Nós, mulheres, não cruzaremos a ponte para o passado: golpe nunca mais!

*Por Mariana Ceci

A conjuntura nacional parece se acirrar mais a cada dia. Não apenas no Congresso Nacional, como pudemos assistir em tempo real na votação do impeachment no domingo, dia 17, mas nas ruas e nos espaços públicos que ocupamos. O avanço da onda conservadora, que não é de hoje e não vem avançando apenas no Brasil, mas contra todos os governos progressistas da América Latina, aparece cada vez menos abstrato em nossas vidas: tem nomes, rostos e projetos políticos, que simbolizam as bases patriarcais, racistas e os interesses do capital que regem nossa sociedade.
O que a ruptura com a democracia significa para nós, que lutamos diariamente para sermos protagonistas de nossa própria história, por um projeto de sociedade orientado pela igualdade e pela solidariedade? Consolidar o golpe significa voltar ao passado. Significa retornar ao ápice do modelo neoliberal que visa legislar sobre nossos corpos e territórios, transformando-os em mercadorias. Consolidar o golpe significa por fim aos avanços sociais e dar início a uma onda de retrocessos que, acompanhados do conservadorismo crescente da sociedade, buscarão cada vez mais nosso silenciamento e o de nossas lutas.
O congelamento do salário mínimo, o fim dos investimentos em saúde e educação, o fim da soberania da carteira de trabalho nas relações trabalhistas: tudo isso tem uma dimensão maior em nossas vidas, e está previsto no plano político e econômico do golpe escrito pelo PMDB e intitulado “A Ponte Para o Futuro”.
Somos nós que dividimos cada centavo de nosso dinheiro para ajudar a manter nossas famílias, que, em função do modelo de sociedade patriarcal, vamos aos mercados e as feiras e sentimos no bolso o peso do congelamento do salário, enquanto o preço do feijão sobe. Somos nós que vamos sentir o bolso no peso de ter que pagar uma consulta no SUS. Somos nós que seremos cada vez mais silenciadas e ficaremos cada vez mais longe do projeto de reforma política necessário para que nós, mulheres, que somos a maior parte da população brasileira, tenhamos a representação que nos cabe no poder Executivo e Legislativo.
Diante desse cenário, temos grandes responsabilidades: não podemos deixar de nos posicionar. Ignorar o golpe é ignorar o impacto das medidas previstas por Temer e Cunha em nossas vidas. Temos, além disso, a responsabilidade por aquelas que se foram. Por aquelas que, durante a ditadura, deram suas vidas para garantir o regime democrático e para que nós avançássemos na luta por esse projeto de sociedade que defendemos hoje. Por aquelas que foram estupradas, torturadas e mortas. Por Dilma Rousseff que resiste em meio a esse golpe que é sim um golpe patriarcal, a reação de uma sociedade que não permite ver as mulheres conquistando poder e autonomia. 3
Acreditamos na importância da unidade popular em tempos sombrios para a democracia e, assim, optamos por construir a Frente Brasil Popular, ao lado do MST, da UNE, da UBES, das militantes da economia solidária. Inserimos e transformamos também estes espaços com a nossa forma de fazer política. Ocupamos, no estado do Rio Grande do Norte assim como em tantos outros, praças, escolas, universidades. Resistimos com todas as alternativas que criamos para sermos ouvidas nos espaços políticos: com batucadas, músicas e palavras de ordem, no campo ou na cidade. Construímos, a cada minuto de luta, uma alternativa ao mundo em que vivemos. Um mundo mais do “nós” e menos do “eu”, em um Brasil que vai muito além do Sudeste e muito além das fronteiras das capitais. Não nos deixaremos enganar por essa Ponte Para o Futuro que, na realidade, leva ao abismo de nossos direitos e seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

*Mariana Ceci é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Norte

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