Precarizar a educação no Brasil é violentar direitos, liberdade e o corpo das mulheres

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Por Daiane Marques*

Nós, MULHERES, somos cerca de 90% do corpo docente no Brasil. Somos as costas que carregam as responsabilidades do tripé ESCOLA, FAMÍLIA E ESTADO. Acumulamos duplas, triplas, quadruplas infinitas e incessantes rotinas de trabalho doméstico, profissional, de formação intelectual, de cuidados da família, dos filhos, dos idosos, enfermos e abandonados a qualquer sorte. Nós, MULHERES, somos o fogo quente dos fogões dos RESTAURANTES PÚBLICOS tão fundamentais ao sustento do povo, à baixo custo e de qualidade nutricional, somos  as CRECHES demandadas e nunca implantadas que frustram nossos sonhos de tempo livre para formação intelectual pessoal e profissional, somos nós, MULHERES, os asilos de nossos idosos, somos nós, MULHERES os cuidados e o conforto dos que enlouquecem por conta das mazelas dessa sociedade capitalista-patriarcal-racista, somos nós, MULHERES E PROFESSORAS os corpos que suportam e não sucumbem com todo esse peso da ESCOLA, da FAMÍLIA e do ESTADO sob nossas costas!

Vivenciamos a realidade de um modelo de ESCOLA ultrapassado, precarizado, mantido como vetor para desvios de verbas públicas, essas funcionam como prisões sem espaço físico suficiente, com rotinas estressantes e formadoras de indivíduos acríticos que sedimentam um modelo de sociedade nociva e excludente. Temos sucessões de FAMÍLIAS distanciadas da formação escolar e humana de seus membros, que sub-vivem e que sedimentam um modelo de ESTADO que reproduz a lógica capitalista como motor de força para a produção e reprodução das desigualdades sociais e da manutenção do poder das camadas mais abastadas da população brasileira.

Em tempos de Golpe, Estado de exceção, constantes ataques à democracia, avanço do conservadorismo e corrida pela privatização dos aparelhos do Estado, o ataque começa pela educação. Começa pela crescente divergência entre a demanda e a oferta de vagas nas creches, escolas, universidades, começa pelo corte no financiamento e na manutenção dessas estruturas, pelo corte da merenda escolar, dos restaurantes públicos, começa pela carência de matérias didáticos, formação de professoras/es, pelo corte e defasagem dos salários.

Os ataques começam pelo corpo das mulheres que representam 90% do corpo docente desse país, o ataque começa por renegar direitos e liberdade a MULHERES, que dependem do sistema educacional e de cuidados precariamente oferecido pelo Estado. MULHERES que nas crises políticas, financeiras e econômicas que ocorrem ao longo da história do capitalismo, perdem seus empregos para sustentar a rede de  cuidados que subsidia a exploração e retroalimentação desse sistema perverso

A educação básica definha e com ela os corpos massacrados e esquecidos das MULHERES PROFESSORAS desse Brasil. O cenário que se tem, em cada canto do Brasil é de uma escola cada vez mais involuída, precarizada e com deficiências estruturais gritantes. Não que não se saiba o que é necessário para construir uma educação de qualidade e para o bem estar social, esse não é o projeto político para o Brasil, nunca foi. Equipamentos de saúde, assistência social, cultura e lazer que deveriam estar a serviço da educação e compor uma rede de apoio ao trabalho das MULHERES PROFESSORAS nas escolas do Brasil, são dispostos de maneira isolada e desassociada do modelo educacional desenvolvido em nosso país.

Mulheres exercem os papéis sociais CRISTALIZADOS PELO PATRIARCADO e quando PROFESSORAS sobrecarregam as funções negligenciadas pelo Estado na conformação dos modelos de escolas públicas sucateadas que se têm em nosso país. Somos para além de professoras, assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras, merendeiras, porteiras, seguranças, somos encarregadas pela manutenção desse nosso ambiente de trabalho esquecido pelo Estado, somos eletricistas, encanadoras, mediadoras de toda forma de conflitos políticos sociais e econômicos, acumulamos todas essas funções desumanamente e ainda somos subvalorizadas e desprestigiadas por essa sociedade que cuidamos, que carregamos sob nossas costas envergadas e rígidas.

A carga é pesada, mas os sonhos são mais densos, MULHERES! Precisamos pensar, nos organizar e construir a educação com nossas próprias mãos. Precisamos ocupar os espaços de planejamento e gestão e reconstruí-la para o bem social, liberdade dos nossos corpos e autonomia de nossos sonhos. Mais direitos e mais liberdade para nossos corpos pela coletivização do cuidado.

É urgente investirmos e focarmos na formação política do nosso povo para o Projeto Popular de Educação que queremos, que precisamos construir. Formar indivíduos que se apropriem desse projeto e que promovam transformação social é nossa principal tarefa. Depois disso é estreitar os laços com as comunidades escolares e instrumentalizar radicalmente os Conselhos Escolares como ferramentas de gestão participativa e democrática, efetivamente, alavancando-os massivamente para o trabalho de mobilização nas ruas e ocupação das pautas reivindicatórias de nossa categoria, fortalecendo nossos sindicatos e formando quadros que concorram para a construção da educação que queremos para o Brasil.

A educação e a escola que vamos construir primeiramente começa por garantir leveza para o corpo das mulheres, começa pela desconstrução do modelo de sociedade machista, racista e patriarcal e essa evolução começa na escola com o nosso Projeto Popular de Educação.

 

*Daiane Marques é militante da Marcha Mundial das Mulheres na Bahia.

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