Sobre Bolsonaro e Bolsonaros

 

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“Um recado para a anta Dilma Rousseff: dá tempo ainda de sair daqui e depois contar historinha de que foram exilados. Fidel Castro te espera de braços abertos, Dilma. Eu só não sei quem vai carregar quem no colo no quarto nupcial”

(Jair Bolsonaro/PSC-RJ, expurgando misoginia e homofobia em ato do dia 13 de março na Av. Paulista)

 

*Por Karina Morais

No último domingo (17), durante as votações do processo de Impeachment da presidenta Dilma Rousseff, assistimos um show de horrores nas falas dos deputados contrários ao prosseguimento do mandato. Dedicavam seus votos a interesses particulares, negligenciando o caráter público da votação e os interesses da plural sociedade civil. Confesso que o que mais me surpreende é que isso nos surpreenda tanto. Recordem-se que o Congresso não é uma mera prateleira, sua composição sempre surtirá efeitos em tudo o que abarca as demandas da população. Neste sentido, qual a nossa representatividade lá dentro dado que nós, mulheres, ocupamos apenas 10% das cadeiras na Câmara? Qual parcela da sociedade é contemplada por uma Casa (dita “do Povo”) composta em 80% por homens brancos? O dia 17 foi sintomático para endossar essa reflexão.

É certo que já imaginávamos o que esperar, homens discursando em prol de um modelo único de família e, junto a ela, de religiosidade e comportamento. Não bastando, eis que o insuperável se supera: rememorou-se orgulhosamente a figura do Coronel Brilhante Ustra, um torturador! Trata-se de um dos maiores expoentes da Ditadura Militar no Brasil, o único até então reconhecido e declarado torturador pela Justiça. Antes de dizer “sim” ao Impeachment, Jair Bolsonaro foi capaz de homenageá-lo e, mais que isso, ridicularizou a experiência de uma das vítimas desse indefensável período da história de nosso país, referindo-se debochadamente ao Coronel como “o pavor de Dilma Rousseff”. Ustra foi, ninguém menos, que o chefe o Doi-Codi, o mais atroz órgão de repressão criado nos anos de chumbo, que se valia de truculência, sequestros, estupros e assassinatos aos grupos de esquerda, contrários ao Regime. Bolsonaro foi aplaudido pela Câmara do “sim”, a mesma que defende Deus e a Família.

É importante lembrar que não é de hoje que o saudoso viúvo da Ditadura mostra a que veio. O Bolsonaro do “sim” é o mesmo Bolsonaro que, em 2011, tentou impedir a criação da Comissão da Verdade, temendo a abertura dos arquivos e a condenação dos generais que tanto defende. O Bolsonaro do “sim” é o mesmo que condenou brutalmente o “Escola sem Homofobia”, projeto federal conveniado com o FNDE, que previa a discussão de gênero e sexualidade nas escolas. É esse mesmo Bolsonaro que inúmeras vezes vomitou misoginia e lesbofobia contra a presidenta Dilma, atingindo diretamente toda a comunidade LGBTTT. Sem contar as absurdas declarações de ódio, tais como “filho gay é falta de porrada”, no SBT, e “prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”, em entrevista para a PlayBoy, incitando publicamente o uso da violência. O Bolsonaro do “sim” é o mesmo que agrediu verbalmente, usando termos como “idiota” e “analfabeta”, a repórter Manuela Borges da Rede TV, em 2014. É o mesmo que, em 2003, chamou de vagabunda a Deputada Federal Maria do Rosário (PT-RS) e disse que só não a estupraria porque “não merecia”. Fato repetido e publicizado também em 2014, ao rebatê-la em um discurso dos Direitos Humanos.

A “Maria do Rosário” que Bolsonaro atinge não é apenas a Maria do PT mas, no 5º país que mais mata suas mulheres, a tal Maria somos todas nós, estigmatizadas por nosso gênero desde que nascemos e fadadas a carregarmos todos os dias o medo de virarmos estatística nos crimes de feminicídio. O Bolsonaro do “sim” também não é apenas o deputado do PSC-RJ, tampouco é simplesmente um posicionamento que consideramos ofensivo. O Bolsonaro do “sim” é a personificação de um projeto político excludente e opressor, de perseguição política, sexual, identitária e religiosa, de ataque às mulheres e a todos que não se encaixam na restrita caixinha da heteronormatividade. O Bolsonaro do “sim” é a manutenção dos papeis sociais que restringe nossos direitos e nos acondiciona à submissão.

O Bolsonaro do “sim” é símbolo da impunidade e está presente em todos aqueles que o aplaudiram.

*Karina Morais é militante da Marcha Mundial das Mulheres em São Paulo

 

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