Convite-manifesto às mulheres em tempos de acirramento

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III Escola de Formação Feminista Popular Negra Zeferina em Salvador – BA

Por Elisa Maria e Maíra Guedes*

Organizadas pelo princípio da ação, Zeferinas, Soledads, Felipas, Rosas dos Ventos, Rogaccianas, Heleniras, Anas e sertanejas estão construindo um importante processo de formação política com centenas de mulheres país adentro, através das Escolas de Formação Feminista Popular. Em cada lugar a Escola de leva o nome de uma lutadora do povo. A 1ª foi em 2014, na capital baiana, e para nossa felicidade, 2 anos depois tivemos escola de formação em São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro. Na Bahia, além de Salvador, já tivemos formações no sul e sudoeste. No Vale do rio São Francisco, feministas baianas e pernambucanas se encontraram na Escola de Formação Feminista Popular Ana das Carrancas.

O que estudamos? Como funciona a sociedade capitalista, patriarcal e racista, a formação do povo brasileiro, bandeiras políticas, organização popular, história do feminismo popular, conjuntura e por aí vai.

Uma coisa que nos chamou atenção foi o interesse das mulheres. Na 3ª Escola de Formação em Salvador, foram 407 inscrições. Na 2ª em Pernambuco, foram mais de 400 inscritas. Sem dúvida é uma das tantas expressões do potencial aglutinador do feminismo hoje.

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II Escola de Formação em Recife – PE

Esse potencial tem nos feito refletir sobre a conjuntura e alguns desafios do movimento feminista no Brasil e aqui pretendemos levantar questões que estão a ferver em nossas cabeças, sem pretensão de aprofundá-las (nesse texto), mas de aguçar vontades e reflexões.

O capital avança sobre a América Latina com toda sua sanha imperialista e, para recuperar sua taxa de lucro, aprofunda o patriarcado e o racismo. Sua expressão no Brasil é também percebida com o aumento da violência contra as mulheres trabalhadoras e da mercantilização dos nossos corpos e vidas, no crescimento do genocídio do povo negro, no aprofundamento da divisão sexual do trabalho – expressa na diminuição das políticas sociais e consequente aumento da responsabilização das mulheres no trabalho doméstico e de cuidados, e na precarização do trabalho feminino. A ofensiva é conservadora e tem no fundamentalismo religioso um braço importante. Um exemplo é a tentativa incessante de aumentar o controle sobre a função reprodutiva das mulheres, retirando direitos já conquistados. Foi inclusive a luta contra o PL 5069 que levou milhares de mulheres às ruas fazendo ecoar “FORA CUNHA” em importantes capitais do país.

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II Escola de Formação em São Paulo – SP

As mulheres reagem, nossa força cresce, mas o liberalismo cresce ainda mais. A crise coloca em erupção uma série de contradições que tentam ser “resolvidas” com maquiagens de gênero. Há o combate sistemático a qualquer tentativa de organização das mulheres para além do “espontâneo” jogo que é sobreviver na sociedade.

Difunde-se uma ideia de que existir enquanto mulher já é transgressão suficiente, porque exige resistência. Não queremos, nem devemos, negar os leões que matamos por dia para sobreviver. Quando se é feminista, além dos nossos próprios problemas, nos metemos a enfrentar ciclos de violência, estupros, abortos, partos, pós-partos, criança, grito, prato, atrito… o que explode pra todo lado, resolvem as mulheres. Haja demanda! Mas existir resistindo dia a dia não tem feito os dias melhores. É preciso mais do que (r)existir. É preciso ter clareza de que as saídas liberais para problemas criados pelo próprio capital não são saídas reais para as trabalhadoras. Se sabemos que os problemas vividos pelas mulheres não são apenas conjunturais, a necessidade de construir força social em torno de bandeiras políticas que tenham a capacidade de enfrentar o patriarcado e o racismo como o que de fato eles são, estruturais e imbricados ao capital, vai exigir das mulheres de esquerda no Brasil um salto de qualidade de perspectiva tática e estratégica. É urgente nos debruçarmos sobre esse “salto”, enfrentando o desafio da unidade, da reorganização e da luta pelo poder.

Nossas contribuições

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III Escola de Formação, em Salvador – BA

A experiência das Escolas de Formação é uma das contribuições dos movimentos populares no enfrentamento à crise política e ideológica vivida por nós no Brasil. Entendemos que a educação está para além das estruturas educacionais institucionais, todos os espaços de socialização dos quais fazemos parte constróem o nosso ser social. O Estado burguês não educa a classe trabalhadora para o enfrentamento. Bebemos da compreensão de Florestan Fernandes, que diz que é preciso a auto formação enquanto classe. Com as Escolas de Formação, não queremos ficar mais ‘sabidas’ ou saciar a curiosidade de algumas sobre onde a gente se “encaixa” entre as diversas correntes do feminismo. Nos interessa construir o conhecimento sobre a totalidade da realidade para transformá-la radicalmente.

Aprendemos com a história em movimento das trabalhadoras e trabalhadores que sem unidade, formação, organização e lutas são se constrói força social. Quando apontamos a luta organizada em torno de projeto político transformador, não precisamos e nem devemos descartar a vivência cotidiana, ou quando afirmamos a necessidade de organização, não precisamos negar as subjetividades, ou mesmo quando se exige disciplina e compromissos coletivos, não devemos tratá-los como sentenças. Temos entendimento de que o feminismo, além de uma concepção, surge a partir de uma contradição que a sociedade não resolveu, e que encarar o desafio de construir um movimento de mulheres é encarar todos os dias essas contradições.

Se colocar em movimento é ter a ousadia de fazer tempo de vida resgatando tudo o que o sistema capitalista, racista e patriarcal quer nos impedir de usufruir em plenitude. É se embrenhar na compreensão da realidade, olhar a história, experimentar, na ação a organização popular, a solidariedade, as mãos dadas, a festa, tudo o que faz a práxis transformadora. O capital dá “nó” pra gente não ter tempo de se organizar e tenta nos encher de culpa e medo afastando de nós o prazer de sermos coletivas e ousarmos sonhar futuro e projeto de sociedade.

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Escola de Formação do Rio de Janeiro – RJ

Com as Escolas de Formação dizemos “não!” à negação do tempo da vida e à negação dos caminhos que levam a formação da classe trabalhadora enquanto sujeito capaz de mudar os rumos da história; “a gente quer tudo isso aí, ó!”, tempo de vida, tempo de luta, tempo de solidariedade. Tudo o que nos é negado, tomaremos nós mesmas com nossa força, que vem da organização popular. E a gente divide tarefa, estuda, socializa o trabalho de cuidado com as crianças através das Cirandas (espaço pedagógico para as crianças, acúmulo do Movimento Sem Terra), “invocamos a memória de mulheres antigas”, fazemos germinar nas Escolas de Formação, assim como a gente faz em cada ato de rua e em cada reunião conspirativa, um Projeto Popular pro nosso país.

Esse texto é uma agitação à ousadia, um manifesto em defesa da atuação das mulheres de forma intencionalizada, um convite para acharmos saídas coletivas para os problemas que são coletivos, pra nenhuma “ficar pra trás”, para crescermos como rios caudalosos. Vem!

Viva a força do Feminismo Popular!
Viva a luta das mulheres em movimento para mudar o mundo!

*Elisa Maria é militante do Núcleo Soledad Barrett da MMM – PE e Maíra Guedes é militante do Núcleo Negra Zeferina da MMM – BA.

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