Decorativas ou empoderadas: as saídas do capital para a vida das mulheres

mulher decorativa

*Por Maria Júlia Montero

Já faz um tempo, temos refletido sobre o crescimento do conservadorismo na nossa sociedade, mas também o crescimento de uma proposta feminista de cunho liberal – que não aponta uma ruptura com o sistema capitalista, mas simplesmente “incorporar” as mulheres a ele. As reflexões que quero fazer aqui giram em torno de dois papéis que têm sido colocados como modelos para as mulheres pelo capital: o da mulher decorativa, e o da mulher empoderada.

Em primeiro lugar, a mulher decorativa, que, nas polêmicas mais recentes, foi personificada na figura de Marcela Temer: Bela, recatada e do lar, foram as palavras que a Revista Veja usou para descrevê-la (eu acrescentaria rica, acima de tudo). Casou-se com seu primeiro namorado, é formada em direito mas não exerce a profissão. De acordo com a reportagem, “seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele)”.

O melhor de tudo? Ela escolheu ser do lar. Poderia ter um bom emprego, ou continuar na carreira acadêmica, mas resolveu dedicar sua vida aos cuidados da casa e do filho (certamente com a “ajuda” de uma(s) empregada(s), né?). Eis, camaradas, a possibilidade de escolha fornecida pelo feminismo, aquilo que todas almejávamos (só que não). Ser do lar e responsabilizar-se pelas tarefas que vêm junto com ele não é mais um problema, é algo que até moças bem-sucedidas podem escolher fazer. Inclusive, nós, que criticamos a Veja, fomos criticadas de volta por sermos “intolerantes” com esse tipo de escolha – afinal, não é isso que queríamos, que as mulheres pudessem escolher? Na minha opinião, os/as autores/as desse tipo de comentário têm uma visão limitada do que é autonomia e liberdade, e lembram muito os que defendem a regulamentação da prostituição com base no argumento da “livre escolha”. Mas essa discussão renderia um outro texto, e terei que deixá-la para depois.

Esse modelo é velho conhecido das feministas: é a valorização do cuidado, do ser mãe, e da mulher no espaço privado. Um ideário muito propagado pela ideologia patriarcal, mas inalcançável para a maioria das mulheres – que precisam trabalhar todos os dias para trazer a comida para a casa e fazer o trabalho doméstico sem a ajuda de ninguém. É mais fácil “combater” esse modelo, porque ele é escancaradamente mais distante da realidade das mulheres. Mas ainda assim há uma tentativa de reciclá-lo, colocando-o como escolha e, portanto,  empoderador para as mulheres.

A título de curiosidade: a revista “Notícias”, da argentina, fez uma matéria sobre Juliana Awada, a primeira-dama de lá. Eis o título, e o texto que o acompanha: “A volta da mulher decorativa”. Continua: “Deixou tudo para acompanhar Macri. Representa o estereótipo da esposa tradicional, discreta e a serviço do lar. O contramodelo K [alusão a Kirchner]. Exclusivo: a primeira-dama explica como entende seu papel.” Dá pra ler mais sobre aqui.

Agora, o segundo modelo: a mulher empoderada. Como contraposição ao modelo recatado de Marcela Temer, uma página de facebook que sigo postou um vídeo da Michele Obama, em uma palestra recente na Argentina –  onde ela foi junto com Juliana Awada, vale ressaltar. Nessa palestra, ela fala sobre objetificação, sobre os limites impostos às mulheres, sobre quando somos firmes sermos consideradas “mandonas”, “chatas”, como nos preocupamos todo o tempo com o que pensam sobre nós, e como tudo isso fez com que sua jornada rumo ao sucesso profissional fosse muito mais penosa.

