Desnaturalizando o estupro nosso de cada dia

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Por Clarissa Nunes*

Trinta homens estupraram uma menina no Rio de Janeiro e divulgaram o vídeo na internet.

Quando indagamos a ausência de mulheres no Ministério do ilegítimo presidente, quando nos opomos ao fim do Ministério das Mulheres, quando destacamos o caráter misógino dos ataques midiáticos pro-impeachment, quando questionamos a baixa representatividade das mulheres nos cargos e espaços públicos, quando exigimos o direito de escolha da mulher sobre o seu próprio corpo, quando criticamos a divisão sexual do trabalho, a violenta formação misógina da sociedade sobre os corpos das mulheres negras e índias, quando dizemos que se há violência contra a mulher metemos a colher, quando nos recusamos a nos sentir elogiadas pelas “cantadas” que recebemos no meio da rua, quando não rimos das piadas machistas, o que estamos dizendo?

Estamos dizendo que não aceitamos mais sermos filmadas, estupradas, espancadas, dopadas e ridicularizadas enquanto a sociedade naturaliza a violência, culpabiliza a vítima e/ou se recusa a reconhecer o violentador como sua própria criação, chamando-o de “doente” ou de “animal”. Eles não são monstros, são homens, apenas. Homens conscientes, coniventes, reticentes. A gargalhada de trinta, o silêncio dos outros, cadê as vozes de indignação? O coro dos moralistas, dos pais de família, dos senhores cristãos?

Nessa lógica patriarcal-capitalista nossos corpos sofrem com suas regras de produção, mas se nos rebelamos somos irracionais. Vocês nos querem catatônicas, silenciadas, reféns – se ousarmos ser o contrário disso, nos julgam radicais. E por que não radicais?

Vocês nos batem, todos os dias. Nos olham como mercadoria. Inferiorizam nossas profissões, nosso peso, nosso jeito de rir, de sentir, de gozar. Radicais sim, de ir à raiz. Não há grito preso em nossas gargantas, em nossos olhos não existe ares de resignação, todos os nossos orifícios sangram hoje, mas o sangue não está em nossas mãos.

Nenhum passo atrás, “fazer de cada lágrima que se sucedeu um justo motivo para as nossas lutas”, não existe modificação social sem a despatriarcalização do Estado.

A revolução será feminista ou não será.

*Clarissa Nunes é Militante da Marcha Mundial das Mulheres em Pernambuco.

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