Por que não queremos mulheres na gestão Temer

Por: Bruna Provazi*

Na última quinta-feira, 12 de maio, vivemos mais um capítulo sombrio da História brasileira. Começamos o dia com a imagem impactante de Temer e seus novos ministros: todos homens, todos brancos, quase todos com idade avançada, sobretudo, todos com algo em comum: milhões de reais em patrimônio declarado. Sete indiciados na Operação Lava Jato, um ex-advogado do PCC no Ministério da Justiça e um bispo da igreja Universal no Ministério da Ciência e Tecnologia. Nenhum negro(a), nenhuma mulher, nenhum representante de movimento social. E nada mais justo e coerente do que não haja mesmo, pois essa imagem ilustra perfeitamente a gestão Temer: misógina, racista, patricarcal e patronal.

Vi algumas pessoas falando na internet sobre exigir representatividade, ou mesmo sobre exigir a volta do Ministério da Cultura. Precisamos entender uma coisa: não é com migalhas de uma gestão podre que vamos reconquistar a democracia. Não queremos representatividade, porque nenhuma mulher nesta (indi)gestão golpista nos representaria. Vide o exemplo da senadora Marta Suplicy, que traiu os votos e a confiança das mulheres e da população que a colocou no lugar político onde ela está hoje em prol de uma ambição pessoal pelo poder. Não reconhecemos essa gestão fruto de um golpe arquitetado em conjunto pelo poder judiciário, pelos setores mais podres da politica e pela mídia tradicional.

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Primeiro a gente tira a Dilma, depois a gente tira a máscara

Essa foto é didática, um retrato fiel das medidas anti-povo avassaladoras que seriam tomadas já nas primeiras horas da Invasão Temer. Só para citar alguns exemplos:

– extinção dos Ministérios da Cultura, das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, do Desenvolvimento Agrário e da Comunicação;
– extinção da Controladoria-Geral da União (CGU), órgão independente do governo, responsável pelo combate à corrupção e pela transparência;
– anúncio do fim do SAMU e da Farmácia Popular a partir de agosto, segundo declaração do novo Ministro da Saúde;
– anúncio da abertura ao capital privado (leia-se privatização) dos Correios e da Casa da Moeda;
– corte do Bolsa-Família, beneficiando apenas “os 5% mais pobres da população”.

E as notícias vindas dos “parças”:

– Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciou que vai rever a lei do impeachment, para tornar esse processo mais difícil;
– Presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes mandou suspender investigação contra o senador Aécio Neves;
– Ministro do STF Dias Toffoli arquivou inquérito para investigar o senador Blairo Maggi, acusado de lavagem de dinheiro e corrupção;
– Sérgio Moro, que não dava as caras desde 17 de abril de 2016, declarou à imprensa golpista que “é preciso apaziguar o país”.

Essas medidas ilustram, para os(as) que ainda não haviam percebido, que esse impeachment NADA tem a ver com o combate à corrupção, mas sim com um golpe para promover ajuste fiscal e cortar politicas sociais, um golpe para recolocar no poder a elite brasileira que perdeu quatro eleições seguidas para a Presidência da República. Tenho inúmeras críticas ao governo Dilma, mas uma coisa já foi dita e é fato: esse governo foi deposto pelos seus acertos, e não pelos seus erros.

Não é exagero quando a esquerda diz que essa galerinha não suporta mais ver negros e negras na universidade, empregada doméstica fazendo faculdade e não aceitando mais viver em regime de semi-escravidão. O Bolsa-Família representa não apenas uma contribuição fundamental para a erradicação da miséria no Brasil, mas também uma peça fundamental para a conquista de autonomia das mulheres. Essa galerinha nunca aceitou sequer uma flexão de gênero (presidentA), que dirá aceitaria ver uma mulher no cargo mais alto do país.

Desde a ditadura militar não tínhamos ausência total de mulheres nos ministérios. São décadas de lutas dos movimentos sociais jogadas no lixo com meia dúzia de canetadas dos ratos do poder. Trouxe aqui esses exemplos porque são bastante didáticos, mas não podemos cair na tentação de ficar correndo atrás da pior notícia do último minuto. Precisamos transformar essa indignação individual em motor de luta coletiva pela democracia, entendendo também que nossa luta por transformação social vai para muito além do Estado.

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Ato #ForaTemer em São Paulo, 15/05/16. Foto: Bruna Provazi.


Com quanta indignação se faz a luta pela democracia?

Há uma parcela cada vez maior de indignados e indignadas, e esse domingo deu provas disso. O ato que reuniu mais de dez mil pessoas ontem em São Paulo e os panelaços ocorridos em mais de cem cidades brasileiras durante o pronunciamento do usurpador Michel Temer no Fantástico são apenas uma prova de que o povo não é bobo e vai dar muito trabalho pra Rede Globo continuar sustentando esse golpe.

A pauta agora precisa ser uma só: Fora Temer! Organizar a insurgência! Que a indignação nos unifique nessa batalha! Intensificar nossa auto-organização para fortalecer nossa resistência! Ocupar redes, ruas e roçados pela democracia! Reforçar as alianças entre os movimentos sociais e diversos setores da sociedade contrários ao golpe! Ganhar cada dia mais corações e mentes!

A luta segue. Continuamos em Marcha!

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Ato #ForaTemer em São Paulo (SP), 15/05/16. Foto: Bruna Provazi.

* Bruna Provazi é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo e jornalista.

Comments

  1. soniamariasantos says:

    Parabéns Bruna , um texto muito bom , a rua é a nossa casa.

  2. Iolanda Toshie Ide says:

    Curti, pacas, Bruna. Nada de mi mi mi reivindicando migalhas de uma (indi)gestão golpista. Aproveite para ver a manifestação da EUROLAT. Dos 150 parlamentares da EUROLAT, 148 consideram que há um golpe em curso no Brasil. Dois votos contrários são de golpistas brasileiros. Grandes abraços, Iolanda

  3. Maria do Carmo says:

    Leiam Eu concordo muito com a Bruna! Maria Em 16/05/2016 16:49, “Marcha Mundial das Mulheres” escreveu:

    > Marcha Mundial das Mulheres posted: “Por: Bruna Provazi* Na última > quarta-feira, 18 de maio, vivemos mais um capítulo sombrio da História > brasileira. Começamos o dia com a imagem impactante de Temer e seus novos > ministros: todos homens, todos brancos, quase todos com idade avançada, > sobretu” >

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