Rodrigo Hilbert e a supervalorização do razoável

Por Fabiana Oliveira*

Faz tempo que o discurso da “desconstrução” tem contaminado nossos debates e, sobretudo nas redes, ganha força e adesão. “Ele é descontruído”, “ele está se descontruindo”, afirmam algumas de nós para falar de alguns companheiros (ou nem tanto) de luta e de vida, reforçando a ideia de que alguns homens podem não ser machistas e/ou beneficiados pela forma desigual como se estruturam nossas relações, sejam elas de afeto, trabalho ou militância. Dessa forma, forjamos o machismo como uma estética e não como estruturante de todas essas relações.

Essa prática tende a individualizar uma questão que é coletiva, diz respeito à todas nós, em graus e de maneiras distintas, jogando fumaça sobre o fato de que todos os homens se beneficiam do capitalismo patriarcal que nos oprime, seja objetificando nossos corpos, tendo mais chance de estar em melhores postos de trabalho ou explorando o trabalho doméstico e de cuidados.

A verdade é que masculinidade saudável não existe, porque o oposto seria dizer que uma feminilidade sadia é possível e feminilidade é um conceito patriarcal. Trata-se de uma etiqueta para toda a forma violenta como somos tratadas e o comportamento restritivo e de subserviência que esperam de nós.

Na última semana, nossas timelines estiveram cheias de elogios para o ator global Rodrigo Hilbert. Supostamente, ele seria um homem extraordinário por cuidar dos próprios filhos, cozinhar e realizar outras tarefas cotidianas. Opino, sem culpa, que esse não é um comportamento extraordinário. No máximo, tratam-se de práticas razoáveis e, nesse caso, sobretudo midiáticas.

Extraordinárias, na verdade, são as mulheres, muitas, quase todas que conheço, que ainda são as principais responsáveis pelos trabalhos doméstico e de cuidados, ganham menos, trabalham mais, são vítimas de toda a sorte de violências e quase nunca “ganham medalhas” por isso. Mesmo sem esse reconhecimento (seletivo), muitas delas se organizam na luta por uma sociedade mais justa para mulheres e homens, essas sim fazendo coisas extraordinárias.

É certo que precisamos cultivar novas práticas nas nossas relações com homens e mulheres. Como disse Silvia Federici, “Não há como fazer a luta política se não mudar a forma como você reproduz sua vida”, assim como é verdade que merecemos mais que ter como referência afetiva e política um ator global, branco, que tem babás, empregadas domésticas, seguranças, cozinheiras e, por esse motivo, pode dispender tempo fazer propaganda de si mesmo, para a qual não precisamos fazer contribuição voluntária. Nós merecemos muito mais!

*Fabiana Oliveira é militante da Marcha Mundial das Mulheres em Campinas (SP).

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