Sobre a “onda conservadora”, ou: o que as feministas estão dizendo faz tempo, mas alguns preferem ignorar

 

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Foto: Ana Carolina Haddad / Jornalistas Livres

Por Maria Júlia Montero*

Já tem um tempo que nós, feministas, estamos falando sobre a tal “onda conservadora”, e como ela vem regada também com uma boa dose de misoginia (coloquei alguns links ao final). Temos falado sobre como, principalmente em tempos de crise econômica (e política, e de valores…), alguns valores sobre as mulheres são reforçados no sentido de fortalecer um papel para nós: o papel da dona de casa, da trabalhadora precarizada (na fábrica e em casa), a mãe, a resignada… o papel da “bela, recatada e do lar”. Tudo isso vem junto com um maior controle dos nossos corpos através da crescente criminalização do aborto (controle da nossa capacidade reprodutiva), pela violência ou através da prostituição. Falamos, também, sobre como isso vem junto com as políticas de austeridade, como corte nos investimentos em saúde, educação, a reforma da previdência etc. Enquanto formulávamos sobre como o sistema é capitalista, mas também patriarcal e racista, alguns insistiam em ignorar os crescentes ataques às mulheres em nosso país.

Um dos pontos que viemos levantando nesses últimos tempos a respeito deste momento no Brasil e no mundo é o aumento da violência. Sempre pairava a dúvida: mas aumentou a violência mesmo, ou aumentaram as denúncias por conta da lei Maria da Penha? Nossa aposta foi (e é) a de que, além de aumentarem as denúncias, 1) aumentou a violência nos espaços públicos (como reação a uma maior autonomia das mulheres nos últimos anos; 2) aumentaram os crimes com mais ódio, mais extremos, como estupros coletivos, com uma maior propagação de discursos de ódio contra as mulheres (que sempre estiveram lá, mas agora são escancarados).

A violência, para quem não sabe, é uma forma de controle sobre as mulheres. Um homem sempre poderá bater em uma mulher, mesmo que nunca o faça. Ele pode. E uma mulher sempre poderá apanhar, ainda que não tenha intenção nenhuma de transgredir os papéis que lhe foram impostos. O Estado contribui com essa situação ao não acolher denúncias e não reconhecer a violência contra a mulher como um problema (é por isso que leis como a Maria da Penha são um avanço). Situação semelhante nós vemos com o genocídio da juventude negra: é uma forma de controle, um jovem negro não precisa fazer nada para ser morto, basta ser negro. A única diferença é que, com relação às mulheres, o Estado age a partir da omissão; com a juventude negra, o Estado age a partir da ação.

Isso que eu estou dizendo não é novo. Na verdade, eu estou praticamente fazendo uma compilação de coisas que nós já cansamos de dizer, de escrever, de falar nas reuniões etc. Tem coisa que nem dá pra escrever diferente, de tantas vezes que nós já dissemos.

E aí, um monte de gente aparece hoje surpresa, estarrecida, escandalizada com a chacina de Campinas. Claro, é pra ficar escandalizado sim, mas a questão não é essa.

Começaram a pipocar nas redes debates sobre como o assassino deveria ser um fã do Bolsonaro, era de extrema direita, xingou a Dilma etc e que “o discurso de extrema direita fez sua primeira chacina no Brasil”.

Sim, o que o cara fez tem íntima relação com o discurso de extrema direita, porque a misoginia tem relação com isso (ainda que não seja exclusiva da direita assumida). Isso é o que nós estamos dizendo faz um bom tempo: os ataques às mulheres têm TUDO A VER com o restante dos ataques aos direitos da classe trabalhadora. Os discursos misóginos têm, portanto, TUDO A VER com os discursos anti-direitos humanos de forma geral, reacionários etc. Mas eu fico pensando: se ele não tivesse xingado a Dilma, ou mencionado outras questões “políticas” (direitos humanos, corrupção etc) na sua “carta de despedida”, será que estaria tendo tanta repercussão? Será que estariam fazendo a conexão entre o discurso conservador “geral” e a misoginia?

