Feminismo: questão de ordem

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*Por Fabiana Oliveira
É preciso ter clareza: a misoginia não é um “elemento adicional” no golpe jurídico e midiático em curso nosso país. Estão mentindo para nós quando colocam a questão das mulheres, as vivências e opressões a que estamos submetidas, como característica de importância secundária. A verdade é que a questão das mulheres está na ordem do dia. E não é de hoje!
Durante a disputa eleitoral, em 2014, no debate televisionado pelo SBT, Aécio Neves afirmou para Dilma Rousseff que ela receberia “sempre o olhar altivo de um homem de bem” de sua parte. Altivez, de acordo com o dicionário, é “Característica ou particularidade de altivo; nobreza ou dignidade. Comportamento que denota arrogância; que age com presunção; soberba”.
A arrogância, a presunção e soberba dos homens não é nenhuma novidade para as mulheres. Talvez seja menos surpreendente ainda para aquelas que “ousam” fazer política. Pode ser quase nada para uma mulher que aos 23 anos foi torturada nos porões da ditadura militar, venceu um câncer, duas disputas eleitorais e resiste bravamente aos ataques midiáticos – diários- que confundem sua força com “histeria”.
No último domingo, deputados reivindicaram para si o mesmo título, o de “homens de bem” para votar sim para o prosseguimento de um processo de impeachment ilegal. Votaram sim para tirar, sem a base jurídica, uma mulher da chefia do Executivo. Reivindicaram o “bem”, quer lá o que ele seja, para votar sim contra a legalização do aborto, contra a “vagabundização [sic] das mulheres”, por suas famílias e interesses.
O “homem de bem” da colônia era aquele que tinha posses, não necessitava de salário de político porque era muito rico e o que ele dizia tinha força de lei, mesmo que fosse uma estrondosa balela, pois só outro homem de bem ou a Coroa poderiam fazer oposição à ele.
Dentre os 298 deputados e deputadas federais que participaram da votação, 21 estão sendo investigados pela Operação Lava Jato, sendo que desses, 16 votaram favoráveis ao impedimento (quatro votaram contra e um não compareceu à sessão).
Não são homens de bem, mas de bens. Entre os dez deputados mais ricos do Brasil, de acordo com informações do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas um votou contra o golpe. Magda Moffato (PR), Felipe Maia (DEM), Sergio Zveiter (PSD), Jorge Côrte Real (PTB), Marinaldo Rosendo (PSB), e outros que estão na lista dos dez parlamentares mais ricos do país, são golpistas. E na luta de classes coincidências não existem!
O ideal de família há muito é utilizado para justificar as mais grotescas violências no nosso país. No ano passado, para citar o recente, foi usado em quase todos os municípios para que a “ideologia de gênero [sic]”, que na verdade são as discussões, sobre gênero e sexualidade, que caracterizam uma educação plural e libertadora, fosse proibida nas escolas. A família, como unidade produtiva, é o lugar no qual as mulheres desaparecem como sujeitas.
É utilizado para desqualificar e tornar “marginal” os outros formatos de família que não o patriarcal. É usado para dizer que o lugar das meninas continua sendo o de aprender a cuidar de bonecas, falar baixo, cozinhar e limpar as casas, para que amanhã essas sejam as mulheres “Belas, recatadas e do lar” que a Veja estampada em sua capa. Mulheres essas que estão condicionadas a ser relacionar afetivamente com homens que afirmam “possuí-las”, como uma propriedade. Homens esses, 43 anos mais velhos que elas.
O ideal de família tem sido utilizado para que as lésbicas sejam mais que invisíveis, bem como toda a comunidade LBT. O sexo e o afeto que não “reproduzem” e não alimentam o capital não são sexo ou afeto de verdade. Querem nos fazer acreditar que sempre falta algo. Querem nos fazer acreditar que não passa de uma fase. Que os nossos afetos e nossos amores não são legítimos. São vergonhosos e recrimináveis. Comercializáveis, às vezes. De tão invisíveis, às vezes parecem irreais.
A ideia de família tem sido utilizada para que se permaneça em silêncio sobre a violência doméstica. Tem sido “bem” utilizada, por sinal. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ipea (Pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, Ipea, março-abril/2014), 91% das pessoas concorda que “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”, mas 63% concorda que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”, 89% pensa “a roupa suja deve ser lavada em casa” e 82%, que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.
A despeito do que se quer para nós, a verdade é que os lares nos interessam apenas como espaço de socialização de afetos e cuidados. Interessam na medida em que o trabalho doméstico deixe de ser um fardo sob as costas das mulheres. Mulheres que mesmo antes de deixar de carregar tantos fardos, estão nas ruas, nas redes, nos roçados, nos partidos, sindicatos, coletivos ou onde mais querem estar para dizer que seus lugares são muitos. Nesse momento, muitas de nós temos um lugar comum: estamos ao lado da democracia e da presidenta democraticamente eleita. À luta, companheiras!
*Fabiana Oliveira é militante da Marcha Mundial das Mulheres de Campinas

Comments

  1. Iolanda Toshie Ide says:

    ESTUPENDO SEU ARTIGO, FABIANA! DEU O RECADO AOS MACHOS QUE QUEREM NOS MUTILAR. NÃO VAI TER GOLPE NEM RECUO DO FEMINISMO: Machis pra trás!

  2. Iolanda Toshie Ide says:

    Nem recatada, nem do lar: FEMINISTA VELHA DE GUERRA!

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