Flora Tristán: a atualidade da vida e da obra de uma pária política

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*Por Bárbara Zen

Estamos vivendo tempos cruéis, principalmente para quem não aceita as condições que estão sendo impostas pelo fascismo institucionalizado, de retirada de direitos e destruição rápida e imoralizada da nossa recente Democracia. Há algum tempo já não podemos nos referir à essa Democracia com “D” maiúsculo, da forma como ela vinha sendo construída ao longo dos últimos 30 anos pelos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos paridos ou reestruturados no processo de redemocratização brasileira. É nesse contexto de inflexão civilizatória que nos damos conta de que talvez o lado onde a resistência da classe trabalhadora será construída seja o lado de cá, com os pés no chão e com o povo. Também é nesses momentos que nos voltamos para os estudos, para a releitura dos clássicos, para tentar decifrar as entrelinhas do que foi dito pelos nossos antepassados. Esse é o exercício que estamos tentando fazer no seio da Marcha Mundial das Mulheres da Paraíba e no conjunto do nosso movimento internacionalmente.

Assim chegamos ao pensamento de Flora Céléstine Thérèse Tristán y Moscoso (1803-1844), uma personagem fundamental na história do movimento operário europeu. Nascida na França, filha de um aristocrata militar peruano e de uma pequena burguesa francesa, desde cedo teve a sua condição de filha negada, quando não foi reconhecida pela família de seu pai, o que fez com que ela e sua mãe passassem por grandes dificuldades financeiras a partir do falecimento de seu pai. Assim como as mulheres das mais diversas classes naquele período, estava vivendo sob a mão pesada do Código Civil Napoleônico (1804), o qual proibia as mulheres de pedirem o divórcio e também de viajarem sozinhas para o exterior.

As condições de classe se impuseram à sua vida, quando sua mãe, desesperada com a situação financeira porque passavam, a obrigou a se casar com um litógrafo chamado André Chazal. Aos 17 anos ela se casa para poder ajudar sua mãe financeiramente e garantir alguma salvaguarda pessoal. Essa união a colocou em apuros, quando descobriu que o seu companheiro, na verdade, era um homem violento. Ainda grávida de sua terceira filha, mentiu que sairia a passeio com os dois outros filhos e fugiu para a casa de sua mãe. Após 13 anos de perseguição e lutas judiciais, Flora passou de vítima a ré, sendo presa por ter fugido de casa, e enfrentando uma longa luta pelo divórcio e pela guarda dos filhos, além de ter sido vítima de tentativa de homicídio pelo seu ex-marido, com dois tiros desferidos à queima-roupa contra ela. Flora Tristán foi uma verdadeira representante do monstro do século XIX, aquele que remetia às mulheres escritoras e engajadas politicamente um folclore descomunal e pejorativo.

Foi nesse contexto de opressão e violências que nasceu uma das mais brilhantes mulheres do século XIX, aquela que pela primeira vez proclamou a possibilidade de uma união operária internacionalista, que levasse em consideração o conjunto da classe trabalhadora. Em 1843 é publicada a sua obra principal, intitulada “A União Operária”, com diversas dificuldades, inclusive, no seio do pensamento da esquerda socialista da época. Flora transitou e se filiou, em alguma medida, ao pensamento socialista utópico, com grandes referências em Saint-Simon, Owen e Fourier.

Porém, encontrou dificuldades para publicar a sua obra e também foi julgada moralmente por seus companheiros em função de seu fracassado casamento e de sua prisão. Uma passagem que não posso deixar de trazer é quando, a partir da morte de Fourier, ela, como uma apóstola fiel de sua obra, fora excluída do primeiro banquete comemorativo após a sua morte. Nessa ocasião Flora escreveu a um amigo socialista: ”Um dia os párias serão admitidos no grande banquete da humanidade”.

Essa autodenominação a que proclamava, a de uma pária em uma sociedade de classes, acabou sendo o reflexo de sua vida em sua obra. Após viagens para o interior da França, para a Inglaterra e para o Peru, Flora inicia seus diários de viagem, onde relatava as vivências de uma mulher estrangeira em outros países, a situação da classe operária nesses lugares, e a condição de ser uma mulher não reconhecida pelos seus ancestrais. Dessas reflexões escreve as obras “Da necessidade de acolher bem às mulheres estrangeiras” (1833), “Peregrinações de uma pária” (1837), “Méphis” (1838), “Passeios por Londres” (1840) e, por fim, a sua grande obra “A União Operária” (1843). Nesses relatos de viagens, ela inicia um processo de reflexão sobre a condição feminina, quando caracteriza a si e às mulheres como “párias, como as últimas escravas da sociedade, como a proletária do proletário”. Esses relatos permitiram com que a sua reflexão avançasse no sentido do reconhecimento da premissa feminista de que o pessoal é, sim, político.

