Eles não estão doentes, e nós não estamos loucas

Por Maria Júlia Montero*

Uma menina foi estuprada por 30 homens no Rio de Janeiro nessa terça-feira. Foi com indignação que recebemos a notícia. Indignação, asco, ódio. Para além da revolta, deu pra sentir em cada comentário a raiva acumulada das mulheres. Só de lembrar da notícia, dá vontade de chorar. E não foram só as militantes que ficaram assim.

É, nós cansamos de viver com violência. Cansamos, e cansamos principalmente de, depois de tudo, ainda sermos chamadas de loucas e histéricas quando denunciamos machismo. Cansadas de não poder sentir raiva sem ser chamada de sectária, ou “odiadora de homens”.

Resolvi escrever. Precisava colocar alguma coisa pra fora depois dessa notícia. Escrever: boa, gosto disso, preciso disso. Mas o quê? Vou fazer um texto inteiro xingando os caras? (porque, acreditem, a vontade é exatamente essa).

Vi muita coisa boa que várias mulheres no meu Facebook postaram. Algumas coisas eu vou citar (sem expor os nomes, porque não perguntei pra ninguém se podia), outras vou parafrasear. Ou seja, é de autoria minha, mas também de muitas outras. O interessante (e importante) é que os pontos que juntei aqui foram os três levantados por muitas, muitas mulheres – algumas dando ênfase mais pra uns do que pra outros, mas sempre falando de todos. Será que estamos loucas mesmo?

Vamos lá:

1. Doentes?

O que a gente mais vê quando a discussão é sobre violência é que os agressores são “monstros”, “doentes”, “psicopatas”, entre outros. Muitos vão além, e dizem que os agressores precisam de tratamento psicológico e blablablá, e não ser preso etc. Porque, afinal, só sendo doente pra achar ok estuprar alguém, etc.

a) Que raios de doença é essa que atinge 30 pessoas no mesmo lugar e na mesma hora? Se juntarmos 30 pessoas numa sala, será que todas terão câncer? Será que todas terão depressão? Será que todas estarão com gripe?! Não, né? Por que então esses 30 homens estariam doentes??

b) A violência contra a mulher é uma forma de manutenção das relações de poder patriarcais. Ainda que um homem não levante nunca a mão pra uma mulher (ou exerça qualquer outro tipo de violência), ele pode fazê-lo se quiser, e a sociedade o autorizará. Isso acontece porque vivemos no patriarcado, um sistema de uma relação de dominação-exploração de mulheres pelos homens. Isso não é doença, é um sistema em que os homens se beneficiam individual e coletivamente da exploração das mulheres. Não é doença nenhuma.

c) Homens são formados para a violência e, além disso, vivemos em uma sociedade que normaliza a tortura. No Brasil, especificamente, a impunidade dos torturadores da ditadura, com discursos de ódio como do Bolsonaro, com ações da polícia militar etc ajuda a manter a impunidade e legitimar e justificar atos de tortura. A pornografia cada vez tem se tornado mais bizarra e, todos os dias, ensina os homens que eles podem enfiar o que quiserem em todos os nossos ~buracos~, e nos bater, nos cortar, nos xingar… e, por fim, a sociedade, de forma geral (pra além da pornografia), ensina que mulheres são passivas, homens são agressivos, e que as mulheres devem fazer o que os homens mandam. Quem sair disso é anormal, estranha, barraqueira etc. E não só temos que obedecer, como temos que GOSTAR disso. Com tudo isso, sim, pessoas “normais” vão achar “normal” torturar e estuprar alguém.

d) Todo homem que vê pornografia é psicopata? O Bolsonaro tem algum distúrbio mental? Os donos de escravos, que chicoteavam, matavam e faziam o que bem entendiam com os negros, eram todos psicopatas? Brilhante Ustra, torturador, era um doente que deveria ter estado em um hospital recebendo tratamento? Eu aposto que a resposta pra essas perguntas é não. Então, porque quando o assunto é violência contra a mulher, falam que é doença?

e) Mais de uma pesquisa já mostrou que homens, caso não houvesse consequências, “forçariam sexo” com mulheres. E ainda, diferenciam “forçar sexo” de “estuprar”. Já vi uma pesquisa semelhante no Brasil, mas não achei agora. Ela dizia que, se perguntavam para os homens se eles já haviam estuprado uma mulher, diziam que não. Mas quando perguntavam se haviam forçado sexo, diziam que sim. Ou seja…

Aqui: Um terço dos estudantes estuprariam mulher se pudesse escapar impune, diz pesquisa (O Globo, 22/01/2015)

ps: aposto que se repetirmos a experiência com homens próximos a nós, teremos um resultado semelhante.

ps2: todos os entrevistados eram doentes??

ps3: Este texto aqui: Os estupradores estão contando com você (Bule Voador, 30/01/2013) ajuda a entender como estupradores não são doentes, e como uma situação de estupro tá longe de ser um “mal-entendido”, porque ele “não entendeu que ela não queria” (o que nem se encaixa nessa situação específica do RJ, mas vale a pena citar).

