Misoginia: uma psicopatia estruturante da sociedade Patriarcal

*Por Bruna Rocha e Maria do Carmo Bitencourt

Ação da MMM Campinas

Mulheres reunidas em Campinas-SP em repúdio à chacina feminicida ocorrida na cidade

É duro perceber que somente nos casos mais brutais de ódio, a luta das mulheres contra a violência cotidiana do Patriarcado tem ressonância na sociedade. Ainda assim, há uma disputa intensa de narrativa sobre qual razão, motivo ou circunstância especial leva um homem a matar a mãe de seu filho, seu filho e toda a família dela e se suicidar em seguida. Os jornais da grande mídia insistem em generalizar o crime como um ato de psicopatia, já que uma chacina não poderia ser classificada, explicada pelo argumento já cĺássico da passionalidade, perda momentânea da consciência ou perda da sanidade por excesso de “amor”. Teses defendidas e bem elaboradas nos blogs, colunas e mídia em geral, dominada pelos homens intelectualizados, ainda que a carta que o exterminador de Campinas deixasse nítido suas motivações misóginas e fascistas.

Na Bahia, três dias depois da chacina em Campinas, um homem incendiou sua própria família dentro de casa em Feira de Santana. O crime, relatado pela sua esposa, que sobreviveu com muitos ferimentos à tentativa de feminicídio, teve um nítido caráter de crueldade e misoginia. O assassino ateou gasolina no corpo da mulher e de todas as pessoas que estavam na casa (uma mulher grávida e o restante, crianças, algumas delas seus próprios filhos), trancou-as e tocou fogo, mesmo diante do pedido desesperado da mulher para que não fizesse aquilo.

Pois bem, se a sociedade insiste em tipificar os feminicidas como doentes mentais que sofrem de transtornos psicológicos e sociológicos, tratemos aqui do machismo como uma doença sim, uma psicopatia social que atinge homens e mulheres, pois desumaniza aqueles e submete estas, podendo muitas vezes nos levar à morte. (Dados do Mapa da Violência de 2015 mostram 13 feminicídios diários).

Pensar nesta doença social não nos remete apenas às características dos indivíduos, às subjetividades das pessoas, aos comportamentos humanos e práticas culturais dos homens, sobretudo, à um Estado de Violências profundamente institucionalizado. Falar da Chacina Feminicida de Campinas e em Feira de Santana (nome correto) é falar da negligência do Estado perante à violência permanente à qual nós, mulheres, estamos expostas. A saga de perseguição e cerceamento da liberdade da vítima de Campinas não começou na noite do dia 31 de dezembro de 2016, mas já vinha desde a sua opção em se separar de seu algoz, em 2012. De lá para cá, foram cinco boletins de ocorrência, uma verdadeira travessia no sistema de Justiça por proteção para si e para seu filho, que esta mulher enfrentou até o dia de sua morte trágica. Com certeza, era semelhante a situação da família na Bahia.

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Foto: Jornalistas Livres/Reprodução do Facebook

Notícias na internet e nos grandes jornais de televisão insistem em ratificar que a vítima de Campinas negou ser beneficiária das medidas protetivas que a Lei Maria da Penha poderia lhe assegurar, mas nenhum destes veículos aprofundou a investigação sobre a incongruência de uma mulher que teve a coragem de se separar de um agressor ameaçador, que teve coragem de denunciá-lo à Polícia e à Justiça, ter recuado diante da medida protetiva. Quantas ameaças ela não deve ter sofrido para tomar essa dura decisão. E se ela tivesse aceito, estivesse sobre proteção do Estado, será que estaria viva hoje? Afinal na maioria das vezes o papel que o judiciário emite garante o que mesmo na prática? Garante nenhuma proteção policial mais rápida ou atendimento especializado nos raros Centros de Referência em Atendimento às Mulheres em Situação de Violência no país. Garante abrigagem em casa protegida só quando já somos sobreviventes de atentados à vida ou ameaças graves, isso se houver Casa Abrigo, se houver vaga e se a mulher em meio ao desespero e caos solicitar, convencendo as autoridades de sua situação de extremo risco. Neste momento quem tem uma familia protetiva e acolhedora escolhe ficar neste lugar, pois mesmo sabendo das intenções violentas deste homem, todas só queremos acabar com este sofrimento e seguir em frente, desejo de liberdade e autonomia negado às mulheres pela sociedade e o Estado que necessita das mulheres submissas em casa, no trabalho reprodutivo e de cuidados.

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Jornalistas Livres/Reprodução do Facebook

Acreditamos que as políticas conquistadas a partir do tensionamento promovido pelas lutas das mulheres contra o Estado Patriarcal, a exemplo da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, foram e são fundamentais para o acúmulo histórico do feminismo na construção de uma sociedade livre da violência misógina. Por outro lado, sabemos que as tensões existem nas duas vias, e há muita resistência do Estado em assimilar estas leis afirmativas e igualitárias em suas estruturas retrógradas e conservadoras. Sabemos que ainda não existem o mínimo de equipamentos necessários, suficientemente qualificados para lidar com as violências estruturantes da sociedade patriarcal e a reinserção social das mulheres que, geralmente, são praticamente encarceradas, distanciadas de suas famílias e ciclos sociais, para que possam se proteger do agressor

É fundamental fazermos um debate sistêmico sobre a Chacina Feminicida de Campinas e Feira de Santana. O Patriarcado está em todas as atitudes do atirador misógino: na violência com que tratava sua mulher, na sua concepção racista e fascista de Estado explícita em suas opiniões sobre o sistema carcerário do Brasil, o qual chamava de “paizeco” em sua carta, na violência sexual que praticou contra seu próprio filho, na forma como se referia às mulheres e ao feminismo, à legislação que deve nos proteger, apelidando-a macabramente de “Lei Vadia da Penha”. O mais interessante e importante para pensarmos o quanto este tipo de feminicida é comum e camuflado em nossa sociedade patriarcal é a entrevista do vizinho do assassino, o qual discorre sobre uma conduta “tranquila”, “normal” e “alegre” que o homem tinha em seu dia a dia. Psicanalistas talvez dirão que estes são sintomas de uma ou outra doença neuropsicológica. Nós, mulheres alvos da violência cotidiana, afirmamos com certeza: esta doença é social, é racional e atende à um projeto de poder. Essa doença se chama machismo e sim, ela também mata homens, mas é feita para matar mulheres. Continuaremos em marcha, resistindo e gritando nas ruas e nas redes: A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer!

*Bruna Rocha e Maria do Carmo Bitencourt são militantes da Marcha Mundial das Mulheres

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