A resistência que transforma: mulheres nas palavras, nas ações e nas performances

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*Por Marli Aguiar

 

Somos muitas, vindas de vários lugares. Quilombolas, indígenas, urbanas, pretas, brancas, lésbicas, trans, mães, mulheres… e estamos viradas na VIRADA FEMINISTA!

Estou tentando parir palavras… para expressar os sentimentos meus e de muitas que estiveram aqui na Virada Feminista, que foi feita por nós, 100% MULHERES! Parir não é coisa fácil, nem para qualquer um, e por isso é coisa de mulher.

Parimos coletivamente sonhos, utopias, alegrias, em meio a tristezas do golpe… parimos um novo ontem, um novo hoje e, claro, vamos parir um novo amanhã. Parimos com nossas músicas, com nossa solidariedade, com nossas danças e com nossa amizade, com nossos cantos e contos, com nossos corpos gordos, magros e com nossas diversidades, com nossas artes, grafites, murais e muitas coisas mais, e com Nenêsurreais. Nas escadas, no silêncio de Nalus, nas palavras de Mirians, e nas resistências de Sônias, Marias, Ednas e outras tantas que não se vencem pelos sonos. E a Helenas? Cheias de cenas, um céu de estrelas, correndo sangue nas veias… nos olhos. Fernandas que a muitas encantam, serpenteando, transitando por todos os lugares com seus corpos magros, mas fortes e resistentes, a responder a todas as questões presentes. Ticas aflitas para ter alguém que falasse de Corpo e Liberdade, de mulheres e sexualidade. São mulheres de vozes suaves, fala mansa, mas quando falam arrancam do peito e das entranhas rebeldias e resistência. Nas tarefas do evento, coisa linda do momento, no rap as novas letras e novas minas nascem… todas nós, e nós todas.

Parimos o feminismo na Virada Feminista. Criamos, cuidamos e nos alimentamos, comidas feitas por mulheres, negras, quilombolas e brancas das periferias. Foram dois dias de muitas histórias, muitas histórias… B.O. sempre tem, mas, como ninguém, a mulherada sabe se sair bem, dialogar, sabe ouvir e problemas solucionar de lá e de cá. Elas também sabem reconhecer quando erraram, sabem pedir desculpas e desculpar. Roupa suja se lava no rio com as outras mulheres, conversando, cantando, refletindo e aprendendo e com a correnteza do rio. Lavando a sujeira e as aguas transformando, levando o que não é bom. A gente vai caminhando, revendo, aprendendo, crescendo… e nos fazendo mulher.

Pretas, mães, lésbicas, imigrantes, mulheres. Nos muros ficam nossas marcas, e as dores se transformam em obra de arte. Nossa presença está ali, mesmo com nossas diferenças, em Nova Cachoerinha. E quem se atreverá a dizer que não?

As palavras saem dos peitos cheios, comprimidos de anseios, alguns de leite e outros de desejos. Bocas que se abrem, gritos de raiva, mágoas. Delas secamos as feridas do machismo, do racismo e da invisibilidade. Dinahs, Carlas, Saras, Karinas, Julias, Elaines e tudo é de Mara-vilhar: quantas pretas e sapatas conseguimos juntar, com palavras “obscenas” ocupando seu lugar. Gargantas secam e os olhos mareiam. Nós mulheres não somos mercadoria e tampouco fofoqueiras! Falamos de nós, das outras, do machismo, racismo, falamos de nossas forças e resistência, falamos porque sempre nos querem silenciar, mas teimamos em falar e coletivamente e resistentes.

Na Conversa de Negra falamos do corpo, do racismo, da pele e do abismo criado entre nós e nossa dignidade, nossas possibilidades. Por isso, conversamos sobre a estética de nosso corpo e nosso cabelo crespo, reafirmando nossa identidade e ancestralidade.  As mulheres querem autonomia e liberdade, falar de corpo e território, sementes que nos alimentam – da agricultura familiar, e não da Monsanto que nos mata e envenena.

E na internet, nossos corpos não são maquetes que se expõem, vendem e machucam (e logo depois vêm nos chamar de “putas”).  Nós mulheres queremos, cada vez mais, ocupar nosso espaço, nosso território e sermos donas de nossos corpos, nossas ideias e nossas vontades. Nossos corpos não são territórios que se envenena, que se destrói, que se vende. Acreditamos que isso também não se deve fazer com a terra.

A cidade, da forma que está, não é a cidade que queremos: não tem creche, não tem escolas, não tem cinemas e nem cultura onde as mulheres possam acessar com desenvoltura. Além disso, tem um transporte obsceno que nos deixa no veneno. Por isso, vamos construindo pontes com nossas mãos, cavando no dia-a-dia com as unhas a cidade que almejamos. Quando gritamos que assédio no transporte é crime, quando reivindicamos nossos trabalhos mais próximos de onde moramos, acesso às universidades e creches para nossos filhos, cultura.

E se falamos de economia, por que não solidária? Se isso é o que a mulherada preta, pobre, da periferia e do campo mais sabem fazer. Pintam, bordam, costuram, plantam, colhem, limpam, cozinham. Fazem turbantes, brincos, roupas, colares, bonecas. E, nesta economia solidária, por que não ser feminista? Pois é aí onde muitas delas descobrem o que é ser mulher. Descobrem que estar com as outras faz toda diferença, saindo da economia “solitária” para a solidária, construindo, no dia-a-dia, nossos sonhos e utopia e, mais que tudo, sua autonomia. E que autonomia…muitas lágrimas de emoção escorrendo pelo chão do CCJ e do bairro anfitrião.