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Foto: Ana Carolina Barros.

2. Por que muitos homens não conseguem se indignar com estupro e machismo da mesma forma que se indignam com generalizações?

Essa é uma boa pergunta. Na verdade, uma ótima pergunta, feita por uma amiga querida. Não é de hoje que, quando falamos algo sobre machismo e, indignadas, dizemos “os homens…”, lá vem as respostas: “ai, mas eu não faço isso”, “ai, mas não são todos os homens”, “ai, para de generalizar!!”. E não importa qual seja a notícia. Pode ser desde não lavar a louça, ou até a porra de um estupro coletivo: ao invés de o cara concordar que a situação é uma merda, ele vai dizer que não devemos generalizar.

E, uma coisa que disseram, e que eu fui dar uma fuçada nos perfis de uns colegas pra confirmar: pouquíssimos homens falaram  sobre o assunto. Claro, um ou outro pode não ter visto a notícia, mas eu acho bem difícil que esse seja o motivo de todos eles não terem comentado nenhum “a” sobre o assunto.

Reproduzo, então, aqui o que uma de minhas colegas (Caroline Jamhour) disse:

“Em geral, quase nenhum homem fala sobre violência masculina. Os homens estão mais preocupados em SE defenderem das ‘generalizações’ contra eles do que em reconhecerem a doença epidêmica que é a violência masculina contra mulheres, em falarem com outros homens, em se manifestarem a respeito.

Acho que em muitos sentidos os homens mantêm um silêncio constrangido por se saberem também responsáveis, coniventes, participantes e beneficiados dessa cultura. Muitos ficam em negação, mesmo. Outros não querem se indispor com os colegas. A cultura de violência masculina é extremamente dependente do apoio mútuo, do acordo silencioso que homens tem de se protegerem uns aos outros, de estarem unidos. Contra mulheres. Os homens devem ter medo de se “destacar do grupo”, de perder esse senso de proteção, de não ser reconhecido como um dos ‘brothers’.”

Ou seja: quer ser amigo das feministas? Quer ser legal e contribuir na luta? Comece não fazendo vista grossa para as merdas que seus amigos fazem.

Ah sim: se a gente for nos sites de notícia, das duas uma: ou os caras estão contemporizando, falando que a menina estava drogada (e?), ou estão ZOANDO a menina. Z-o-a-n-d-o. É mole?

3. Somos todas loucas?

Da mesma forma que uma doença misteriosa não acometeu todos os 30 homens que estupraram a garota, não existe uma doença que atinge todas as mulheres (ou todas as feministas, enfim): é coincidência demais estarmos todas “loucas”. Já pararam pra pensar nisso? Vocês, homens, já pararam pra contar quantas mulheres chamaram (ou pensaram em chamar) de louca alguma vez porque ela questionou alguma situação de machismo? Será que todas essas minas estão doentes? Ou desequilibradas, emocionadas demais para conseguir pensar racionalmente…

Mais de uma vez, quando fiquei irritada ou criticava alguma coisa, vinha um homem e dizia “ai, você tá falando assim porque [a situação] tá muito recente”. Recente o quê, criatura? Tem que esperar quanto pra poder opinar sobre algo? Só porque determinada situação rolou, sei lá, ontem, significa que não tenho condições de opinar racionalmente sobre ela hoje? Ah sim, já ouvi também que eu “internalizava” muito as coisas. Tudo isso pra dizer que não estamos pensando com clareza e que, portanto, nossas opiniões não passam de meros delírios de pessoas destituídas de razão (ainda que momentaneamente).

Botem a mão na consciência. Nunca vi distúrbios mentais serem tão reivindicados como neste tipo de discussão! Eu, hein? Parem de tentar tirar a seriedade das denúncias como se elas fossem coisa de outro mundo, e parem de tirar a responsabilidade dos homens sobre seus próprios atos!

Por fim, fica a solidariedade à garota, e a certeza de que lutaremos para que seu caso não fique impune, e nenhum mais! Basta de violência contra a mulher!

*Maria Júlia Montero é militante da MMM de São Paulo/SP.

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