Flora costumava se apresentar  como “aristocrata fracassada, mulher socialista e operária feminista”, tendo sido a primeira a ter proclamado a autoemancipação dos operários, quatro anos antes da publicação do “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels. Nos parece evidente a sua influência sobre a obra marxiana, embora não tenha sido reconhecida por seus sucessores. Em sua obra principal, concebeu a ideia de “um instrumento de propaganda de uma fé verdadeira, aquela da salvação da classe operária por ela mesma, e mais do que isto, da humanidade pela classe operária”. Ela traz a concepção de um projeto político de construção de um “Palácio Operário”, inspirada por Fourier, porém, sua formulação mais importante é a de classe operária como força social e política, quando seria possível ao conjunto da humanidade alcançar, de fato, a universalidade dos direitos proclamados na Revolução Francesa de 1789.

Mencionando as mulheres de forma específica, para que fosse destacado que o pleno pertencimento à classe operária deveria passar por uma declaração demarcada pela igualdade entre os gêneros, Flora Tristán reconhece que não seria possível construir esse grandioso projeto do proletariado se não fosse reconhecido que mais da metade da classe operária era composta por mulheres. Segundo o prefácio à tradução de sua obra no Brasil, produzido pela Fundação Perseu Abramo, com tradução de Miriam Nobre, “o projeto da união universal dos operários e operárias é duplamente universal: por seu internacionalismo e pela inclusão das mulheres operárias, em geral esquecidas nas primeiras tentativas de organização dos trabalhadores. A ideia-força desse livro é aquela adotada, mais tarde, por Marx: a autoemancipação do proletariado”.

Flora também foi operária e trabalhou como dama de companhia em uma família inglesa, o que lhe permitiu viajar (quando omitia seu status civil, se dizendo solteira ou viúva) e estudar o movimento operário inglês e a luta dos irlandeses. Flora foi uma internacionalista em essência. Como propostas práticas, ela defendeu o acolhimento das mulheres no seio do operariado, a criação de “comitês de relacionamento” nas principais cidades da Europa e do mundo, o que a leva a ser considerada como a precursora da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada vinte anos após a sua morte – Flora faleceu em 1844 em função do acometimento por uma febre tifóide.

Em sua obra, ela não menciona a autoemancipação das mulheres, por compreender que os homens guardavam a tutela das mulheres nesse momento da História, e dessa forma, ela expõe aos operários a situação de vida das mulheres e todos os sofrimentos causados pelas condições impostas socialmente à elas. Ela compreendeu, nesse momento de sua obra, que era necessário falar aos homens, era necessário que eles compreendessem que o Patriarcado estruturava de tal forma as relações sociais estabelecidas, a ponto de gerar proletários alcoólatras e violentos, ao passo que criava mulheres infelizes e amedrontadas, e crianças igualmente desesperançadas de seu futuro. Ela dedica um capítulo de sua obra principal para falar sobre a condição da mulher, intitulado “Porque eu menciono as mulheres”, e desfere, didaticamente, a estrutura social que oprime o conjunto dos operários, mas que se estrutura na base da exploração feminina. Flora compreendia que a liberdade da classe trabalhadora não seria possível sem a libertação das mulheres, por isso, ela diz: “Entre o mestre e o escravo, não há nada mais que o cansaço do peso da corrente que liga um ao outro. Lá, onde não há liberdade, a felicidade não poderá existir”.

Flora Tristán chegou como um presente rico para o nosso núcleo da Marcha Mundial das Mulheres de João Pessoa, na Paraíba, nos fortalecendo e nos mostrando que há muito ainda que bebermos nas fontes dos clássicos, e que, mais que tudo, há muito que se conhecer sobre a história das mulheres que construíram parte significativa do nosso projeto político por um outro mundo possível. Quase 200 anos depois, ainda não vemos os seus escritos serem mencionados no seio das organizações da esquerda, o que nos coloca em estado de urgência para que a sua memória seja passada a limpo. Nós, enquanto mulheres feministas populares, que nos dedicamos à construção de um feminismo para os 99%, como hoje defendemos ao lado de companheiras como Ângela Davis e Nancy Fraser, nos colocamos na tarefa de desnudar as histórias dessas mulheres que nasceram no seio do povo e que construíram o feminismo doando as suas vidas pelas vidas de outras mulheres.

Hoje nos aproximamos da realização da Marcha das Margaridas, um momento de pujança do feminismo popular brasileiro, momento de celebrar e dar continuidade à luta da paraibana Margarida Maria Alves, junto das mulheres reais dos chãos do Brasil a fora. Estamos nessa construção com nossas fés renovadas, porque a nossa auto-organização nos proporciona a possibilidade de vislumbrar um lugar melhor para vivermos, mesmo ao lado de nossos companheiros em partidos, sindicatos e movimentos mistos. Nossa tarefa é revolucionária, ela diz respeito a nossa própria existência enquanto sujeitos sociais, e ela só será completa, quando pudermos contar com o respeito e a conscientização honesta e irrestrita também dos homens da classe trabalhadora. Assim como Flora Tristán reconheceu no passado, hoje reforçamos: Nossa tarefa é árdua, mas ela é e deve ser, coletiva.

 

Resistimos para viver, marchamos para transformar!

Flora Tristán: presente, presente, presente!

 

Link para a obra traduzida “A União Operária”: https://fpabramo.org.br/publicacoes/wp-content/uploads/sites/5/2017/05/Uniao-Oper%C3%A1ria-web.pdf

 

*Bárbara Zen é militante da Marcha Mundial das Mulheres na Paraíba.

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