Ela, então, diz que um belo dia decidiu não mais ouvir as vozes que duvidavam dela, e seguir em frente. “Ouvi minha própria voz”, diz ela. E frente ao baixo salário, à necessidade de “equilibrar as demandas do nosso trabalho e da nossa família” e à violência doméstica, manda a solução para que as mulheres tenham o mesmo sucesso que ela:

“Precisamos que jovens mulheres como vocês obtenham educação, para se levantarem como líderes em todos os níveis da sociedade. Para que sejam líderes na sua família, educarem suas filhas para que acreditem nelas mesmas, e criar seus filhos para honrar e respeitar as mulheres. Precisamos que vocês sejam líderes em nossos laboratórios e universidades, fazendo novas descobertas e desafiando o mito de que a ciência e a matemática são algo para homens”

Ao final, diz que todas devemos nos empenhar em construir um mundo melhor (para ver o discurso completo, é só clicar aqui)

Vejam só, parte do que ela fala não é mentira: que limitam nossos sonhos por sermos mulheres, que ganhamos menos e isso é injusto etc. E, de fato, as mulheres que hoje estão em posições de liderança em qualquer espaço passaram por muito perrengue para estar lá.

O grande problema é a solução que ela apresenta: esforce-se, que tudo vai sair bem. Tenha acesso à educação e torne-se uma líder, que então as mulheres terão reconhecido seu espaço no mundo. Parece inovador, mas está longe disso: é a velha fórmula liberal, que diz que, se você se esforçar, tudo vai dar certo; e que, se não deu certo, é porque você não se esforçou o suficiente. Então, é verdade que tentam nos limitar, mas como somos mulheres fortes e empoderadas, vamos superar isso! E, superado isso, seremos profissionais de sucesso.

O discurso de Michele é só um exemplo, claro. Pipocam por aí exemplos de mulheres empresárias como exemplos de superação, de combate ao machismo. São mulheres poderosas, “self-made women”, que não dependem de ninguém e são profissionais de muito sucesso, exemplos a serem seguidos pelas mulheres do mundo (o maior modelo, na minha opinião, é Christine Lagarde, francesa presidenta do FMI). Esse é um modelo novo do que é ser mulher e, talvez por isso, algumas estejam tentadas a abraçá-lo como representação da libertação feminina, ainda que seja tão inalcançável para a maioria das mulheres quanto o primeiro.

E, por fim, o que mais me incomodou: terem colocado Michele Obama como uma contraposição ao modelo “bela, recatada, e do lar”. São mesmo dois modelos contrários? Se não somos Marcela Temer, então sejamos Michele Obama?

Nós já dissemos, várias vezes, sobre como em momentos de crise econômica o patriarcado se acirra, aumentando a precarização do trabalho das mulheres e o controle sobre nossos corpos e capacidade reprodutiva. Mas o sistema tem se aperfeiçoado cada vez mais em como controlar as mulheres e minar nossas capacidades de resistência – como faz com qualquer luta, não só as mulheres.

Os dois modelos são inalcançáveis para a maioria das mulheres do mundo, e reforçam duas coisas: por um lado, o modelo exigido pelo conservadorismo que se alastra em momentos de crise, fortalecendo o papel das mulheres como mãe (e como cuidadoras, que substituirão o estado na falta de serviços públicos), criminalizando mais ainda as que realizam aborto e desejam autonomia; por outro, o modelo da mulher empoderada, que oferece uma falsa possibilidade de liberdade e autonomia para as que “não são do lar”.

O modelo da mulher empoderada (“empreendedora” também seria um bom termo), que ultrapassa os limites impostos pela sociedade, faz parte do tipo ideal de cidadão necessário para o livre mercado: flexível, adaptável, inovador e que supera adversidades. A mulher empoderada é a mulher multifuncional, que trabalha em casa, cuida dos filhos e do marido e ainda consegue ser boa profissional e estar sempre bonita. Esse é o perfil necessário para momentos de crise (com a retomada de políticas neoliberais), que significam desemprego, aumento do trabalho informal, entre outros. A imagem (não a realidade) passada desse tipo de perfil é de uma pessoa independente e autônoma, o que – de forma bem grosseira, é claro -, se entrecruza com parte do ideário feminista de emancipação e independência das mulheres.

