Justiça relativa, violência seletiva

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*Por Karina Moraes

Em 2014, no RJ, um adolescente negro foi amarrado nu em um poste e espancado por 15 homens. Houve aqueles que aplaudiram: o garoto era acusado de furto. Em 2014, em SP, o Tribunal de Justiça absolveu um fazendeiro de 79 anos que estuprou uma adolescente de 13. Houve aqueles que aplaudiram: a menina se prostituía. Em 2016, no RJ, uma adolescente de 16 anos foi estuprada por 33 homens e exposta nas redes sociais. Houve aqueles que aplaudiram: a garota era acusada de traição e supostamente usuária de drogas.

Em 2017, em SP, um adolescente de 13 anos foi assassinado por um funcionário do Habib’s. Houve aqueles que aplaudiram: o garoto supostamente era usuário de drogas. Em 2017, no PA, 10 trabalhadores rurais foram mortos pela polícia. Houve aqueles que aplaudiram: eram “invasores” de terras. Em 2017, em SP, um adolescente de 17 anos foi torturado e humilhado com uma tatuagem na testa, escrito “Eu sou ladrão e vacilão”. Houve aqueles que aplaudiram: o menino era acusado de furto e supostamente usuário de drogas. Ontem a noite, em SP, e em muitas outras que a precederam, a ação dos governos estadual e municipal na “cracolândia” desalojou famílias, feriu e matou pessoas. Houve aqueles que aplaudiram: são usuários de drogas.

Na defesa de “justiça com as próprias mãos”, todos os dias aplaude-se crimes de ódio. O critério de justiça é relativo e os “valores morais” são construídos a partir de uma lógica classista, racista, machista, homofóbica. O conservadorismo anda de mãos dadas com o neoliberalismo, projeto onde lugar de preto é na senzala (e há quem diga que capitalismo e escravidão são incompatíveis) e de mulher é na cozinha, procriando, atestando a virilidade do marido e conferindo a oscilação dos preços no supermercado. A família tradicional brasileira é a única que cabe no projeto neoliberal: branca, classe média, patriarcal, heteronormativa (e só existe exceção quando vira mercadoria). O aprofundamento das violências é inerente a lógica desse sistema e, precisamos lembrar: o sistema não é uma entidade-onipresente-intransponível-sem-rosto, mas construído por pessoas!

Não se discute que os problemas que atravessam nossa sociedade são consequências das desigualdades sociais. Não se discute que a desigualdade social é o que estrutura a nossa sociedade. Não se discute que há uma dimensão histórica na construção dessas estruturas.

Para uma parcela da população, a violência é autorizada e legitimida pelo Estado. Essa parcela é definida por um critério de classe. Os “valores morais” divide a sociedade entre pessoas matáveis e pessoas não matáveis. Em todos os casos, pessoas matáveis são
pessoas pobres e quem aplaude tem também as mãos sujas de sangue!

*Karina Moraes é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

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