Nossos corpos não serão mais o alvo

cultura-do-estupro

*Por Yara Manolaque

Sexta-feira, primeiro dia de julho, 18h. Uma senhora sobe no ônibus, senta perto do motorista e começa a discutir com ele porque o mesmo acelerou e quase partia sem ela. A discussão leva 5 minutos e uma das frases da mulher foi: – E se fosse com a sua mãe, você iria gostar?

Observei a cena sem conseguir dar uma cara à reclamante, não a via de onde eu estava sentada. Me controlei algumas vezes para não me levantar e interferir na discussão, uma identificação surgiu entre eu e aquela mulher sem face.

Decidi ver as notícias, depois de um dia de trabalho, e a sensação foi pior, diversas matérias de violência contra a mulher surgiram diante dos meus olhos e não pude evitar o pensamento: “E se fosse comigo?” “E se fosse com minhas irmãs e minha mãe?” Olhei para a janela para encontrar algo menos doloroso. Só encontrei as diversas mulheres estupradas, mortas e agredidas.

Depois de 40 minutos de viagem, a senhora desce e quase é atropelada por um carro ao atravessar a rua. Sai correndo pela calçada escura e vazia. Eu acompanho tudo pela janela, pois o ônibus faz o mesmo trajeto que o dela e ao perceber isso, a senhora – sem saber do caminho que ele iria fazer – talvez por não se sentir confortável para perguntar, olha com uma cara de desespero para nós, agora com os sapatos na mão correndo em direção ao seu destino. Não consigo vê-la mais, fiquei com a dúvida: Será que ela chegou bem?

Durante o trajeto rotineiro, as diversas violências acessadas foram dilacerantes. Quantas de nós já passamos por elas? Nós, mulheres estudantes, donas de casa, trabalhadoras somos diariamente atingidas pelas diversas violências da estrutura patriarcal e machista, dentro ou fora dos lares. Mulheres brancas famosas, mas principalmente periféricas, negras, lésbicas, trans ou bissexuais somos o alvo, ou seja, nossos corpos, nossos territórios, são dominados fisicamente e simbolicamente pelo patriarcado, ou- como Heleieth Saffioti expõe no seu livro Gênero, Patriarcado e violência- pelo viriarcado, androcentrismo, falocracia, falologo-centrismo, assim “a violência de gênero caminha no sentido homem contra mulher, tendo a falocracia como caldo de cultura” (Saffioti, pag. 75)

Assim, culturalmente foi construída uma sociedade centrada no poder do homem e tudo que isso implica nas relações sociais desiguais contra a mulher. O homem disputa uma mulher com outro homem, quer controlar sua esposa, acredita poder dominar o corpo de uma desconhecida usando de violência física e sexual, pensa ter o poder de transformar uma lésbica em “mulher de verdade” e assim temos as Luanas, as Luizas, as Cláudias, as Verônicas…  As diversas mulheres que buscam as delegacias de mulheres fechadas nos finais de semana e feriado; que são ainda mais agredidas por policiais sem preparo e que sofrem com o atendimento precário dos IMLs, entre tantas micro e macro violências cotidianas.

Implodir o patriarcado não é tarefa fácil, mas estamos juntas buscando nossa liberdade, ao longo de décadas e mais recentemente, tivemos a Primavera Feminista, saímos e sairemos às ruas para gritar Fora Cunha e Temer. Estamos cada vez mais nos auto-organizando e construindo comitês de mulheres na Frente Brasil Popular, por exemplo. Mas queremos mais! Queremos um novo sistema político; queremos ocupar as esferas de poder, sempre ocupadas apenas pelos homens; queremos andar de mão dadas, sem medo, com nossas companheiras; queremos expressar nossa diversidade sem sofrer violência. Queremos ser livres e seguiremos em marcha até que consigamos!

Referência: SAFFIOTI, Heleieth. Gênero patriarcado violência. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular. Fundação Perseu Abramo, 2015.

*Yara Manolaque é professora e militante da Marcha Mundial das Mulheres de Pernambuco.

 

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