Mulheres de Ubatuba preparam ações contra o desmonte da Previdência

Nem belas, nem recatadas: mulheres de luta!

A compreensão da importância de discutir e intervir na política em todos os níveis (local, estadual e nacional), os obstáculos enfrentados e a agenda de lutas contra as reformas da Previdência e trabalhista e contra a terceirização foram temas discutidos na atividade “Mulheres na política”, realizada na sexta-feira, 21, em Ubatuba, organizada pelo Diretório Municipal do PT e pela Marcha Mundial das Mulheres, com apoio do Pé na Jaca Bar.

O evento contou com a participação de mulheres que atuam em Ubatuba e também em Caraguatatuba, seja na organização comunitária, na militância partidária, na economia solidária ou no combate à violência contra a mulher, e foi facilitado por Sonia Coelho, militante feminista da Sempreviva Organização Feminista (SOF), entidade que existe há mais de 50 anos e integra também a Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Criada em 1963, a organização desde então presta atendimento às mulheres do campo e da cidade em diversos temas relacionados à saúde, planejamento familiar, combate à violência, acesso a direitos e organização produtiva de mulheres, bem como no fortalecimento da cidadania e da participação política.

O debate abriu com uma roda de apresentação em que as participantes puderam compartilhar suas trajetórias pessoais sobre o significado de intervir politicamente. Foram mencionados, por exemplo, o envolvimento no trabalho de combate às drogas e ao tráfico de armas que desestrutura muitas comunidades no litoral norte, assim como o conflito pela posse de terras, a luta por políticas públicas voltadas às mulheres, o trabalho educativo com crianças e adolescentes das áreas mais carentes da região, a luta por moradia para mulheres estudantes grávidas e a luta por habitação e emprego. Também foram relatados o pouco apoio de familiares e da sociedade à participação política das mulheres e o machismo predominante nos partidos, que constantemente incentivam os homens a tomarem a palavra em público e sistematicamente negam, ignoram ou cerceiam as falas e as ações das mulheres ou que promovem a candidatura de mulheres apenas para fortalecer a de homens ou uma visão conservadora machista.

“Todas as falas demonstram que as mulheres estão, sim, engajadas na política, mas não estão nos lugares de decisão da política. Isso resulta de um modelo patriarcal de sociedade que constantemente quer atribuir um determinado lugar para as mulheres, em geral, o da casa”, sintetiza Sônia. “Estamos passando por um momento de avanço conservador que é internacional e que no Brasil se expressa aqui no slogan ‘belas, recatadas e do lar’, e na forma extremamente violenta e machista como a presidenta Dilma Rousseff foi tirada do lugar para o qual foi eleita”.

“O golpe contra a presidente Dilma faz parte de um processo de desqualificação das mulheres na política. Um processo que tenta dizer que nós, mulheres, não somos pessoas com capacidade ou que devam estar nesse lugar. A essa ofensiva, nós da Marcha Mundial das Mulheres e muitas outras fomos às ruas para dizer: ‘nem belas, nem recatadas: somos de luta’”, conta Sônia.

Uma das conclusões é que o sistema que predomina no mundo hoje é capitalista, patriarcal e racista e projetado para que as mulheres não estejam na política. As mulheres há muitas décadas estão lutando para mudar isso e a luta ainda continuará por muito tempo. “Sabemos que mais de 40% das famílias com um único chefe de família no Brasil têm como responsáveis mulheres negras, solteiras e pobres. No entanto, ainda somos educadas a ser frágeis e ficar à espera de um príncipe do qual seremos dependentes. Nossa realidade mostra que estamos longe disso. Por isso, há muitos grupos que atuam no sentido de ‘desprincesar’ a educação e discutir os papéis de gênero, mostrando que não existem cores ou tarefas que sejam só de homens ou só de mulheres”.

Compartilhar o trabalho de cuidados para ter mais mulheres na política

Sônia lembrou como as mulheres vão sendo expurgadas pouco a pouco de lugares de decisão política mais complexa. “Um exemplo são os conselhos, que integram o conjunto de mecanismos de democracia participativa: em nível municipal, você encontra muitas mulheres. Já indo para o nível estadual o número é menor. E chegando em nível nacional, às vezes não há nenhuma mulher nesses espaços, como é o caso do conselho de recursos hídricos, que gere a água, um recurso fundamental para as mulheres”.

Para enfrentar e superar essa realidade, há alguns elementos importantes a afirmar. “O primeiro é despir-se da culpa que tentam nos impor. Se não há mulheres na câmara não é porque não queremos, é porque o sistema político não é montado para que as mulheres ou a população negra ou indígena estejam representadas. Em praticamente todos os níveis – local, estadual, nacional – o mesmo retrato vai ser encontrado: um legislativo composto por homens, em geral, brancos, idosos e abastados”, destaca Sônia.

