Bela, recatada e “Anjo do Lar”

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Foto: Elaine Campos

*Clarisse Paradis

Em 1931, a escritora inglesa Virginia Woolf foi convidada a falar na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, sobre suas experiências profissionais, em um momento que o ideal da domesticidade e da família burguesa era dominante na sociedade inglesa e a divisão sexual do trabalho era ainda mais rígida. As mulheres que exerciam trabalho remunerado, o faziam em ofícios muito limitados e com condições ainda precárias e subordinadas.

Na palestra, intitulada “Profissões para mulheres”, que seria publicada postumamente, Woolf descreve o início do seu ofício como jornalista, escrevendo resenhas de livros para jornais e revistas. Nesse momento, a autora então descobre que, para resenhar livros, ela teria que combater um fantasma que chamou de “Anjo do lar”, termo utilizado em um poema famoso da época, para referir-se ao amor conjugal e ao idealizado papel doméstico das mulheres.

O “Anjo do Lar” realmente atormentava a escritora, ameaçava sua profissão. Virginia o descreve como uma mulher:

“[…] extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto”.

O “Anjo do Lar” povoava cada casa da Inglaterra naquele momento e Virginia se deparou com ele logo nas primeiras palavras escritas no papel, fazendo sombra sobre a folha, sussurrando “Seja afável; seja meiga; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo”.

Woolf então conta que, para continuar escrevendo, para ser uma profissional, ela não tinha outra escolha, a não ser matar a mulher encarnada como “Anjo do Lar”. A justificativa, se fosse incriminada por tal ato, seria a de legítima defesa: “se eu não a matasse, ela que me mataria”. No entanto, a tarefa de matá-la não era fácil, era “[…] muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade”. E o Anjo não morria facilmente, quando Virgina achava que ele tinha acabado, ela voltava sorrateiramente.

Por fim, Virginia consegue se livrar daquele Anjo e se tornar uma escritora. Consegue soterrar a falsidade que representava aquele Anjo e finalmente se encontrar consigo mesma. E só depois dessa vitória é que ela pôde se perguntar quem era ela, que mulher era aquela e quem eram as mulheres.

Do mesmo modo que Virginia Woolf, nós mulheres contemporâneas temos, a todo instante, ir matando os fantasmas do Anjo do Lar. Esses fantasmas continuam povoando a política, produzindo ideais de primeiras-damas, em contraposição às presidentas aguerridas; continuam povoando nossos lares, fazendo com que as mulheres exerçam a maior parte do trabalho doméstico e de cuidados e, enfim, povoando nossas mentes, afinal vivemos também pressões internas que vez ou outra nos lembram que deveríamos ser esses Anjos.

Vencê-los é uma tarefa árdua, que precisa de muitas de nós. A solidariedade, a irreverência, a resistência, a autenticidade, são fundamentais armas para essa batalha.

Referência

WOOLF, Virginia. Profissões para as mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012.

*Clarisse Paradis é Militante da Marcha Mundial das Mulheres.

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