Autonomia e auto organização para combater a cultura do estupro

*Por Julia Ferry

”Tenho em mim esse rasgo de nascença.
Uma fenda entre as pernas.
Têm dias que sangro antes do sol,
E me escorre entre joelhos e pés, dor e cansaço.
No silêncio farfalha uma fome sem data.
Tenho em mim esse rasgo de nascença,
Uma fenda entre as pernas.
Nunca me foram necessárias santas.
Por demais, o grito.
A voz, em punho, na cor das ruas.
Não sou mulher, Sou mulheres!”
(Zeferinas)
bia barbosa 1103 2
”Eu sou mulheres”, e é por isso que dói tanto: porque somos todas nós. Penso nessa mulher que foi violentada, penso nas mulheres presentes na minha vida, penso em mim e nas mulheres que nem conheço… é impossível não se sensibilizar. E só nós entendemos esse sentimento!
É com muita tristeza e revolta que estamos elaborando o estupro dessa mulher por aqueles 30 homens. 30 homens filhotes do patriarcado. Não são doentes nem psicopatas. São homens perpetuando mais uma das formas de manutenção do sistema patriarcal. Não podemos perder da discussão as causas concretas desse tipo de violência.
Patologizar os agressores é biologizar uma condição social e cultural. É negar as estruturas de poder que cercam as nossas vidas e pautam as relações entre homens e mulheres, relações que envolvem exploração e dominação. Homens se utilizam do poder concedido pelo patriarcado para explorar as nossas vidas, nossos corpos.
Precisamos urgentemente politizar o debate sobre a banalização e naturalização do estupro. Por isso é tão importante também denunciarmos a prostituição e a pornografia, pois são elementos dessa cultura do estupro que fazem parte da vida dos homens que se horrorizaram com a notícia. Vi muitas postagens de mulheres denunciando alguns desses homens, dizendo que os mesmos já violentaram e oprimiram companheiras. Quando falamos dos agressores e estupradores como ”monstros e doentes”, distanciamos eles dos ”homens comuns”. O que quero dizer é que homem nenhum se identifica como monstro e doente. Dependendo do grau de esclarecimento do sujeito, ele se reconhecerá como mais ou menos conivente e participante dessa cultura machista, mas jamais se identificará como um agressor. Isso porque a sociedade aprova e autoriza esse tipo de violência. Eles são legitimados para tal, e por essa razão a denúncia contra esses casos se torna tão árdua para nós.
Afinal, para uma cultura de dominação continuar existindo é necessário que se transfigure como normalidade, é necessário que se naturalize as condições que constituem as relações de opressão. E aí esses casos exorbitantes e escancarados são dados como loucura e doença. Mas não são. São frutos do nosso mundo e do nosso velho inimigo: o patriarcado. Que utilizemos toda essa dor e revolta para avançar na nossa luta feminista. Que tenhamos como pauta central da nossa luta coletiva a autonomia das mulheres. Que ressaltemos a importância de construir espaços de luta auto organizados por nós, pois só assim teremos condições reais para transformar as nossas vidas e não ficaremos tão dependentes de um estado que se omite quando o assunto é mulher.

*Julia Ferry é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

Trackbacks

  1. […] duramente realizadas. É desse ponto que se parte o retrocesso. Em meio a uma avalanche deles, as mulheres permanecem alertas e em luta, arena da qual nunca se […]

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