“Temos também que promover a educação e mudar a divisão sexual do trabalho: as mulheres não devem ser vistas como as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados. O homem também não é o único provedor da casa e o trabalho remunerado da mulher tem que deixar de ser visto como ‘complemento’ ou ‘ajuda’ porque não é. Países como a Suécia, onde já há mais de 40% de mulheres no Congresso, conseguiram atingir esse grau de participação porque têm uma série de políticas que promovem o compartilhamento da responsabilidade pelos cuidados da família, das crianças, idosos e doentes. Por exemplo, a licença parental igual (para pais ou mães), creche e escola integral, acesso a programas de saúde e assistência social e programas de educação que desde a primeira infância ensinam que o trabalho de cuidados não é só das mulheres”, agrega.

Hoje o que grande parte das mulheres vivencia é a sobrecarga de trabalho doméstico e remunerado. “Se dividirmos nosso tempo pelo tempo dedicado ao trabalho remunerado, ao trabalho doméstico e de cuidados, ao trabalho social e à participação política, ao cuidado de si mesma e ao lazer, entendemos o porquê da baixa participação das mulheres. Elas são as primeiras a acordar e as últimas a irem dormir, não sobra tempo já que o tempo não é elástico”, afirma.
Soma-se a isso a constante mensagem que é passada de maneira implícita e explícita de que a política é algo ruim ou corrupto. “Tudo isso tem como objetivo afastar as mulheres da política e deixar o espaço para que outros ocupem”, destaca Sônia. “A solução é seguir enfrentando nossos medos, ousar tomar a palavra, mesmo cometendo erros e nos apoiando no que os movimentos sociais vêm construindo, nas ações e em programas debatidos coletivamente. Se não damos nossa visão dos fatos, ela vai sendo secundarizada”.

Reforma política para aprofundar a democracia e agenda de lutas

Outra luta que as mulheres vêm fazendo é pela reforma política, para que se compreenda a democracia para além da democracia representativa, de eleição de membros do legislativo ou do executivo. “Além de buscar paridade, ou seja, representação igual de homens e mulheres, temos que aprofundar mecanismos de democracia direta, como são os plebiscitos. É inaceitável que o Congresso tome sozinho a decisão sobre temas que são relevantes para a maioria da população como é o caso da privatização do pré-sal. A população tem que ser chamada a dialogar sobre os diferentes temas”, reforça Sonia.

Em um cenário de ruptura da democracia no país, em que uma presidente eleita foi destituída sem ter cometido nenhum crime, e de profundo retrocesso de direitos, a mobilização popular, particularmente das mulheres, é urgente. E deve ser feito a partir dos próprios problemas que elas vivenciam todos os dias. Sônia alerta: “O congelamento dos investimentos em saúde e educação e a destruição da seguridade social é uma verdadeira tragédia. A maioria das mulheres não vai poder se aposentar e não podemos permitir isso. Temos que estar todo o tempo nas ruas pra impedir essas maldades”.

Por isso, a Marcha Mundial das Mulheres do Brasil aproveita o chamado internacional de 24 horas de ação feminista, neste 24 de abril, para mobilizar rumo à greve geral, que acontecerá em todo o Brasil no dia 28 de abril. A luta contra a reforma da previdência se soma ainda à luta contra a reforma trabalhista, que quer acabar com a carteira assinada, com as horas extras, o 13o salário, as férias e o direito a descanso nos finais de semana. “Vamos parar em todos os estados brasileiros, principalmente entre o meio-dia e as 14 horas deste dia 24 de abril”, conta.

Ubatuba também decidiu se somar à mobilização e as mulheres estarão no calçadão do Centro, a partir do meio-dia, fazendo panfletagem, exigindo que os deputados da região votem contra a reforma da Previdência e a reforma trabalhista.

Já no dia 28 de abril, o chamado é para atuar localmente, em cada cidade,com greves, paralisações, coletas de assinaturas, panfletagens, denúncia de deputados federais que estão contra o povo. “Em São Paulo, diversas categorias como condutores de ônibus, metrô e trens, metalúrgicos e químicos e creches particulares e públicas já anunciaram que vão parar. Seremos acompanhadas pelos trabalhadores e trabalhadoras da Argentina, que também vão promover uma greve geral. É preciso que desde agora divulguemos a greve e que pressionemos os parlamentares”.

Além da greve no 28, as centrais sindicais vão fazer um ato unitário estadual no dia 1o de maio, na av. Paulista, para o qual Ubatuba e toda região também vai se mobilizar a estar presente.

Para saber mais, escrever para o e-mail: mmm.ubatuba@gmail.com

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