Serena Joy, Bolsonaro, as Mulheres e as Eleições

Por Daniela França Chagas*

Foto: Reprodução da série O conto de Aia.

No aclamado livro O conto da Aia, Margaret Atwood** narra a história de uma sociedade teocrática em que as mulheres não possuem o direito de ler e são separadas de acordo com sua capacidade reprodutiva. Neste livro, há uma interessante personagem Serena Joy. Ela é a mulher do comandante, um chefe de governo e recebe a aia Offred, que seria a responsável por gerar os filhos para o casal. No passado, Serena tinha um programa gospel em que defendia que as mulheres deveriam seguir seu destino biológico, ou seja, a reprodução. A série foi adaptada para a televisão e na segunda temporada, torna-se nítido que ela passou a ser vítima da sociedade que criou, pois ao lutar por esse destino biológico, ela acabou perdendo seus direito também.

Mas por que falar de Serena Joy? Hoje vivemos numa das eleições mais complexas da história da democracia. Após um golpe que tirou Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidenta da república, do poder, observamos um candidato fascista, misógino assumir o primeiro lugar das pesquisas eleitorais. O que surpreende (ou não) é o apoio de parte do público feminino: mulheres que tem apoiado o candidato Jair Bolsonaro. Em maioria classe média, elas usam a liberdade, o direito de votar conquistado à duras penas, pelas feministas, para eleger um candidato machista, que várias vezes, usou seu espaço como deputado para difundir seu ódio e atacar os direitos das mulheres.

O feminismo foi vitorioso ao alcançar vários direitos, mas não conseguiu romper com o estigma que nos ronda, as feministas nunca deixaram de ser as solteironas, mal-amadas, masculinizadas, cabeludas… Mulheres conservadoras tentam distanciar do feminismo considerando que as mulheres que assim se intitulam são imorais, sujas e indignas, matam crianças, são aborteiras…

O que muitas dessas mulheres não conseguem entender é que o recrudescimento de valores, uma agendaconservadora atinge a todas as mulheres. Basta olhar para o passado em que mesmo mulheres de classe média e alta não tinham sua condição de cidadã garantida: não tinham direito ao voto, não trabalhavam, tinham de obedecer primeiro ao pai e depois o marido e não podiam freqüentar a escola. Essas garantias só vieram após muita luta de inúmeras mulheres como Mary Wollstonecraft,Olympes de Gouges,Virginia Woolf e Simone Beauvoir, Nísia Floresta, Berta Luntz e Sojouner Truth entre outras que hoje são rechaçadas por mulheres conservadoras. Todas as mulheres hoje colhem frutos da luta dessas mulheres de outrora. Contudo, hoje parte das mulheres buscam distanciamento do feminismo, e até mesmo não enxergam que seus direitos, sua condição de cidadã vem dessas mulheres.

Além disso, muitas mulheres que sempre tiveram uma vida confortável votam em Bolsonaro como uma tentativa de manter seus privilégios. Durante o governo Lula e Dilma ocorreram muitas mudanças sociais como por exemplo, a PEC das Domésticas, que regulamentou a profissão de empregada doméstica. Algumas mulheres vêm essas mudanças como um perigo a sua vida estável. Votar em Bolsonaro é a garantia de que esses privilégios vão continuar. O que essas mulheres não conseguem compreender é que elas são, ainda, reféns de um sistema opressor que as inferioriza diante do homem. Romper com essa posição é fundamental, as mulheres não podem mais aceitar “privilégios” de um sistema que as oprimem. Simone Beauvoir*** alertava para essa situação:

Mesmo assim, enquanto subsistem as tentações da facilidade- em virtude da desigualdade econômica que favorece certos indivíduos e do direito reconhecido à mulher de se vender a um desses privilegiados- ela precisa de um esforço moral maior que o do homem para escolher o caminho da independência (BEAUVOIR, 2016, p.196).

Serena Joy, cega por sua posição social e sua obsessão por cumprir o destino biológico não enxergou as correntes que a prendiam e a ajudou a criar um mundo em que ela não tinha valor nenhum. Bolsonaro representa esse modelo de sociedade e as mulheres, mesmo a suas eleitoras, não terão voz, pois não será um governo construído por mulheres. Assim, não podemos ser como Serena, não podemos contribuir para a ascensão da misoginia e do fascismo. Mulheres devem hoje e sempre gritar: Ele Não, Ele Nunca.

*Daniela França Chagas é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Minas Gerais, Mestre em Literatura e professora de Língua Portuguesa, Redação e Literatura.

_________________
* Atwood,Margaret. O conto da Aia, 2017.

*** Beauvoir,Simone. O segundo Sexo, 2018.

 

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