Tornar-se negra: As facetas do racismo e a luta pelo poder!

 

mulheres

“Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades.”
Neusa Santos Sousa, em Tornar-se Negro.

Por Gabriela Silva*

Nos últimos períodos, a reflexão do tornar-se negra tem me tomado por completo, por compreender com mais profundidade o racismo e o patriarcado enraizado nas estruturas do Estado, nas nossas relações sociais e afetivas. Mas, também, por resgatar a minha ancestralidade, por conhecer histórias de guerreiras anônimas brasileiras e compartilhar da força e luta dessas mulheres negras – mulheres que me formaram e continuam me formando na luta cotidiana.

A história das mulheres negras tem raízes profundas dentro da sociedade capitalista-patriarcal-racista. O controle do nosso corpo, vida e sexualidade sempre foi instrumento de dominação para nos tornar mercadoria e aumentar a acumulação de capital. Gênero, raça e classe estão, intrinsecamente, ligadas em um novelo que se expressa, cotidianamente, nas nossas vidas. Desde a nossa formação social, o racismo e o patriarcado nos coloca enquanto objeto, um ser destituído de identidade e subjetividade, nos privando de direitos básicos para sobreviver. A não garantia dos direitos reprodutivos é um exemplo de cerceamento de direitos, no qual retira a nossa decisão sobre os processos do nosso corpo e, em determinados momentos, nos aponta o caminho da não reprodução de novos sujeitos negros, premissa essa que tem fundamento nas teorias eugênica e racistas. As mulheres negras enfrentam na sua trajetória discursos que as aconselham a não engravidarem permanentemente, ou seja, são condicionadas à esterilização e, ao mesmo tempo, sofrem com as dificuldades de tratamentos de fertilidade.

A medicina hegemônica constituída ao longo dos anos sempre pensou modos de cuidados apenas para a população branca. As intervenções no corpo negro estavam atreladas às estratégias higienistas e eugênicas, produzindo, assim, o racismo científico. As testagens de novos medicamentos, por exemplo, eram feitas na população negra e latina, pois, na lógica do mercado, esses corpos devem ser explorados. Essa lógica de ação é fundamental para a manutenção do controle dos nossos corpos, que dentro do seu alvará da ciência, se utiliza desse saber/poder para nos disciplinar.

Os papéis que estão definidos para nós apontam para a divisão sexual e racial do trabalho, bases materiais do patriarcado e do racismo. Dentro da divisão sexual do trabalho, o nosso espaço deve ser o privado, exercendo as tarefas de reprodução de cuidados e da vida – cuidar dos (as) filhos (as), das tarefas domésticas, enquanto o espaço público e os trabalhos ditos produtivos estão reservados apenas para os homens.

Na divisão racial do trabalho, além de estarmos responsáveis pelas tarefas de cuidados dentro da nossa casa, temos também que dar conta da reprodução da vida de toda a sociedade, em posições e condições de subalternidade e exploração que, por vezes, se assemelha à época da escravidão no Brasil. Ainda estamos ocupando os mais desvalorizados postos de trabalhos, recebendo menores salários e trabalhando mais, sendo submetidas a péssimas condições de trabalhos, dentre terceirizações e flexibilizações de serviços. A lógica de servidão ainda não foi superada. Prevalece a ideia de que nós, mulheres negras, temos a obrigação de servir ou devemos estar na posição de mulata exportação/escrava sexual ou devemos estar na cozinha. O mito que somos fortes e aguentamos toda e qualquer situação precisa ser destruído! Essa compreensão reforça e produz múltiplas explorações e violências sobre nossos corpos – como ausência de pré-natal, violência obstétrica, medicamentos cuja reação não condiz com demandas de corpos negros, índices de morbimortalidade sempre elevados, riscos de infecção por DST, entres outros. Essa mesma ideia também nega a nossa dor e minimiza o nosso sofrimento e humanidade – vivenciamos condições de vulnerabilidade produzidas pelo Estado patriarcal e racista, e somos testadas, cotidianamente, a resistir física e psicologicamente.

