Invisibilização das mulheres lésbicas: mais uma  face do patriarcado

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*Por Letícia Vieira e Marianna Fernandes

Nós, mulheres lésbicas e bissexuais, conseguimos conquistar a duras penas alguns avanços no sentido do nosso reconhecimento enquanto sujeitos de direito. No entanto, numa conjuntura de ofensiva da direita e do capital sobre os nossos corpos e vidas, há uma tentativa de retroceder nossas conquistas e de apropriação das nossas lutas.

Isso ficou visível, por exemplo, ao constatarmos que falar sobre sexualidade tornou-se, em certa medida, mais palatável e aceitável – e o tema pode ser visto hoje em dia inclusive nos meios de comunicação em massa.

Não é de estranhar, todavia, que essa mesma pauta seja frequentemente colocada sob um determinado viés, predominantemente androcêntrico, invisibilizando a pauta das mulheres lésbicas e bissexuais. Nas campanhas publicitárias, na grande mídia, qual é o tipo de LGBT mais aceito? Qual perfil é invisibilizado ou, quando aparece na mídia, sofre reprimendas e não tem boa aceitação do público (como no caso de uma novela recente cuja trama contava com um casal de lésbicas idosas)?

Torna-se evidente, nesse sentido, que há perfis que estão às margens dentro da margem, e “coincidentemente”, são os das mulheres que amam mulheres. Seria uma mera coincidência se o capital não se apropriasse de determinadas pautas, fagocitando-as e transformando nossa luta por vida e sobrevivência em estratégia pra vender perfume, roupa e até nossos corpos. Seria coincidência se o patriarcado não operasse também na opressão das mulheres lésbicas e não engendrasse uma disputa entre mulheres – quer por questões estéticas, de aceitação, de relações afetivas e de opiniões políticas – na tentativa constante de minar nossa união e de desviar nosso olhar da estrutura que nos explora.

Alguns olhos mais atentos notaram uma certa ausência sintomática – e sistemática – das mulheres lésbicas. Isso é sintomático porque mostra como, mesmo dentro do campo que se convencionou chamar LGBT, ainda existe espaço para a reprodução de opressões patriarcais, o que nos permite afirmar com muita tranquilidade, enquanto mulheres lésbicas e bissexuais, que a noção de patriarcado ainda é muito atual e muito necessária pra entender a maneira como as opressões operam sobre as mulheres. E é sistemático porque, infelizmente, invisibilizar as mulheres lésbicas é uma prática constante, estruturante da heterossexualidade compulsória, condição necessária para que o mundo heteronormativo, tal como o conhecemos, funcione. Nesse sentido, cabe questionar: O dia 28 de junho é de fato o dia Internacional do Orgulho LGBT, ou seria apenas mais um dia para invisibilizar as mulheres lésbicas?

Não se trata aqui de diminuir a opressão que os homens gays e as mulheres trans sofrem em seus cotidianos, historicamente, como resultado da heterossexualidade compulsória. Se trata de questionar porque mulheres lésbicas, e mesmo homens trans, permanecem na invisibilidade num momento histórico em que a pauta LGBT está tão presente na ordem do dia.

Mulheres lésbicas são assassinadas todos os dias por serem mulheres e por serem lésbicas. Estão sujeitas a violências específicas por serem lésbicas: estupros corretores, dedos cortados são apenas os exemplos extremos de violências cotidianas que nos são impostas. A invisibilidade da nossa existência e da nossa sexualidade é exatamente o que permite que essas violências continuem acontecendo. Inevitável que surjam, nesse sentido, questionamentos cruéis: existe lugar para as mulheres lésbicas no campo LGBT? Por que campanhas que denunciam casos gravíssimos de assassinatos de mulheres lésbicas, como o de Luana Barbosa Reis, não ganham visibilidade e não se tornam motivo de comoção nacional? Aliás, COMO PODE O ASSASSINATO DE LUANA BARBOSA REIS – e tantas outras mulheres lésbicas – NÃO TER SIDO O FOCO DO DEBATE DO ÚLTIMO DIA DE ORGULHO LGBT?

Em tempos de comoção pública seletiva, a invisibilidade das mulheres lésbicas nessa importante data para a comunidade LGBT é emblemática. Emblemática de como a homossexualidade, por si só, não exime homens de reproduzirem machismos e lesbofobia. Não os torna menos opressores com relação as mulheres. Porque mesmo sendo gays, esses homens ainda foram socializados com todos os privilégios que a condição de homem os proporciona.

Luana Barbosa Reis era lésbica, negra, mãe e pobre. Sua existência, longe do glamour conferido a comunidade LGBT nos comerciais e no mundo virtual da classe média, era permeada de violências cotidianas. Quem lembrou de Luana nesse dia 28? Que lugar tem uma lésbica, negra, mãe e pobre, além da invisibilidade, num contexto em que o capitalismo se apropria das lutas contra opressão para glamourizá-las, lucrar com elas e colocar consumo e resistência como sinônimos?

Não podemos continuar invisibilizando as mulheres lésbicas, nem permitindo que transformem a luta em lucro. A luta por visibilidade deve ser compreendida como luta pela diversidade, porque somos múltiplas. Porque o mundo que queremos é um mundo em que as mulheres lésbicas vivam uma vida que valha a pena ser vivida, sem medo, sem violências. Em que as esferas de produção e reprodução da vida sejam cada vez menos mercantilizadas. Em que a heterossexualidade deixe de ser um pressuposto.

Luana Barbosa Reis, PRESENTE! Por ela e por todas as mulheres lésbicas, nenhum minuto de silêncio.

*Letícia Vieira e Marianna Fernandes são militantes da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro

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