A Veja, o machismo e o golpismo

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* Por Paula Cervelin Grassi

Cê posta foto ironizando o “bela, recatada e do lar”, mas é favorável ao golpe? Num entendi foi nada!

Pensava acá esses dias todos de reivindicação contra o ideal (enraizado) de feminilidade “bela, recatada e do lar”, apresentado (e reforçado) pela Revista Veja, o quanto algumas manifestações pareciam destoar: participa da campanha através de postagens ironizando o padrão, mas é favorável ao golpe contra a democracia. Ora, ora, mas o que tem a ver uma questión com a outra? Com a intenção de provocar a reflexão (e por que não convidar mais mulheres para somar-se a favor da democracia?!) algumas considerações:

~ o tal golpe denunciado nas ruas e redes sociais por parte da população revela que as relações de gênero também estão no jogo político, prova disso é o tom ofensivo feito contra a mulher que ocupa a presidência. O machismo é a regra para atacar a presença das mulheres no espaço público, neste caso, na política. Entre os sucessivos ataques misóginos, recordamos a Revista Istoé que dias atrás denunciava em sua capa a “perda de condições emocionais” da presidenta Dilma Rousseff para manter-se no governo.

~ tais ataques para desqualificar Dilma e justificar a sua saída, partem dos setores representados por aqueles deputados federais que em “nome de Deus e da minha família”, diziam “sim” ao relatório pró- impeachment. Deus e família, palavrinhas mágicas que traduzem que o poder no congresso nacional, infelizmente é masculino, branco, hétero e rico. Os mesmos deputados que bradavam “sim” são os mesmos que protagonizam a onda conservadora contra mulheres, LGBTs, trabalhadores/as, povo negro, povo indígena e juventudes, através de projetos de leis como: Estatuto da Família (que define como família apenas as relações entre homens e mulheres), PL 5069 (lei que dificulta o aborto de mulheres vítimas de violência sexual), Dia do Orgulho Heterossexual, redução da maioridade idade penal (de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos, homicídio doloso e lesão corporal seguida de morte) e tantas outros. E ao mesmo tempo, que defendem os bons costumes a moral, são aqueles que, junto de seus assessores e financiadores, frequentam o circuito da prostituição na capital brasileira.

~ muito provável que a maioria desses deputados (e os setores) aplaudiu a reportagem da revista Veja, uma vez que a simbologia positiva da mulher “bela, recatada e do lar” valida seus apelos à família tradicional, a família heterormativa formada pelo homem, mulher e filhos. Famílias que mesmo que as mulheres estejam inseridas no mercado de trabalho, são cobradas para serem boas mães, boas e bonitas esposas (controle da sexualidade feminina) e dar conta das inúmeras tarefas do lar. Vale situar também que a intenção da revista com a tal reportagem é apresentar Temer como o presidente ideal.

~ Dilma não se encaixa no padrão de mulher bibelô, não tem marido, não se pauta pela perfeição da beleza feminina, é uma mulher que ocupa um espaço (historicamente masculino) de decisões públicas. E que assim sua figura destoa dos ideais da família tradicional.

~ Deste modo, fica feio contestar a capa da Revista Veja através de sua fotito “bela, recatada e do lar” e apoiar o golpe em curso. Posicionar-se contra o impeachment é também denunciar o patriarcado estrutural. Para que todas sejamos livres, é necessário defender a democracia e pautá-la para que garanta o respeito às nossas vidas, nossa autonomia, nossos direitos no trabalho, nossa liberdade e privacidade nas ruas e nas redes.

 

* Paula Cervelin Grassi é da Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul e da Marias Lavrandreiras

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