A potência da luta das mulheres contra o fascismo pelo #EleNão

29-09-2018-Julia Palandi Gayoso (7)

*Por Julia Ferry

As manifestações #EleNão organizadas pelas mulheres tomou as redes sociais e as ruas das cidades no país no último sábado (29 de outubro). Em um ato multipartidário, partidos políticos, movimentos sociais organizados e autonomistas e pessoas desligadas de organizações se uniram às ruas no enfrentamento ao fascismo consolidado na candidatura de Jair Bolsonaro.

O que se coloca em disputa e confronto como bem colocou Nancy Fraser em seu artigo para a Folha é “a insurgência de vozes historicamente caladas na política” onde as mulheres unidas na luta democrática romperam com o isolamento doméstico real e simbólico que as categoriza. A audácia de uma das maiores – se não a maior – manifestação ocorrida no Brasil neste ano está na ocupação do espaço público não institucionalizado, a rua, no enfrentamento à misoginia e ao fascismo. Esse movimento dá continuidade ao processo de reconfigurar a própria noção de mulheres enquanto sujeito coletivo e político.

Pelo caráter transgressor que se propõe as manifestações, certamente geraram grandes movimentações à direita e à esquerda.

Entre os conservadores, a estratégia foi de procurar chocar e amedrontar a população, propagando imagens (grande parte fotos e montagens descontexualizadas do ato) de mulheres expostas em oposição brutal ao lugar por excelência de idealização feminina: santificado, materno e puritanizado. Isso é realmente assustador. Quem poderá salvar essas mulheres rebeldes e descontroláveis? O pai conservador? Aqui a velha ideia patriarcal que se apoia a figura de Jair Bolsonaro: o pai que virá por “regra na casa”, neste caso, “de volta para a casa”. O pai violento que virá reajustar as ‘’fraquejadas”, pela via da eliminação autoritária da oposição e questionadores/as das estruturas hegemônicas da “ordem”.

Em resposta a isso, uma parcela da esquerda fica presa no lugar da retórica defensiva diante das “fake news”, que é a estratégia por excelência utilizada pelo candidato fascista e parte do seu eleitorado. Argumentar que aquelas imagens são montagens mal-intencionadas e cortes de uma parcela muito pouco representativa em relação às mulheres majoritárias que compuseram o ato, ainda que conduza à realidade, deve ser feito com uma discursiva feminista consistente que faça disputa narrativa e não tendo como pretensão principal agradar aos conservadores.

Por outro lado, outra parcela da esquerda culpabiliza a manifestação pelo crescimento do candidato em questão, tendo em vista que esse crescimento se deu sobretudo entre as mulheres. Se a Psicanálise tem algo a nos ensinar é que a exposição do problema não é o que o acentua. Pelo contrário, a “conscientização” gera uma movimentação importante em direção a autonomia. O desejo pela autonomia e liberdade é um confronto direto aos ideais fascistas.

Quanto a isso, só se mostra ainda mais louvável a importância das manifestações organizadas pelas mulheres, cuja função foi fazer gritar em um laço de milhares de corpos que ocuparam as cidades do país o silêncio e a paralisação que o fascismo quer fazer verdade.

Descredibilizar os atos é um erro político para o campo democrático. Em vez disso, é importante que a esquerda utilize da potência dessas manifestações para incorporar mais narrativas que sustentam a oposição ao fascismo. Isso inclui dar continuidade à denúncia de que o candidato da extrema direita é a continuação piorada da agenda econômica do governo temer. De que sua candidatura intenciona aprofundar as reformas liberais, minar os direitos trabalhistas, o investimento em políticas públicas, sendo o seu partido a legenda mais fiel aos projetos do governo temer contra os direitos dos/as trabalhores/as. Também é favorável à PEC que congela investimentos em educação durante 20 anos e foi contrário à PEC das empregadas domésticas. Essas são medidas que afetam sobretudo a vida das mulheres. Sabe-se que são em períodos de aprofundamento da exploração do capital que a divisão sexual do trabalho se evidencia com ainda mais força, onde fica a fardo das mulheres a responsabilidade de operar gratuitamente o trabalho que era função das instituições do estado e das políticas públicas. Além disso, são as mulheres que mais sofrem com a  demissão, diminuição dos direitos trabalhistas – sobretudo no que envolve a condição da maternidade – e precarização do trabalho assalariado.

O enfrentamento à candidatura de Jair Bolsonaro fica a critério essencial da agenda feminista. A esquerda têm compromisso indispensável com a luta das mulheres.

*Julia Ferry é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

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