Garotas Mortas

*Por Luíza Mançano

Foto: Ana Carolina Haddad

Passei a última semana pensando em escrever um texto,  uma análise literária sobre um livro, Chicas muertas, da escritora argentina Selva Almada, publicado em 2014. Uma crônica sobre o feminicídio na Argentina. Uma crônica sobre o assassinato de três garotas na década de 1980: Andrea Danne, Maria Luisa Quevedo, Sarita Mundín. Três mulheres mortas, três assassinos (pelo menos). Histórias que se multiplicam.

Uma crônica nasce de eventos cotidianos, eventualmente, de notícias.Três mulheres mortas.

Brasil, Julho de 2017.

Militante da causa LGBT+ é assassinada a tiros em Betim

Karina Fátima dos Santos, de 38 anos, foi executada com três disparos no Bairro Bom Retiro. Até o momento, ninguém foi preso

Betim, Minas Gerais. Terça-feira, 25 de julho.

Musicista foi morta a marteladas em motel antes de ter corpo queimado, diz polícia

A musicista Mayara Amaral, de 27 anos, encontrada morta em uma estrada na região do bairro José Abrão, em Campo Grande, na quarta-feira (26), foi assassinada a marteladas em um motel da capital sul-mato-grossense antes de ter o corpo queimado, segundo a Polícia Civil.

Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Quarta-feira, 26 de julho.

Jovem é preso após jogar ex-namorada grávida contra ônibus, em Botafogo

Lucas teria tentado matar a ex-namorada porque estava com uma viagem de intercâmbio planejada para o Canadá no próximo mês.

Rio de janeiro, Rio de Janeiro. Quarta-feira, 26 de julho.

Três notícias. Duas mulheres mortas, uma sobrevivente.

Quantas mais esta semana? Quantos nomes colecionamos? Quantas vezes não estremecemos, às vezes em silêncio, sozinhas, às vezes gritando, ao lado de outras, ao pensar “poderia ser eu”?

Feminicídio: quando uma mulher é assassinada por ser mulher.

Insistimos, denunciamos cada crime, vislumbramos um futuro no qual seremos mais do que sobreviventes, mais do que vítimas, mais do que manchetes sensacionalistas.

Um futuro sem medo. Um futuro em que uma morte não se justifique. Em que os homens não nos assassinem.

Um futuro no qual a vida (e tudo o que ela tem de produtiva) não seja uma questão de sorte. E que a gente possa escrever outras histórias, de vidas que não foram interrompidas.

“Diferente delas, e de outras mil mulheres assassinadas em nosso país, sigo viva. É só uma questão de sorte”, diz o livro.

*Luíza Mançano é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

Comments

  1. Companheira, lendo teu texto lembrei de um comentário que ouvi de uma Delegada de Policia num debate sobre violência contra a mulher: (fala não literal) Essa Lei de vcs, (falando da lei que tipifica o Feminicídio) não vai “pegar”, porque ela depende de muita análise técnica dos assassinatos de mulheres, afinal não podemos deixar que todo assassinato de mulher vire femicidio, né? E depois a maioria dos colegas, ainda tá pensando pra que mesmo uma lei nova? se já tem homicídio? Nem conseguimos implementar a Maria da Penha e vcs (se dirigindo ao movimento feminista) querem que a gente passe a diferenciar os “homicidios” da Maria da Penha? Pra maioria isso parece só uma questão semantica?” Daí recebeu uma avalanche de comentários de todas as militantes em plenário, mas ficou com aquela cara de “e daí?”
    Ela apresentou seu posicionamento sem se posicionar, afinal aqui no RS tudo qnt é “homicídio” é por causa do tráfico de drougas…
    O patriarcado realmente organiza a politica, a sociedade, o trabalho, NOSSA vida e MORTE!

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