Lutar contra o racismo, o machismo e a violência no continente

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*Por Helena Nogueira
A praça Roosevelt, no dia 25 de julho, às 15h, começa a ser enfeitada por muitas mulheres. Elas surgiam das várias escadarias  da praça e se acomodavam nos bancos, numa alegria e murmurinho. Chamavam atenção pelos trajes e elegância, além de despertar curiosidade por ser uma segunda-feira à tarde.
Estava quase concretizada a 1ª marcha paulista comemorativa do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. O ato tem o objetivo de lutar contra o racismo, o machismo e a violência contra as mulheres negras no continente e também prestou homenagem à Teresa de Benguela, que liderava o quilombo Quariterê em Mato Grosso no século XVIII.
Os minutos se passavam e o cinza da praça era esquecido pela generosidade do sol que, num laranja vaidoso, saudava as mulheres que agradeciam a gentileza e exibiam suas coloridas vestimentas de gala. Elas, felizes, se ocupavam em fazer as maquiagens exuberantes, algumas se pintavam com motivos tribais e não faziam questão de economizar na quantidade.
Todas com semblantes alegres e incansáveis, dispostas a fazer quaisquer atividades, desde carregar caixas pesadas até sacrificarem seus bilhetes únicos para irem buscar materiais e equipamentos nos mais variados locais.
O espaço mais parecia um camarim ao ar livre, tudo isso fazia um belo contraste na tarde do centro velho de São Paulo.
Os skatistas, que são donos do espaço, foram se confinando, cedendo com respeito a pista que antes era deles. Uma menina negra que brincava na praça foi incentivada pela tímida mãe, perguntou se haveria festa ali naquela tarde e saiu saltando feliz. As pessoas que passavam por lá demonstravam curiosidade. Alguns paravam para observar,  outros ali ficavam, contagiados pelo movimento.
O tempo ia passado  e logo o local estava tomado de vários grupo coletivos de diversas regiões da cidade, como o   Coletivo NegraSô,  Geledés Instituto da Mulher Negra, Uneafro, Aurora Negra, Marcha Mundial das Mulheres, Uneafro, Núcleo de Consciência Negra da USP, Círculo Palmerino, Núcleo de Consciência Negra da USP,  Frente de Mulheres Imigrantes e refugiadas, partidos políticos como PCdoB, PSOL e PT, além de coletivos de juventude e sindicatos.
Pronto, a festa já tinha começado. Foi chegando gente, chegando mais gente e toda escadaria  principal da praça ficou tomada. As mulheres elegantemente trajadas desfilavam felizes, se cumprimentavam sorrindo, como se conhecessem umas às outras há muito tempo. Os grupos se aglomeravam e ensaiavam. Ali já se percebia o quanto seria grandioso o evento. Tambores. xequerês, Fuzarca Feminista e outros instrumentos faziam suas tarefas.
Este ato também  protestou por liberdade sexual, contra a lesbofobia e os retrocessos promovidos pelo governo interino em relação à questão da igualdade racial, que retirou status de ministério da Secretária Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).
Os coletivos se organizaram graciosamente e iniciaram a marcha com muita elegância e comprometimento, saindo na hora prevista. O trajeto teve início na Praça Roosevelt, caminhou pela rua Xavier de Toledo, passou pela praça Ramos de Azevedo até o chegar ao Largo do Paissandu. Marcharam com disciplina ao som de muita música e performances. Por onde passou, a marcha atraiu muita gente que resolveu prestigiar e até acompanhou o trajeto. Calcula-se que cerca de duas mil pessoas tenham participado.
As idades das marchantes eram  diversas, desde senhoras mais velhas, as de meia idade, jovens, todas mostrando elegância, simpatia e formosura. Até bebês de colo estavam presentes. O ato final, no Largo do Paissandu,  foi um palco de muita música e performances teatrais, composto por grupos femininos e mistos. Todos foram  bem recepcionados e muito aplaudidos. Percebia-se que são conhecidos pela maioria do público presente porque foram aplaudidos.
Palmas para todas as mulheres, principalmente para as organizadoras. Elas  foram  heroínas ao conseguir realizar tamanho evento com a mínima estrutura financeira.
Desde que as mulheres negras pisaram neste solo, tiveram sua liberdades cerceadas pelo patriarcado e racismo. Desde então, elas se rebelam contra as imposições do colonizador. Este é mais um ato em que elas vem dizer que não estão dispostas a aturarem mais estas situações. E que continuarão a marcharem até que todas as mulheres sejam livres.
*Helena Nogueira é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo.

Comments

  1. Maria Otilia Bocchini says:

    Pronto! Não fui, mas a Helena me contou como foi de um jeito tão lindo que até parece que eu estava lá!

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