Outra expressão cruel do racismo foi a sua capacidade de nos tirar o direito de amar e ser amada. Essa condição nós carregamos desde o escravismo colonial, na qual a condição de mulheres escravizadas não nos dava direito de constituirmos famílias, pois essa realidade só estava posta para homens brancos e mulheres brancas. A nossa função foi suprir o desejo sexual dos senhores de engenho sendo submetidas a violências diversas, como os estupros das mulheres negras e indígenas. A história dos colonizadores também romantizou essas violências que passaram a ser entendidas como relações amorosas – mas, amorosas para quem?

As nossas vivências e experiências foram se estruturando em cima de relações abusivas ou de pouco amor. A solidão das mulheres negras é uma arma tão cruel do racismo, que coloca esse debate como subjetivismo, como individual, um tema que não deve ser conversado, e assim seguimos sem falar sobre, até com as pessoas próximas. Se reconhecer na condição de mulher preterida é doloroso, afeta a nossa identidade, a nossa autoestima, e essa é uma das vitórias do racismo, o nosso apagamento, o nosso silêncio e, consequentemente, a nossa eliminação. Como já dizia Bell Hooks, “não tem sido simples para as pessoas negras desse país entenderem o que é amar”.FB_IMG_1469446742417

Trazer à tona as questões que agridem e violentam a população negra é fundamental para a compreensão dos nossos processos de vivência e o modo como nossos direitos são negados. As condições de sofrimento da população negra advindas da discriminação racial estão diretamente relacionadas com as condições de saúde. Saúde, não entendida apenas como ausência de doença, mas sim determinada por um conjunto de fatores tais como educação, moradia, alimentação, etc. A opressão racista carrega consigo toda uma história de discriminação e preconceito que atinge todo o povo negro, causando sofrimento e excluindo o exercício da nossa cidadania.

Costumamos sempre dizer que estamos no olho do furacão e somos uma bomba relógio prestes a explodir. Assim como a história das mulheres negras tem o racismo e o patriarcado como principais inimigos, também tem a organização popular, a luta pela nossa libertação e a luta pelo poder como horizontes. As mulheres negras que lutaram pela liberdade desde o período colonial é uma expressão disso, as nossas ancestrais Dandara, Zeferina, Maria Felipa e Luiza Mahin são a história viva do nosso povo. A organização das mulheres negras tem mostrado a nossa força, o nosso protagonismo da nossa própria história, enfrentando o racismo em diversos espaços.

Não queremos ser tratadas na mídia como a mucama ou mulata exportação, não queremos ser maioria nos piores postos de trabalhos, nos presídios, no índice de violência contra as mulheres, assassinadas pela polícia e mortas pelo aborto clandestino! A nossa luta é pelo fim do genocídio do povo negro. A nossa luta é pelo fim do feminicídio! A nossa luta é contra esse projeto de morte da sociedade capitalista-patriarcal-racista que se executa através das elites brasileiras, dos latifundiários e atualmente por esse governo golpista! A nossa luta é por igualdade e pela melhoria de vida da classe trabalhadora. A nossa luta é pelo fim da violência contra as mulheres como instrumento de dominação. A nossa luta é para que cada vez mais a universidade se pinte de povo, que deixemos de ser objetos de pesquisa e passemos a produzir conhecimento popular! A nossa luta é por um SUS de qualidade e contra seu sucateamento. Queremos estar representadas no Congresso Nacional por mulheres que defendem um projeto feminista e antirracista. Queremos mudar os rumos do país, a regra do jogo, queremos Reforma Política a partir de uma Constituinte Exclusiva e Soberana. A nossa luta é pela libertação do nosso povo! A nossa luta é pelo poder!

Viva o 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha!
Viva as mulheres negras!

“Salve! Negras dos sertões negras da Bahia
Salve! Clementina, Leci, Jovelina
Salve! Nortistas caribenhas clandestinas
Salve! Negras da América latina”

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

Gabriela Silva é Psicóloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia/ Núcleo Negra Zeferina.

Trackbacks

  1. […] via Tornar-se negra: As facetas do racismo e a luta pelo poder! — Marcha Mundial das Mulheres […]

  2. […] escrito por Gabriela Silva. Psicóloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia/ Núcleo Negra […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

SEGUIREMOS EM MARCHA ATÉ QUE TODAS SEJAMOS LIVRES!

%d bloggers like this: