SEM FEMINISMO NÃO HÁ AGROECOLOGIA

*Por Sarah Luiza e Liliam Telles

Nós da Marcha Mundial das Mulheres construímos um feminismo que pretende mudar o mundo para mudar a vida das mulheres e mudar a vida das mulheres para mudar o mundo. Com esse lema, expressamos nossa forma de construir o feminismo a partir de nossas experiências concretas no cotidiano, articulada a uma análise global de como o patriarcado vai construindo as bases para que o sistema capitalista aprofunde a exploração de nosso trabalho, nossos corpos e nossos territórios para seguir mercantilizando todas as esferas de nossas vidas. Isso nos traz a uma necessidade constante de compreender o contexto político para construirmos nossas estratégicas e táticas de luta por um mundo com justiça, igualdade, liberdade, paz e solidariedade. Por isso afirmamos que o feminismo que construímos tem como centralidade uma análise e uma atuação anticapitalista, antiracista, antilesbofóbica e antihomofóbica.

Para muitas de nós a Agroecologia tem sido um caminho coletivo de construção de uma filosofia de vida que, a partir de uma forma de pensar e fazer a agricultura, propõe relações justas, igualitárias e equilibradas entre as pessoas e dessas com o ambiente, orientando assim visões de mundo, ações cotidianas, atuações políticas e práticas produtivas, de consumo e da construção de novas relações sociais. Com essa afirmação, recusamos uma visão cientificista e tecnicista, ainda muito presente no mundo acadêmico e na prática cotidiana de parte das organizações, que resume a agroecologia à transição do modelo de produção. Não basta substituir os venenos e adubos químicos por insumos agroecológicos ou orgânicos na produção de alimentos, energia, fibras… Na nossa perspectiva é preciso transformar as relações sociais entre homens e mulheres e entre gerações, ressignificando as conexões entre campo e cidade para a construção de um outro mundo possível!

Militantes da MMM e do GT Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia no ENA.

Sem feminismo não há Agroecologia!!! Foi o lema construído pelo Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia, que expressa o nosso entendimento sistêmico de que a agroecologia é ciência, prática e movimento! Afirmamos esse lema, porque, para nós, o Feminismo e a Agroecologia fazem parte da construção de um mesmo projeto de transformação da sociedade que garanta a soberania dos povos sobre seus territórios e promova a produção e o consumo de alimentos saudáveis, a partir do uso e manejo sustentável dos agroecossistemas ao mesmo tempo que reconheça o conhecimento, o trabalho e a contribuição econômica das mulheres para a sustentabilidade da vida e promova autonomia, igualdade, liberdade.

Portanto afirmamos que o mundo pelo qual nosso feminismo e nossa agroecologia lutam só será possível com a autonomia das mulheres sobre suas vidas, seus corpos, seu trabalho, sem ameaças cotidianas de violência nas casas, nas ruas, nos roçados, nas redes e nos movimentos. Na construção da Agroecologia precisamos ser ouvidas: é fundamental que nossas realidades, anseios, concepções e contribuições sejam consideradas. Nós somos parte fundamental dessa História e dessa Memória.

Acreditamos ainda que é essencial que a Agroecologia se some à luta feminista para alterar a divisão sexual do trabalho, valorizando e reconhecendo as atividades produtivas e reprodutivas das mulheres, e, mais do que isso, buscando a sua justa divisão, em especial do trabalho doméstico e de cuidados.

A partir do nosso olhar feminista reafirmamos a concepção de que a Agroecologia precisa ter um enfoque sistêmico, que considere as dimensões ecológica, econômica, social, cultural, política e ética. Por esse motivo, não podemos desconsiderar que nossa sociedade foi construída com base em relações desiguais de poder entre homens e mulheres, entre brancas/os e negras/os, pobres e ricas/os, e fortemente demarcada pela heteronormatividade, como único padrão aceitável de sexualidade. Num momento de crise do capitalismo, é fundamental percebermos e denunciarmos as diferentes formas de controle sobre nossas vidas, nossos corpos, nossos trabalhos, nossos territórios e nossa produção, como estratégia para se manter como sistema hegemônico.

Protesto realizado pelas mulheres durante o X Congresso Brasileiro de Agroecologia

Nós mulheres temos sentido fortemente a intensificação desse controle expresso tanto no aumento das diversas formas de violência, por exemplo a partir de formas cruéis de feminicídio, da desqualificação de nossa atuação em espaços políticos, da invisibilização de nossa história, trabalho e contribuição, da exposição de nossos corpos e do uso midiático da violência que sofremos. O golpe de Estado que muitos países da América Latina e o Brasil viveram também é uma forma de controle do capital sobre nossas vidas na medida em que tem retirado direitos e imposto retrocessos em conquistas importantes, tentando destruir o que temos que mais importante: a esperança e a força na luta por um mundo melhor. Especialmente no Brasil, nosso projeto de mundo feminista, agroecológico, socialista está sendo ameaçado, colocado em cheque pelo golpe misógino, midiático, parlamentar e jurídico que vivemos.

Frente a esse contexto, afirmamos que nós militante feministas e militantes agroecológicas/os precisamos nos posicionar em defesa da democracia, contra esse golpe que tem se concretizado e intensificado a cada dia. Temos que fortalecer nossas alianças com outros movimentos, porque faz parte dessa ameaça a tentativa de nos fragilizar, de nos fragmentar. É preciso mais do que nunca renovar nossas esperanças de que um novo mundo é possível e fortalecer nosso campo unitário de luta. Por isso afirmamos que:

SEM FEMINISMO NÃO HÁ AGROECOLOGIA!

* Sarah Luiza  e Liliam Telles são militantes da Marcha Mundial das Mulheres e do GT de Mulheres da ANA (Articulação Nacional de Agroecologia)

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