Os urubus que arrodeiam a carnificina da violência machista

20190801110836_ca199620-8271-4de9-874c-52e85cc678e6.jpeg

*Por Nicole Geovana

 

Moro no seu pronunciamento de ontem utilizou de uma explicação dentro do enquadramento teórico ultrapassado muito comumente utilizado no passado: a teoria da Frustração-Agressão.
John Dollard, em 1939, teorizou que a Frustração é uma precursora da Agressão.
A frustração pode provocar uma variedade de respostas, e, em alguns indivíduos, essa resposta é a raiva e a agressão.
No início, essa hipótese foi refutada por não diferenciar frustração justificada de frustração não justificada.
Nos anos 80, Leonard Berkowitz reformulou essa teoria e definiu a Agressão como o elo entre os estímulos desagradáveis e o afeto negativo que desencadeia uma resposta de luta ou fuga. Reformulação que também foi duramente criticada por ser simplista.
Em sua fala, Moro evidencia que “os homens se sentem intimidados pelo crescente papel das mulheres em nossa sociedade”. A evidente expansão de certas conquistas de direitos pelas mulheres incomoda enormemente a sociedade machista-capitalista-patriarcal-racista dominada pelos homens brancos e heterossexuais aqui destacada pela fala de Moro.
Apesar de um caminho longo a percorrer em vias de uma possível efetivação de uma sociedade justa e equitária, os direitos conquistados pelas mulheres provocam incômodos e intimidações nos detentores do poder e dos ainda detentores dessa superioridade que não é “pretensa” mas sim garantida pela sociedade machista-capitalista-patriarcal-racista.
Voltando ao tema da violência nas relações de intimidade, as frustrações conjugais podem provocar raiva (frustração justificada).
Como a frustração não é justificada nos casos de agressão, é postulado que essa violência tem a intenção de manipular o outro sujeito (nesse caso a mulher vítima de violência) para um resultado desejado (em geral expresso sob a forma de controle e poder da relação).
Essa fala de Moro lembra discursos misóginos utilizados em fóruns de ódios como os Chans (leiam Lola Aronovich para mais detalhes) e tenta apresentar mais justificativas para o indefensável.
Não vamos nos contentar com miséria representativa como o próprio Moro “gentilmente” cedeu espaço para mulheres no centro da foto “como deve ser” segundo ele.
Recusamos estar rodeadas por urubus que a todo momento tentam se alimentar da carnificina de nós mulheres violentadas.
A fala de Moro lança constantes alertas para nós feministas:
Direitos garantidos estão sob fortes ameaças nesse governo golpista e usurpador.
As violências não devem ser acobertadas e justificadas. Elas devem ser escancaradas, tidas como problema social e devidamente punidas.
O atual governo e toda sua estrutura está montada para assolapar várias conquistas sociais arduamente adquiridas.
Muitos passos ainda teremos que trilhar na visibilização de um problema (violência contra as mulheres) essencialmente social que deve ser combatido seriamente.
O pessoal é político.
Viva Maria da Penha.
Viva nossa constante luta feminista.
Referências:
  1. Dollard J, Doob LW, Miller NE, Mowrer O, Sears RR. Frustration and aggression. New Haven: Yale University Press; 1939.
  2. Berkowitz L. The Frustration-Aggression Hypothesis. In: Falk R, Kim S, eds. The war system: An interdis- ciplinary approach. Boulder, CO: Westview Press; 1980.
*Nicole Geovana é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Portugal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: