar, dispersas, estão ali, do seu lado, caminhando com você. E melhor do que isso é ver algumas das pessoas que você mais admira no mundo e nas quais você se espelha caminhando ao seu lado. É do todo que tiramos a força para seguir caminhando. A luta deve ser coletiva, afinal, já dizia João Cabral de Melo Neto, um galo sozinho não tece uma manhã.
A experiência de estar entre tantas companheiras, que defendem a mesma pauta política e que passaram por tantas dificuldades para estar ali em Brasília reafirmando a força que têm, ver a expressão no rosto delas, ver a força que carregam, foi fascinante. Estar organizada na MMM, junto com mulheres tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo, é de uma satisfação pessoal tão grande, que a única coisa que eu consigo pensar era “por que eu demorei tanto pra me juntar a elas?”. Claro, tudo tem seu tempo, e as pessoas avançam em ritmos diferentes, mas eu fico feliz de finalmente estar aqui, nesse momento, e poder me juntar a essas mulheres incríveis e, de algum modo, ajudar a tornar o Brasil um país com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência. Estou feliz por ter encontrado minha voz, por ter dito a coragem de usá-la e por ela estar ecoando ao lado das vozes de outras mulheres de luta.
Somos sementes, e nós, as margaridas, continuaremos florescendo e mostrando que a resistência é sim possível, e que a luta é difícil, mas ela também é cheia de boniteza.
Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

* Maria Fernanda A.G. Montero é professora e militante da MMM em São Paulo

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