Sobre as minorias políticas e o governo ilegítimo: onde há poder, há resistência

Por: Fernanda Kalianny Martins Sousa*

Vou começar essa fala me posicionando e me dando um lugar no mundo, porque acho crucial que o façamos quando nos ouvem. Então, sou nordestina, paraibana, migrante, umas das primeiras mulheres da minha geração a ter um diploma de ensino superior na minha família, antropóloga, militante da Marcha Mundial das Mulheres, colaboradora da Revista Capitolina, negra e lésbica.

E coloco essa lista de características ou marcas sociais que me acompanham porque o nosso olhar, inevitavelmente, observa a partir de nossas experiências. Experiências estas que nos constituem enquanto sujeitos. Então de forma política, mas também afetiva, pois sou tocada tão diretamente por essa tentativa de encerrarem um projeto político que fez tanta diferença na vida de mulheres como eu, minha mãe ou avós, filhas da seca, das latas d’água na cabeça e da desigualdade social, que falo aqui hoje.

Nesse cenário político em que estamos vivendo, há algo crucial a ser pensado: em momentos de crise como essa, os ataques e retrocessos nunca se dirigem a uma única minoria política. Longe disso, as ameaças que são direcionadas às mulheres, aos negros, LGBTs, trabalhadoras/es e classes populares vêm em um pacote e inclui a todas/os nós.

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Foto: Ana Carolina Barros (Brasília, 2015, Marcha das Mulheres Negras).

 

Não por acaso o governo Temer se inicia excluindo o Ministério da Cultura, bem como o Ministério das mulheres, da igualdade racial, da juventude e dos direitos humanos. Se inicia também com todos os ministros sendo homens e brancos. Há um embate aí, meus caros. Há uma tentativa de apagar os pequenos progressos que fizemos nos últimos 14 anos de governo do PT.

E há sim um machismo indubitável por trás de tudo isso. Em uma sociedade como a nossa, que se veicula adesivos colados em carros que simulam o estupro da presidenta eleita, é importante atentarmos para o ódio direcionado às mulheres, mas não só. É um ódio que se direciona a todas as minorias, de formas diferentes, mas ainda assim alinhadas.

Como não pensar no significado do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos por 33 homens, que ocorreu na última semana? O país do adesivo citado acima, é o mesmo país que se estupra uma jovem e buscam o que ela haveria feito de errado para justificar tal atrocidade. É o mesmo país em que se tenta proibir que os professores e professoras falem sobre gênero nas escolas. Que tenta tirar o direito do nome social das pessoas trans. Que acha demais empregadas domésticas terem direitos trabalhistas. Que a saúde seja vista como um direito universal. Que pobres andem de avião. E que convida um estuprador que fala de seu crime em forma de piada para falar sobre um projeto de educação.

É essa parte conservadora da sociedade, com esse tipo de pensamento, que usurpa o poder agora.

Quando se é mulher, negra, que se relaciona afetivamente com outras mulheres, de esquerda, há algo que não se consegue deixar de fazer. Refiro-me a notar que a nossa luta passa por defender um projeto de sociedade que seja maior do que tivemos até hoje. Um projeto de sociedade que questione na base as estruturas que sustentam o machismo, o racismo, a LGBTfobia e a desigualdade social.

Paira sobre nós uma mentalidade que nos separa e marca nossos corpos de modo a tentarem definir que lugar precisamos – e mais do que precisar – que lugar devemos ocupar. Para eles, lugar de negro é, portanto, fazendo faxina ou divertindo brancos com o que eles entendem como exótico. Lugar de mulher é sendo submissa, calada, recatada e trancada no lar. Ou ainda, no caso das mulheres negras, servindo sexualmente aos senhores que defendem a “moral” e os “bons costumes”. Já lugar de LGBTs é no armário, claro. Até porque tratam a nossa sexualidade ou a nossa identidade de gênero como algo que não existia até outro dia e que não deve existir.

Mas nós sabemos que não só existíamos como já resistíamos a tentativa de nos apagarem da história ou de apagarem as nossas vidas. No processo de se construir e assumir nossas identidades, vamos sendo sempre colocados como fora da norma. Ser neutro é ser branco, heterossexual, cis. Percebemo-nos como negras/os, mulheres, lésbicas em um processo dolorido em que nos dizem que não podemos ser quem nós somos ou não podemos ocupar o lugar que ocupamos ou almejamos ocupar.

Nunca me senti tão negra como quando comecei a estudar na Universidade de São Paulo, que até hoje não tem cotas sociais nem raciais. E foi preciso viver por 23 anos até conseguir rever a minha heterossexualidade compulsória. Vi-me como mulher um pouco antes, porque as regras se estabelecem desde tão cedo, ainda quando recebemos o nosso nome na barriga de nossas mães. Mas a combinação mulher negra veio um pouco depois.

O feminismo me serviu como arma para entender que lugar a sociedade nos dá. E a luta antirracismo para entender por qual motivo enquanto negras e negros somos tão suscetíveis a diferentes violências. Podemos pensar os tantos crimes cometidos contra mulheres negras. Muitos dos quais tiram as nossas vidas. Posso retomar aqui Luana Reis, mulher, lésbica, negra, mãe, espancada e assassinada pela PM porque se recusou a ser revistada por um policial homem cis. Há também Claudia Ferreira da Silva arrastada por policiais em uma viatura e morta aos 38 anos. E tantas outras mulheres negras que morrem pela violência policial, mas também nas macas de hospitais quando fazem abortos clandestinos. Aquelas que mais morrem. As que estão também nas estatísticas de acréscimo da violência contra mulheres nos últimos anos.

Se antes a corda já arrebentava do lado negro, do lado das mulheres, trabalhadoras/es e pobres, o que acontece agora?

É tempo de medo, é verdade. É tempo de receios, é verdade também. Mas a gente precisa se atentar que eles, os usurpadores do poder, a elite raivosa batedora de panelas não são os únicos brasileiros e brasileiras que existem. Não são felizmente os únicos representantes dessa nação. Esse país e essa história também são nossos.

Esse é o mesmo país de Dandara, Beatriz Nascimento, Thereza dos Santos, Lélia Gonzalez, Margarida Maria Alves e Leci Brandão. A última sendo a segunda mulher negra a ser deputada estadual de São Paulo. Também nascida no subúrbio, também de origem pobre. De quem me ocupo agora no mestrado a escrever a biografia e que sei ter uma história de inspiração para muitos dos aqui presentes. Na vida de Leci arte e política não se separaram em 40 anos de carreira.

É esse então um país de Marias, muitas. É país de força, porque onde há poder, há resistência. Onde há quem usurpe o poder, há luta. E uma ocupação na Funarte que não reconhece um governo golpista é crucial porque é pela cultura, pela educação, no cotidiano fazendo nosso trabalho de formiguinha que disputamos a hegemonia do pensamento e da ideologia na sociedade. É assim que nós construímos. E será de pé que resistiremos.

Pois uma vez tendo deixado de carregar a lata d’água na cabeça, para debaixo da lata não retornaremos.

Eu luto
Tu lutas
Ele Temer
Nós lutamos
Vós lutais
Eles tremem!

Fala feita no dia 28/05 na ocupação da Funarte, em São Paulo.

* Fernanda Kalianny Martins Sousa é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo (SP).

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