Que nome dar?

*Por Marli de Fátima Aguiar

…. Não existe racismo no Brasil, isso é coisa da sua cabeça…

Vocês negros são mais racistas que os brancos…

…. Agora não posso fazer uma piada que tudo é racismo ou machismo? …

foto post marli

Muitas vezes que ouvia estas e outras frases gritando na minha orelha, quando eu era jovem, talvez tivesse o mesmo pensamento, por não ter naquele momento consciência de classe, de raça e de gênero, e que na escola fui ensinada a não responder, a não dizer o que pensava, e a aceitar e baixar a cabeça. Mas sempre me incomodou desde pequena, algumas atitudes que me machucavam e também a outras pessoas negras, da minha família, amigos, e negros e negras ao redor. “Baixar a cabeça” foi uma condição que disciplinou o nosso corpo condenado à servidão pelo escravismo. Assim como eu, alguns, na sua maioria também achavam que o racismo partia de nós mesmos, assim como o machismo parte/partiam das mulheres culpabilização da vítima. O que eu fazia muitas vezes, principalmente na adolescência, fase mais difícil da vida e de formação de uma pessoa, era me esconder e me achar inferior, e a pensar que eu estava errada com aqueles sentimentos, e que no fundo, dava muita importância a nada, afinal o importante era ser feliz, e ser feliz, no nosso caso, pode ser a paz através do silêncio, da dor e da invisibilidade. E muitas vezes cheguei a me convencer que realmente era assim, porém algumas atitudes “sutis”, ou declaradas como “e este cabelo duro…, ou você tem o nariz esborrachado, ou a frase, não vai fazer coisa de preto”…para comigo e algumas amigas e familiares era criação de nossas cabeças, o bom era adotar costumes, valores e atitudes do aceitável socialmente. É, o racismo no Brasil, camuflado, dito e não dito. E como o racismo está na minha cabeça, na cabeça do negro, não há como combate-lo.
Ouvir a palavra Racista, já é um choque, imagine para quem o vive diariamente? Por isso a usaremos como Bullying, (palavra bonita, estrangeira, que nos esforçamos para buscar no google, ou nos dicionários seu significado, ou quando nas tvs demostram nas tabelas seu significado e os impacto para a vida de quem o sofre, e aí sempre está o “diferente”). Mas, não vemos em nenhum lugar, ou esforços para descrever, demostrar que o que significa a palavra RACISMO. Possivelmente ela não precise dicionário. Mas, porque não dizer claramente RACISMO nas diversas situações em que as negras e negros são vítimas, já que racismo é crime. Se não é possível dar o nome de Racismo ao descrito abaixo, então, Que nome dar?
…. Que nome dar, a tudo isso, a cada agressão que vivemos e sentimos na pele todos os dias? Que nome dar, para as diferenças sociais, sendo a maioria negra nas quebradas, sem saneamento, sem saúde, ou serviços básicos? Que nome dar, para os vários jovens negros que são parados pela polícia, mortos e às vezes desaparecidos todos os dias, pelo simples fato de serem negros e que a área de circulação á eles devem ser restrita? E, quando deixarão de ser estatísticas? Que nome dar, onde a maioria de jovens negros se encontram nos presídios brasileiros, nas drogas e no tráfico, e são claras as estatísticas quando compara com jovens brancos, da mesma idade, na mesma condição, e que, esta estatística cresceu brutalmente ao longo dos anos?
Que nome “bonito e que não choque” dar, aos olhares “sutis”, ao entrarmos em uma loja ou supermercado, quando somos seguidos por um segurança que na maioria das vezes também é negro e achando que vamos roubar? Que nome dar, para o senso comum de que todo negro é ladrão, preguiço, malandro, vagabundo e não querem nada com a vida, e com as mulheres relaxadas, pobres e parideiras?