Momentos de crise significam, também, corte de gastos públicos, incluindo os serviços de socialização dos cuidados – como hospitais e creches. Então, ao mesmo tempo em que há mais mulheres trabalhando fora de casa e um discurso do empoderamento, aumenta a carga de trabalho doméstico sobre elas. E é aí que entra o ideário da mulher “decorativa”, e “do lar”, que acaba por justificar a não socialização do trabalho doméstico com o estado e com os homens. Estamos falando, portanto, de dois modelos de mulheres que são aparentemente contraditório, mas que, na verdade, se complementam.

Não esqueçamos que quem começou com essa bobeira de bela, recatada e o caramba foi a revista Veja. Uma revista que é panfleto do imperialismo americano no Brasil. Esse mesmo imperialismo de Michele Obama, que discursa na Argentina (junto com Juliana Awada, a primeira-dama decorativa de nossos hermanos, vejam a “contradição”) para as mulheres se empoderarem, enquanto o governo neoliberal de Macri (que tem apoio dos EUA, alô) aplica políticas antipopulares que afetam principalmente as mulheres. Esse mesmo imperialismo do “american way of life”, que afirma que com muito trabalho duro se consegue qualquer coisa, mas que no final joga seu próprio povo e os povos de outros países na miséria para garantir seus lucros exorbitantes.

Não esqueçamos, ainda, que o machismo da revista veja não foi só “machismo”, puro e simples (até porque isso não existe): está enaltecendo um determinado estilo de vida, para mulheres brancas e ricas, e pondo como modelo ideal de primeira-dama a esposa do crápula golpista que hoje quer usurpar o cargo da presidenta eleita pelo voto popular no Brasil, mostrando que, para o país entrar nos eixos, deve estar tudo no lugar: presidentE, e uma primeira-dama decorativa, que só fica em casa e leva um estilo de vida restrito às dondocas moradoras do higienópolis.

E, um terceiro ponto para não nos esquecermos: enquanto Michele Obama aparece por aí como exemplo de mulher empoderada, mulheres que fazem uma política mais questionadora da hegemonia dos Estados Unidos (com todos seus limites) são tidas como histéricas e loucas (Dilma, recentemente na revista Época, e Cristina Kirchner, na revista “Notícias”, em 2012). Ninguém vai falar que a Christine Lagarde (FMI) é doida ou está tendo acessos de raiva, né?

O projeto que querem implementar no Brasil (e na América Latina como um todo), com a dupla Michel Temer e Eduardo Cunha, é justamente a receita neoliberal puro sangue, de retirada de direitos, precarização/flexibilização do trabalho, fim de serviços públicos etc (algumas políticas já foram colocadas em prática pelo próprio governo Dilma, mas isso não é suficiente para as elites, eles querem mais). O discurso liberal de “empoderamento feminino”, sobre a capacidade das mulheres de serem empreendedoras, é parte desse imaginário, e servirá (e já serve) para legitimar as políticas de austeridade, que ameaçam a independência das mulheres – como já está acontecendo na Argentina.

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Ainda, podemos afirmar com tranquilidade que o discurso de que as mulheres precisam se esforçar para entrar no mercado de trabalho – ou seja, integrar-se à ordem – é falso. A ordem é justamente a marginalização das mulheres: basta lembrar que somos 70% dos pobres do mundo. Por isso, o discurso do “empoderamento”, longe de trazer algum poder, é liberal e individualizante, e não serve às feministas de esquerda (não só não serve, como atrapalha).

O capital mostra suas saídas para as mulheres: ou decorativas, ou “empoderadas”. Não esqueçamos que nenhuma delas serve para nós. A nossa saída é a luta nas ruas para acabar com o patriarcado, o capitalismo e o racismo e subverter a ordem em que está organizada a sociedade. Nossa saída é a luta coletiva e a organização popular!

*Maria Júlia é militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo

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