É tempo das Margaridas seguirem em marcha

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*Por Ana Priscila Alves

 

Desde a revolução de 1917, passando pela resistência das curdas por seus territórios, até a oposição ao autoritarismo de Bolsonaro, as mulheres têm sido o pontapé e a linha de frente das construções da classe trabalhadora em todo o mundo. Aqui no Brasil, uma dos principais instrumentos de luta que as trabalhadoras têm é a Marcha das Margaridas. Esta mobilização histórica que possui o mesmo marco fundador que nós, Marcha Mundial das Mulheres, desde 2000 vem questionando a fome e o empobrecimento sistêmico das mulheres, sobretudo de países subdesenvolvidos como o nosso, assim como a violência sexista, denunciada ao redor do mundo.

Com o passar dos anos, fica cada vez mais nítido que a Marcha das Margaridas não é apenas um grande evento do movimento sindical e das trabalhadoras rurais, mas sim uma manifestação de um processo profundo de lutas contínuas por agroecologia, reforma agrária, soberania nacional, justiça e um mundo sem violência e desigualdades. A Marcha é também catalisadora de movimentos e conquistas para o conjunto das mulheres.

De 2003 a 2007, a ida das margaridas à Brasília representou símbolos dos setores populares pela superação da fome e pelo aumento real do salário mínimo, que são duas das principais conquistas das brasileiras e dos brasileiros nos últimos anos, frutos de gestões mais próximas ao povo, mas não apenas isso, fruto também de um povo que ousou permanecer em luta por dignidade. Dentre outras conquistas, também vieram diversas políticas de regularização dos documentos das trabalhadoras rurais e a criação da Coordenadoria de Educação do Campo no MEC, legitimando o saber produzido na área rural do país, herança de gerações de trabalhadoras e trabalhadores.

Em 2011 e 2015, as margaridas enfrentaram o desafio de dialogar com a primeira presidenta. Se em 2011 havia uma crescente na expectativa das trabalhadoras, que tiveram algumas sinalizações positivas às demandas urgentes de políticas de saúde para a zona rural, de erradicação de mortalidade por sede, de políticas contra a violência que gerassem resultados concretos, como foi o “Mulher, Viver Sem Violência” principalmente devido às suas unidades móveis, em 2015 o cenário foi bem diferente: depois de dois anos de medidas de austeridade duras à classe trabalhadora, as mulheres precisaram, com muita responsabilidade, ir às ruas defender a democracia frente ao golpe que estava em curso.

Foi sob o mote “Margaridas seguem em marcha por: Desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade” que o movimento feminista iniciou uma forte resistência contra os ataques antidemocráticos e as ameaças constantes aos nossos direitos reprodutivos, ambas ofensivas representadas muito bem na figura de Eduardo Cunha, inimigo das mulheres, que terminou de fato caindo e saindo pela porta dos fundos da história e da política.

Agora em 2019, a marcha representa outro nível de resistência e consolida outro momento do movimento feminista no Brasil. Hoje a figura mais declaradamente misógina e entregue ao mercado financeiro já vista nesse posto é quem responde pela presidência da república, carregando em suas costas a maior flexibilização na legislação de agrotóxicos da história, a retirada do direito à aposentadoria, o desmonte da maior estatal do país, o ataque à educação pública, o retrocesso profundo sob o direito ao território de indígenas e quilombolas e a perseguição aos lutadores de movimentos populares do Brasil, construindo um governo que junta o autoritarismo do período militar com a face mais cruel do neoliberalismo.

Nós, por um outro lado, temos experimentado cada vez mais construções de unidade nos 8 de março e outros processos de resistência, fomos a principal força de oposição a Bolsonaro desde a campanha eleitoral através do #EleNão, temos carregado conosco a indignação do que significa a reforma da previdência frente à divisão sexual do trabalho, somos as maiores responsáveis pela produção de uma alimentação a partir da agroecologia, carregamos conosco a memória de nossas companheiras, trazemos em nossas bandeiras Margarida Alves e Marielle Franco.

Em tempos de adversidade, construímos a maior Marcha das Margaridas da história, o maior ato de mulheres da América Latina, com uma mesa de abertura representando o desejo e prática das mulheres de construção de unidade entre os setores populares. E é exatamente este o nosso desafio! Fazer surgir por meio das mulheres uma resistência organizada, responsável com o povo brasileiro e profundamente radical. É nosso dever permanecer em movimento, mulheres do campo, das águas, das florestas e da cidade, dispostas a organizar a rebeldia que as mulheres têm mostrado de Norte a Sul do país.

Daqui até a ação internacional que acontecerá ano que vem, não podemos parar nem um segundo, é preciso reverberar nossos gritos de Brasília por todo o território nacional e, para isso, é necessário ter nossas pautas e deveres na ponta da língua: Lula Livre, Fora Bolsonaro e seu desgoverno, reforma agrária já, unidade das forças populares contra os retrocessos sobre nossas vidas e seguir em marcha até que todas sejamos livres!

Resistimos para viver, marchamos para transformar!

*Ana Priscila Alves é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro.

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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