E que Virada deram as mulheres na luta contra o golpe, gritando Fora Temer, porque ele não nos representa. Estes dois dias foram marcados pelo parto coletivo de ideias, transformação e resistência de mulheres idosas, jovens e de todas as idades. Na dança, a autonomia de corpos se cria e recria: ritmos, sensualidade, alegria e liberdade de falar, cantar e ousar. O teatro d’As Mal Amadas denuncia a vida de mulheres maltratadas, violadas e abusadas, mas que carregam no peito a grande virada para se rebelar, lutar e reaprender a se amar.

Mostras de cinemas, teatro das oprimidas, tantas coisas lindas em tempos comuns. Uma pena que nem todas puderam serem vistas. Mas o mais lindo de tudo é que somos um bando de artistas “amadoras”, atrevidas e feministas.

E nossa história, quem contará daqui a alguns anos? Por isso, em uma sala quase secreta (para eles), fizemos uma hora de escrevivência, como forma de escrita e também de resistência. Descobrimos que somos muitas, poetas, artistas, diretoras, jornalistas, cantoras, cantautoras, produtoras de cervejas, comidas e ideias. Enchemos salas, corredores e esta é nossa força. O sarau e o Slam das Minas foram uma coisa fina: poemas, mulheres e sons que cabeça, corpo e coração desatinam.

No dia seguinte, mais histórias, tambores e contação. Inaia reconta histórias resgatando verdades na oficina de oralidade, trazendo sons da natureza e também dos Orixás. Como pode, em um só espaço, tanta energia boa, capaz de iluminar o mundo e ofuscar corações e mente de machistas e racistas? Alguns dizem “vocês não podem, não serão capazes”. Nós respondemos “sai pra lá seu machista, é bom você ter medo! Você tira nossas vozes e nós tiramos seu sossego”.

Porque quando nos juntamos somos serpentes com as línguas entre os dentes. Nossas palavras ecoam e quando uma outra mulher é picada ela fica envenenada. Aí, meu irmão, não tem jeito, não! Quando ela se assume feminista não tem volta. Juntas mudamos mundos, mentes e ambientes e quando conscientes fazemos revolução.

Tambores, que arrancam em mim toda a ancestralidade. Tambores inspiram a liberdade e evocam a presença da Mãe África, Oxum, Exu, Ogum, Iansã, Yemanjá… os pés e o corpo inteiro não param de dançar, levantando muitas mulheres de seu lugar. Com falas de denúncia, danças subversivas, dores de lembranças que um dia devem ser esquecida. Venham para roda dançar coco e ciranda, feridas cicatrizar de meninas assassinadas pelas quais devemos lutar. Levante Mulher, venha dançar para a violência e o machismo poder exorcizar. Em uma mesa, sentada, uma senhora idosa. Em seu rosto, as lágrimas não param de rolar, é o som dos tambores que arrancam de minha memória as lembranças deste lugar.

Mais mulheres, mais gritos, mais sons e escritos, no sarau nascem novas manas e poetisas. Seus poemas são diversos: falam de amor, de luta, contra o machismo, racismo e sexismo. Contra o patriarcado, contra a toda forma de violência e todas conseguem expressar e seus recados deixar.

Nossa Virada Feminista que resiste com toda diversidade, vai chegando infelizmente ao fim, porém antes de terminar, ainda temos que falar das Pretas Literárias, escritas invisibilidades que aqui encontram seu lugar. São Mirians, Jenyffers, Rayanes e Biancas presentes e tantas outras escritas negras infelizmente ausentes. Mesmo assim, vamos respondendo o que o sistema ainda insiste em negar: nossa escrita, nossa luta. Nós vamos continuar incentivando outras mulheres que teimam em brotar.

Assim como o parto, dias intensos e tensos, de lutas e resistência que forma e transforma. Realizamos a Virada Feminista, muitas transnoitadas e cansadas, mas de alma lavada e sorriso no rosto, porque conseguimos realizar. E para encerrar, a voz de MC Soffia veio este momento mágico coroar. Saem sons de utopia que se espalham e contagiam, incentivam outras crianças a perceber que além da pobreza e a violência é possível ter esperança, viver como criança e um novo mundo esperar. Porque, na Avenida Paulista, centenas de pessoas estão a protestar, gritando: Fora Temer, Fora Temer, seu Golpista, a nós você não vai representar. E num céu de uma noite sem estrelas e um dia sem o sol, as Constelações voltaram a brilhar.

Serão as ações e as lutas das mulheres, a luta feminista que o mundo irá mudar. Por isso vale a pena relembrar e voltar a cantar. “Se cuida, se cuida, se cuida seu machista, seu racista de plantão, América Latina vai ser toda feminista, antirracista e sapatão”. E nestes dias nos olharemos, nos abraçaremos, nós tocaremos, nos identificaremos, na luta e na resistência de sermos mulheres!

Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres!

 

*Marli de Fátima Aguiar é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

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