As mulheres e a resistência democrática do país

*Por Talita São Thiago Tanscheit

Desde 2015, quando as possibilidades de realização de um golpe parlamentar foram tornando-se reais, as organizações de mulheres e feministas tornaram-se a linha de frente da resistência democrática no Brasil. Não apenas porque sabiam que esta era uma ação antidemocrática, mas também pelo seu conteúdo extremamente machista e misógino contra Dilma Roussef, a primeira mulher eleita presidenta do país, e que consequentemente teria efeitos perversos sobre a vida das mulheres.

Assim, iniciaram-se as mobilizações constantes e multitudinárias contra Eduardo Cunha, o principal articulador do golpe e de uma agenda claramente orientada para a supressão dos direitos das mulheres. Por outro lado, a consumação do golpe expressou o que já se sabia: a primeira montagem de ministérios de Temer caracterizou-se pela ausência de mulheres e da população negra, e o seu documento “Ponte Para o Futuro” nos fez retornar a tempos medievais. A reforma trabalhista e o ensaio da reforma da previdência foram a mais latente expressão destes efeitos, afetando diretamente à nós mulheres, que somos a base do trabalho precário e desregulamentado e que enfrentamos jornadas de trabalho maiores tanto na esfera doméstica quanto na esfera pública – isto para não mencionar as situações de violência doméstica e de assédio moral e sexual no trabalho as quais estamos frequentemente submetidas.

fora temer

Foto: Bruna Provazi

Esta resistência ocorreu em grande medida devido à auto-organização e ao acúmulo histórico dos movimentos de mulheres e feministas do Brasil, engrossado pelos novos movimentos que emergiram nos últimos anos e que possibilitaram a diversificação e a massificação do feminismo no debate público país. A partir desta auto-organização, realizada tanto em movimentos sociais próprios de mulheres, como a Marcha Mundial das Mulheres, a Articulação de Mulheres Brasileiras e os Coletivos Feministas universitários, quanto em movimentos como o Movimento Sem-Terra, a Via Campesina o Movimento dos Atingidos por Barragens e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, as mulheres puderam refletir sobre a sua autonomia e traçar, coletivamente, estratégias de resistência aos setores golpistas e antidemocráticos. A Marcha das Margaridas, que desde 2000 reúne dezenas de milhares de trabalhadoras rurais em Brasília, e os movimentos de Mulheres Contra o Cunha, são expressão da força que tem hoje o feminismo no Brasil.

No Executivo e no Legislativo, assistimos a violência política de gênero crescer na mesma proporção em que as mulheres emergiam como porta-vozes da resistência democrática, tendo como o assassinato de Marielle Franco o ápice da violência contra as mulheres – e em especial as mulheres negras – que ousam participar da vida pública do país. Entretanto, uma das características mais virtuosas dos movimentos de mulheres e feministas sempre foi a sua capacidade de “fincar os pés” nas duas arenas: nos movimentos sociais e nas instituições. Desta forma, acompanhamos mulheres se fortalecendo, se mantendo de cabeça erguida e defendendo o que ainda restava de democrático no Brasil

Neste último fim de semana, o Brasil sofreu o seu mais violento ataque desde o golpe à Dilma Roussef, a prisão ilegítima do presidente Lula. Frente à um momento impensável há poucos anos, algo de muito bonito aconteceu, e foi mais uma vez confirmada o papel que as mulheres ocupam no país. Duas mulheres – Manuela D’Avila e Gleise Hoffman – se sobressaíram como as principais lideranças e porta-vozes dos dois principais partidos de esquerda do Brasil – organizações políticas que sempre tiveram os seus espaços de direção e liderança masculinizados e refratários à presença de mulheres. Manuela e Gleise são um espelho do todas nós e uma prova de que nossa auto-organização e os nossos esforços em posicionar o feminismo no centro da agenda política do país, sem que nenhuma mulher ficasse no meio do caminho, valeram a pena.

Não restam dúvidas: as mulheres são a resistência democrática do país. E isso é de dar esperança no porvir.

*Militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro e Doutoranda em Ciência Política no IESP-UERJ.

 

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