Que nome dar, quando não vemos negras nas novelas, propagandas, comerciais e jornalismo nos grandes meios de comunicação? E quando saem são com papeis subalternos, empregadas, motoristas, prostitutas, ladrões…? Que nome dar, para as atitudes de empresas, entrevistadores que quando olha um negro ou negra concorrendo uma vaga, dão preferência a um branco ou branca por achar que o negro e ou a negra não respondem à necessidade da empresa pela cor da pele e o cabelo crespo? Que nome dar, para atitudes de empresas e patroas que obrigam as negras a usar cabelo alisado sinônimo de boa aparência, higiene e outros adjetivos? Que nome dar, quando as babas negras são obrigadas a destacarem-se de suas patroas usando uniformes branco, ao estarem em locais públicos, restaurantes, aeroporto, festas…?
Que nome dar, quando uma professora de ensino fundamental de escola pública diz barbaridade a uma criança negra de 6 anos, “…negro fedido, sua cara já diz quem você é”…na frente de suas coleguinhas em sala, e esta mesma criança diz à sua mãe que vai tomar muito leite para ficar branca? Ou quando outra professora mal preparada e informada, pouco didática que ensina a história do Brasil e África, a crianças de 4 anos, dizendo que o negro era escravo, e no final, outra criança branca da mesma idade que sua coleguinha, diz, “…você é minha escrava…”? Que nome dar, a situações parecidas quando crianças e adolescentes sofrem todos os dias caladas, com perguntas de outros colegas brancos “…hoje você não tomou banho porque está com a mesma cor? ”.  Negra de cabelo duro? Negrinha fedida? Em alguns casos isto é chamado de Bullying e não racismo? Porque será?
Que nome dar, a atos de agressão e violência no transporte público quando uma branca se acha no direito de mandar uma negra se levantar para que ela se sente, e além disse pronuncia, “ ainda tenho que partilhar metrô com preto e pobre?”. Ou para que um negro ou negra lhe dirija a palavra deve fazer cirurgia no nariz ou arrumar (alisamento) o cabelo? Que nome se dá quando uma Mulher Negra Lésbica, está chegando em sua casa com o seu filho na garupa da moto, é abordada pela polícia e passa a ser brutalmente espancada até a morte, por essa mesma polícia que deveria protegê-la
Que nome dar, quando a maioria de mulheres negras sofrem ao dar à luz nos hospitais públicos muitas vezes sendo maltratadas, humilhadas, mal acolhidas e passam horas em macas nos corredores, por sua condição social e a cor da pele, ou porque profissionais carregam o mito imbecil de que as negras suportam mais a dor? Que nome dar, à maioria das mulheres negras que morrem por consequência de infecções ao praticarem aborto em clínicas clandestinas por não terem recursos financeiros? Ou morrem aos poucos, ou são algemadas e levadas à prisão denunciadas por quem as deveriam atender e cuida-la nos hospitais? Que nome dar à falta de representatividade negra nas esferas políticas e públicas, e, se estamos representadas é na faxina, no servir, etc.?
Que nome dar, quando nossa história é negada e o ensino da Cultura Afro-brasileira é proibida nas salas de aula? Que nome dar, a séculos de negação ao direito de cursar uma educação gratuita e de qualidade, acesso à universidade pública é negada aos negros e negras e até anos atrás ainda éramos menos de 1% e para acessar a este direto foi necessário criar políticas afirmativas de reparação, cotas, Pro UNI e outros? E ainda vão nos tirar isso!! Isso em pleno século XI. Pois, Conhecimento é Poder!!!
Que nome dar, ao fechamento de terreiros, a retirada de terras quilombolas e indígenas, ao medo as religiões de matriz africana e indígena? Me digam, que nome dar?
Que nome dar, quando nenhuma ou quase nenhuma rua, avenida, praça, escolas é homenageada com nomes de negras ou negros heróis de luta e resistência contra escravidão, pela libertação de seu povo, artistas, escritores as… E porque só homens, além de tudo, de coronéis, ditadores, torturadores, agressores…?
