8 de março de 2017 e o chamado para a construção do feminismo

8março

*Por Thandara Santos

O 8 de março de 2017 é especial. Diferentes movimentos e diferentes mulheres farão suas leituras sobre a especificidade deste ano e deste chamado para o 8 de março, mas acredito que há algo como um consenso sobre a importância deste ano, especificamente.

Em diferentes países, este 8 de março de 2017 marca o resultado de um processo de acúmulo dos movimentos de mulheres em torno de pautas centrais para a política local e retoma o sentido de amplas mobilizações recentes. Na Argentina, as companheiras vêm de um processo importante de mobilização das mulheres contra o feminicídio. Na Polônia, as mulheres assimilam os resultados de uma ampla mobilização pelo direito ao aborto legal e seguro, que paralisou o País. Em diferentes países europeus, as mulheres se colocam à frente da resistência contra as políticas de austeridade econômica e contra o nacionalismo radical, que promove intolerância aos migrantes e diferentes minorias. Nos Estados Unidos, as mulheres se colocam como protagonistas da insurgência popular organizada contra o governo misógino, racista, islamofóbico e autoritário de Donald Trump. No Oriente Médio, as mulheres permanecem organizadas em sua resistência a grupos fundamentalistas que destróem comunidades e avançam sobre os corpos e territórios das mulheres.

Em toda parte, as mulheres constróem alternativas e protagonizam resistências ao avanço do conservadorismo e do neoliberalismo, que se manifesta de diferentes formas em diferentes partes do mundo.

O que torna este 8 de março especial não é o ineditismo de um chamado para uma articulação internacional, afinal, a Marcha Mundial das Mulheres se construiu justamente a partir de um chamado a mulheres de base de diferentes países, que se mobilizaram contra as causas da pobreza e violência no auge da globalização neoliberal no início dos anos 2000 e permanece mobilizada internacionalmente até hoje. O chamado para o 8 de março de 2017 é especial pois se constrói, por um lado, a partir da reação a esse avanço do conservadorismo e do neoloberalismo global, a partir das resistências locais, e por outro, a partir de uma reação ao avanço de um determinado discurso feminista que é muito facilmente assimilado por esse mesmo neoliberalismo. Uma reação ao discurso feminista que reivindica mulheres em posições de poder sem olhar para a desigualdade social e racial que faz com que nem todas as mulheres consigam chegar a essas posições. Uma reação ao feminismo que fala sobre a liberdade das mulheres sobre seu corpos e sobre sua sexualidade sem reconhecer as barreiras invisíveis que limitam o acesso a essa liberdade para a grande maioria das mulheres. É o feminismo que aplaude toda vez que o mercado dá mostras de que já não pode mais contornar um questionamento que está presente na sociedade sobre as desigualdades entre homens e mulheres ou sobre o avanço da violência contra a mulher, mas que se cala sobre o papel que esse mesmo mercado exerce na mercantilização dos nossos corpos, na exploração do trabalho não-remunerado das mulheres, na exploração dos territórios e dos saberes das mulheres do campo, na higienização e na militarização das cidades.

Esse 8 de março, que se articula a uma movimentação mundial das mulheres, é tão importante justamente porque marca esse momento de retomada do sentido de um feminismo combativo, militante, construído permanente e coletivamente e para os 99% da população. Nesse 8 de março, as mulheres de todo o mundo estarão novamente nas ruas, trazendo suas pautas locais, mas reivindicando suas vozes na disputa sobre os rumos da política mundial e visibilizando os impactos do neoliberalismo na vida das mulheres. Reivindicando a construção de um feminismo que é, necessariamente, um feminismo de esquerda, que não esconde suas pautas e que não se coloca como mais uma peça na composição de uma nova ordem mundial neoliberal e conservadora. Um feminismo capaz de reconhecer o racismo que afasta as mulheres negras do mercado de trabalho e as aproxima da pobreza; de reconhecer a lesbofobia que violenta nossas companheiras dentro de suas casas e nas ruas; a transfobia que nega a dignidade e mata todos os dias; a pobreza que nega às mulheres o acesso básico à cidadania.

O 8 de março de 2017, que marca os 100 anos da luta das mulheres trabalhadoras russas na construção de um processo revolucionário que alterou decisivamente a ordem mundial, marca também o chamado para a retomada de um feminismo combativo, militante e de esquerda, que construa coletivamente as bases para um novo processo revolucionário, protagonizado por todas as mulheres.

No Brasil, estaremos mobilizadas contra o feminicídio, pelo direito ao aborto e contra a reforma da Previdência e todas as políticas que retrocedem nos direitos da classe trabalhadora.

 

*Thandara Santos é socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres do Distrito Federal.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: