Marcha das Margaridas: resposta coletiva ao ódio e ao retrocesso

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*Por Karina Morais

Na última quarta-feira (14) aconteceu em Brasília o maior ato de mulheres camponesas da América Latina, reunindo mais de 100 mil marchantes do campo, dos rios e das florestas, de cada canto do país, contra as violências machistas, contra a ofensiva ruralista e em defesa da democracia, da soberania popular, da agroecologia, da previdência social e dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores do campo.

O neoliberalismo avança sobre nossos corpos e territórios, precarizando a vida, sucateando a saúde, a educação e o acesso à moradia. O país é posto à venda ao capital estrangeiro, o agronegócio segue dizimando comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas e 293 agrotóxicos hoje são liberados pra que cheguem à nossa mesa. Um governo fascista, racista e misógino permanece no poder por meio de um golpe ainda em curso, promovendo um sistemático desmonte de políticas públicas. Por defenderem os direitos humanos, a distribuição de renda, a justiça social e os bens comuns, lideranças dos movimentos sociais, sindicais e dos partidos de esquerda são ameaçadas, presas e mortas. Em tempos de tantos retrocessos, a Marcha das Margaridas é uma resposta coletiva a esse cenário em que o ódio e o extermínio são políticas de Estado e que a luta pela terra e por todos os direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora se impõe como uma necessidade cada vez mais urgente.

Organizada por mais de 30 organizações e fundamentada em um amplo processo de debates e articulações conjuntas, a 6ª Marcha das Margaridas apresentou uma plataforma política que denuncia o desmonte do Estado de Bem-Estar Social e o aprofundamento da agenda ultraconservadora. Um processo que não é um caso isolado, mas que responde a um contexto mais amplo do avanço neoliberal no Brasil, na América Latina e no mundo. A superexploração do trabalho, a desestruturação dos equipamentos públicos, a criminalização dos movimentos sociais e a política de privatizações refletem uma conjuntura em que se privilegia o capital privado em detrimento da sociedade civil. Isso se verifica, por exemplo, no aumento do desemprego, do subemprego e da pobreza (que fez o Brasil retornar ao Mapa da Fome), no aumento da exploração sexual e do tráfico de mulheres, bem como no acirramento das violências no campo e na cidade de forma geral. Segue em curso um verdadeiro genocídio da população negra, periférica, indígena, quilombola e ribeirinha, promovido por um governo que não reconhecemos e que atua em conjunto com os ruralistas, latifundiários, fundamentalistas e com a milícia.

Sem democracia não há diálogo e nenhuma de nós foi até lá pra sentar à mesa de negociação com o fascismo. Esse ano o ato assumiu um caráter de denúncia, de demarcação de posições e, sobretudo, de resistência. Nós, as Margaridas do campo e as apoiadoras da cidade, fomos à Brasília dizer BASTA! a esse cenário autoritário e truculento que quer controlar nossas vidas. Fomos também falar por nós mesmas, das nossas realidades locais, das nossas experiências de trabalho, de vida e de luta, historicamente invisibilizadas por um sistema machista e patriarcal. Fomos à Brasília dizer pra classe política e pra toda a sociedade civil que o país que queremos construir é livre de exploração, com alimentos saudáveis em todas as mesas, com garantia de direitos e com a valorização do trabalho das mulheres.

Nós, as Margaridas, estamos, mais uma vez, provando pra todos e pra nós mesmas que a auto-organização das mulheres é possível e necessária. Sabe quando a gente diz sobre transformar angústias em movimento? É isso! A experiência de estar entre tantas, com a mesma plataforma política e que nos realinha a partir de uma agenda comum, foi de uma potência inspiradora. Foram dois dias desafiadores, de muito trabalho e muito cansaço, mas também de aprendizagem e satisfação, sobretudo por reafirmar com quem queremos caminhar nessa luta e de que lado queremos estar no decurso da história. Acredito que seja esse o maior saldo político desse processo, diante de um contexto que nos demanda novos instrumentos de luta e que nos repensemos enquanto movimento.

As nossas respostas serão sempre coletivas e nós seguiremos com nossas bandeiras e tambores, até que o mundo seja um lugar onde todas as pessoas possam viver bem. Se o campo não planta a cidade não janta e se já somos gigantes hoje, amanhã seremos muitas mais!

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

Margarida Maria Alves presente!

#LulaLivre

#MariellePresente

#ResistênciaFeminista

#MarchadasMargaridas2019

 

*Karina Morais é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

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SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

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