Que nome dar, ou, o que podemos esperar de um sistema que nega o tráfico de pessoas de um continente a outro, sequestra, matando homens, mulheres e crianças, e quando chegam em terra, os vendem, os escravizam negando a estes o direito a ser gente, depois negam a história, e estes mesmos traficantes de pessoas não são julgados e na história, e tudo isso não é considerado como genocídio em massa, como extermínio de um povo pela cor de sua pele? Que nome dar a isso, que sequer foi/é não considerado como crime contra a humanidade? Que nome dar, quando estes mesmos traficantes, donos e senhores de engenhos seguem ainda no poder, sem condenação, sem julgamento como criminosos e assassinos?
Que nome dar a um interino que retira direitos das maiorias e que os primeiros ministérios a serem cortados foram os Igualdade Racial, Cultura, Mulher e Juventude onde estão presentes a maioria da população negra Brasileira? As perguntas seriam inúmeras, QUE NOME DAR A TUDO ISSO?
Então, não há racismo no Brasil!!! São coisas, fatos que aconteceram e acontecem todos os dias, porém é fabricação da cabeça negra, tudo imaginário, tudo fantasia. Portanto tudo isso é irrelevante, não tem muita importância, pois racismo não existe. Afinal, somos todas e todos iguais e temos os mesmos tratamentos, os mesmos direitos.
Mas, não precisa muito para entender e dar um nome, ou uma resposta a estes atos e fatos, o e que eles caracterizam…RACISMO. Estes fatos geram a violência, exclusão, a baixa estima, suicídio, morte, quando deveriam gerar punição, levar ao criminoso ou a criminosa à cadeia, a uma punição mais severa a quem cometem tais crimes. Tudo isso É RACISMO e não Bullying.
RACISMO é a forma de tentar dominar o outro impondo uma superioridade com a intenção de se aproveitar da situação, para explorar, humilhar e se beneficiar. É também excluir, subjugar, constringir, diminuir por considerar que a cor da pele determina o caráter, a competência ou o valor da pessoa. RACISMO entre muitas outras leituras, é a manutenção de estruturas de poder e dominação o qual impacta diretamente na vida e nas condições de acesso as diversas áreas sociais, políticas e econômicas.
O RACISMO e o MACHISMO juntos são responsáveis pela manutenção da estrutura de poder e dominação que impactam diretamente na vida das mulheres negras, impossibilitando o acesso à educação, a moradia e saúde e por consequência, a nossa participação na política, e na econômica do país. Não se trata aqui de uma briga entre negras e brancas, a formação de gueto, ou de fragmentação de nossas lutas. Se trata sim, de olhar para o problema, tocar a ferida nacional que ainda está infeccionada na esfera social brasileira, somado a isso a condição de classe e de gênero. Tratar as feridas, fortalece-nos como mulheres e homens negros, buscar a igualdade de direitos. Pois a nossa luta é contra o sistema, opressor, machista, racista, lesbofobico e patriarcal.
Pois, enquanto formos a maioria da população brasileiras e ainda assim, seguirmos desfavorecidos socialmente, economicamente e seguirmos sendo presença minoritária ou nenhuma presença nas esferas políticas, nas universidades, nos movimentos sociais, nos meios de comunicação, e as desigualdades ainda forem gritantes, seguiremos em marcha, seguiremos na marcha de nossas referencias ancestrais, os exemplos, e os rastros de nossos antepassados, de Dandara, Acotirene, Teresa de Benquela, Luiza Mahin,  Zumbi e tantas outras e outros lutadores Negros e Negras.
Para finalizar, achamos importante dar nome as coisas, dar nome correto nos permite olhar de frente, estudar e entender o objeto e os fatos e criar estratégias.  E, o nome tudo isso tem um nome RACISMO, MACHISMO!! Assumir que vivemos RACISMO traz também concretude ao fato, traz visibilidade, pois só conseguimos lutar e enfrentar aquilo que é visível e com o nome certo; isso não é fácil para o objeto do racismo, dói, nós sabemos, mas é como um parto, dói nascer, mas após essa dor o mundo é todo daquele que nasceu.

AMANDLA, NGAWETHU!!!

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

*Marli é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo, do coletivo de mulheres negras na MMM

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