Parece que uma parte da esquerda só percebeu agora que misoginia tem tudo a ver com o resto que tá rolando no nosso país. Que misoginia tem a ver com crise, tem a ver com as políticas de austeridade, tem a ver com esse bando de prefeito reaça que foi eleito no Brasil, que tem a ver com o golpe de estado que sofremos em 2016!

E parece também que parte da esquerda só percebeu agora que acontece violência contra a mulher – e sim, casos “bizarros”. Vamos lembrar da banda New Hit? Vamos lembrar do caso de Queimadas? Olha só um trecho de um texto nosso de 2014:

Citamos como exemplo o caso de Queimadas (PB), ocorrido em 2012: ação premeditada e cometida por um grupo de homens, que violentaram sexualmente cinco mulheres e assassinaram duas.

Na minha opinião, essa surpresa vem de uma incapacidade da esquerda em interpretar a realidade, identificar os problemas e, com isso, ter propostas para solucioná-los. Antes tinha violência contra a mulher? Ah, tinha, mas “não tinha nada a ver com a ‘grande política’”, então deixa que as feministas cuidam disso lá no canto delas. Agora, como o cara falou sobre corrupção, vamos relacionar o crime de ódio contra as mulheres com a realidade política do país e surtar por causa disso no facebook!

Entender a realidade significa entender também que o sistema é capitalista, mas também é patriarcal e racista. Então, se queremos construir uma forte resistência e uma nova proposta de sociedade, ela deve levar em consideração o feminismo e o antirracismo. Uma nova sociedade que não seja feminista não é nova, é mais do mesmo. Não adianta, então, se indignar uma vez a cada mil anos com a violência contra a mulher: é preciso ter o feminismo como algo central na nossa política e na nossa prática, se não, casos como este continuarão acontecendo – junto com todo o pacote de políticas de austeridade que estão sendo impostas pelo governo golpista.

E não adianta também ser feminista de facebook. Feminismo não é um “estilo de vida”, algo que você curte e pronto – ainda mais se a gente considera que a luta pela vida das mulheres tem a ver também com todas essas outras pautas que citei aqui. Ser feminista é fazer luta coletiva, é se organizar de forma autônoma junto com outras companheiras e ir pra rua combater o patriarcado, o racismo e o capitalismo. É estar lado a lado com os outros movimentos populares na luta por uma outra sociedade.

E, pra isso, companheiras, é essencial que larguemos um pouco o facebook e coloquemos o pé no bairro (ou no asfalto).

 

*Maria Júlia é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

 

Alguns links interessantes:

Por que lutamos pelo fim da violência contra as mulheres no dia 25 de novembro?

https://marchamulheres.wordpress.com/2016/11/25/por-que-lutamos-pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres-no-dia-25-de-novembro/

A luta pela democracia: uma luta das mulheres https://marchamulheres.wordpress.com/2016/03/31/a-luta-pela-democracia-uma-luta-das-mulheres/

A vida das mulheres e a luta feminista e popular https://marchamulheres.wordpress.com/2014/03/05/a-vida-das-mulheres-e-a-luta-feminista-popular/

Eles não estão doentes, e nós não estamos loucas https://marchamulheres.wordpress.com/2016/05/27/eles-nao-estao-doentes-e-nos-nao-estamos-loucas/

Decorativas ou empoderadas: as saídas do capital para a vida das mulheres

https://marchamulheres.wordpress.com/2016/04/25/decorativas-ou-empoderadas-as-saidas-do-capital-para-a-vida-das-mulheres/

Dia 3, vamos às ruas por um projeto feminista e popular para o Brasil

https://marchamulheres.wordpress.com/2015/09/25/dia-3-vamos-as-ruas-por-um-projeto-feminista-e-popular-para-o-brasil/

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